Entenda a Reforma Psiquiátrica no Brasil

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Vamos explorar como o Brasil transitou do modelo de isolamento para o cuidado em liberdade através da Reforma Psiquiátrica. Entenda o funcionamento da RAPS, o papel central dos CAPS e como a legislação garante a cidadania e a reinserção social do paciente em sofrimento mental.

O que é a Reforma Psiquiátrica?

A Reforma Psiquiátrica Brasileira (RPB) não é apenas uma mudança administrativa; é um processo social complexo que visa ofertar um novo lugar social para a loucura. Ela se sustenta em quatro dimensões fundamentais que devem ser compreendidas:

  1. Dimensão Teórico-Conceitual: Desconstrução do conceito de “doença” como único objeto, focando na “existência-sofrimento” do sujeito.
  2. Dimensão Técnico-Assistencial: Construção da rede de serviços substitutivos (RAPS) em detrimento do hospital psiquiátrico.
  3. Dimensão Jurídico-Política: Redefinição de leis e direitos (Lei 10.216/01).
  4. Dimensão Sociocultural: Transformação do imaginário social sobre a loucura para combater o estigma.

Evolução Histórica da Assistência em Saúde Mental

1841–1964: Institucionalização e Alienismo

  • Marco: Criação do Hospício de Alienados Pedro II (1841/1852), no Rio de Janeiro.
  • Paradigma: Higienista e biomédico, focado no isolamento e na ascensão da psiquiatria científica.
Hospital psiquiátrico de Pedro II. Fonte: Gov.br.

1964–1978: A “Indústria da Loucura”

  • Contexto: Ditadura Militar.
  • Característica: Privatização da assistência e fortalecimento do modelo hospitalocêntrico. Hospitais superlotados, iatrogênicos e focados no lucro, conhecidos como a “indústria da loucura”.
Registro de primeiro hospital manicomial em Minas Gerais. Fonte: Estado de Minas.

1978–2000: A Ascensão da Reforma

  • Influência Internacional: Psiquiatria Democrática Italiana (Franco Basaglia), Psiquiatria de Setor (França) e Comunidades Terapêuticas (Inglaterra).
  • 1978: Criação do MTSM (Movimento dos Trabalhadores de Saúde Mental), iniciando a crítica ao modelo asilar.
  • 1987 (Conferência de Bauru): Surgimento do lema “Por uma sociedade sem manicômios” e do Movimento da Luta Antimanicomial.
Reforma contra tratamentos manicomiais de profissionais de saúde mental. Fonte: A verdade.

Marco Legal: A Lei Paulo Delgado (Lei 10.216/2001)

Esta lei dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas com transtornos mentais. Ela define que o tratamento deve ocorrer, preferencialmente, em serviços comunitários. Um ponto crucial para provas são as modalidades de internação psiquiátrica definidas pela lei:

  1. Internação Voluntária: Com o consentimento do usuário.
  2. Internação Involuntária: Sem o consentimento do usuário, a pedido de terceiro (ex: familiar). Requer notificação ao Ministério Público.
  3. Internação Compulsória: Determinada pela Justiça.

Arquitetura da RAPS (Portaria 3.088/2011)

A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) articula o SUS para atender demandas de saúde mental e uso de álcool e drogas. Ela é composta por 7 eixos ou componentes:

Atenção Básica (Porta de Entrada)

  • Unidades Básicas de Saúde (UBS).
  • Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF).
  • Consultório na Rua: Equipes multiprofissionais que atendem populações em situação de rua in loco.
  • Centros de Convivência e Cultura.

Atenção Psicossocial Estratégica (CAPS)

Dispositivo central da rede, operando com portas abertas.

Atenção de Urgência e Emergência

  • SAMU 192.
  • Sala de Estabilização.
  • UPA 24h e Portas Hospitalares de Urgência (PS).

Atenção Residencial de Caráter Transitório

  • Unidades de Acolhimento (Adulto e Infanto-Juvenil): Oferecem acolhimento transitório (moradia temporária) para pessoas com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas, em situação de vulnerabilidade.

Atenção Hospitalar

  • Enfermaria Especializada em Hospital Geral: Leitos de retaguarda para quadros agudos que não podem ser manejados no CAPS III ou em crise.
  • Serviço Hospitalar de Referência (SHR).

Estratégias de Desinstitucionalização

  • Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT): Moradias para egressos de longas internações psiquiátricas (institucionalizados) que perderam vínculos familiares.
  • Programa De Volta para Casa (PVC): Auxílio reabilitação (financeiro).

Reabilitação Psicossocial

  • Iniciativas de geração de trabalho e renda e cooperativas sociais/empreendimentos solidários.

Detalhamento dos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial)

Os CAPS são serviços comunitários territorializados. Sua classificação depende do porte populacional e do público-alvo.

Tipo de CAPSPúblico AlvoCritério Populacional (Habitantes)Funcionamento
CAPS ITranstornos Mentais Graves> 15.000Diurno (dias úteis)
CAPS IITranstornos Mentais Graves> 70.000Diurno (dias úteis)
CAPS IIITranstornos Mentais Graves> 150.00024 Horas (inclui leitos de acolhimento noturno e feriados)
CAPS ADÁlcool e Drogas> 70.000Diurno (dias úteis)
CAPS AD IIIÁlcool e Drogas> 150.00024 Horas (atenção contínua e leitos de repouso)
CAPS iInfanto-Juvenil> 70.000Diurno (dias úteis)
CAPS AD IVÁlcool e Drogas (Cenas de uso aberto)> 500.00024 Horas
O CAPS AD IV foi instituído pela Portaria nº 3.588/2017, focado em capitais e grandes centros com cenas de uso aberto (“cracolândias”).

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