
No atendimento ao politraumatizado ou ao trauma ortopédico isolado, a fratura é a manifestação visível de uma transferência de energia cinética. Para o médico generalista e o residente, o desafio não é apenas diagnosticar a quebra do osso, mas compreender a “personalidade da fratura”.
1. Avaliação Inicial do Paciente
A abordagem inicial segue mandatoriamente o ATLS (Advanced Trauma Life Support). Lembre-se: lesões ortopédicas podem ser fatais (ex: fraturas de pelve “em livro aberto” ou fêmur bilateral) devido ao choque hipovolêmico.
A propedêutica ortopédica deve ser sistematizada para evitar erros diagnósticos em situações de estresse.
- Anamnese Direcionada:
- Mecanismo de Trauma: Alta energia (acidentes automobilísticos, quedas de altura) sugere maior dano a partes moles e lesões associadas. Baixa energia (quedas da própria altura) em idosos sugere fraturas patológicas ou por insuficiência (osteoporose).
- Histórico: Comorbidades (diabetes afeta a cicatrização), uso de anticoagulantes, tabagismo (fator crítico para não-união óssea).
- Exame Físico (A Regra dos 3 Passos):
- Inspeção: Buscar deformidades, encurtamentos, rotações e, crucialmente, a integridade da pele. Pérola: Uma pequena ferida puntiforme próxima a uma fratura é uma fratura exposta até prova em contrário.
- Palpação: Crepitação óssea e dor localizada. Avaliar a tensão dos compartimentos musculares (atenção à perna e antebraço).
- Exame Neurovascular: Deve ser documentado antes e depois de qualquer manobra de redução ou imobilização. Avalie pulsos distais, perfusão capilar, sensibilidade e motricidade.

- Imagiologia: A “Regra dos Dois”
- Duas incidências: AP e Perfil (mínimo).
- Duas articulações: Incluir a articulação acima e abaixo da lesão (para excluir fraturas associadas, ex: fratura de Maisonneuve).
- Dois membros: Comparar com o lado contralateral em caso de dúvida (especialmente em crianças, mas útil em adultos com anatomia complexa).
- Dois momentos: Antes e depois de qualquer procedimento (redução/imobilização).
- Nota: A Tomografia Computadorizada (TC) é padrão-ouro para fraturas articulares (platô tibial, pilão tibial) e do esqueleto axial.

Reconstrução tomográfica do tornozelo com a técnica MPR no plano coronal (de anterior para posterior). Fonte: https://www.mskrad.com.br/post/fratura-de-tillaux-juvenil

Reconstrução tomográfica da tíbia distal com a técnica MPR no plano transversal. Fonte: https://www.mskrad.com.br/post/fratura-de-tillaux-juvenil
2. Classificações Essenciais: A Linguagem do Ortopedista
A. Estado das Partes Moles
O prognóstico da fratura depende mais das partes moles do que do osso em si.
- Fraturas Expostas (Gustilo e Anderson): Define risco de infecção e necessidade de cobertura.
- Grau I: Ferida < 1cm, limpa.
- Grau II: Ferida > 1cm, sem avulsão extensa.
- Grau III: Lesão extensa, alta energia.
- IIIA: Cobertura óssea possível com tecidos locais.
- IIIB: Requer retalho cirúrgico para cobertura (perda de periósteo).
- IIIC: Lesão arterial com necessidade de reparo vascular.

Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof.
- Fraturas Fechadas (Tscherne e Oestern): Frequentemente negligenciada, mas vital.
- C0: Dano mínimo.
- C1: Abrasão superficial ou contusão.
- C2: Abrasão profunda, flictenas (bolhas), edema grave. Alerta: Alto risco de Síndrome Compartimental.
- C3: Desluvamento fechado (Morel-Lavallée) ou esmagamento muscular.
B. Morfologia Óssea (AO/OTA)
Sistema alfanumérico universal. O princípio básico para o generalista é entender a gravidade baseada na complexidade:
- Traço Simples (Tipo A): Uma linha de fratura.
- Cunha (Tipo B): Três ou mais fragmentos, mas com contato ósseo preservado após redução.
- Complexa/Cominutiva (Tipo C): Múltiplos fragmentos, sem contato entre as extremidades principais.

Tipos de fratura conforme gravidade. Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof.
3. Princípios de Tratamento e Tomada de Decisão
A decisão entre tratamento conservador e cirúrgico baseia-se na estabilidade e na biologia.
Tratamento Conservador
- Indicações: Fraturas estáveis, sem desvio ou com desvio aceitável, pacientes sem condições cirúrgicas.
- Métodos: Gesso, talas, tração cutânea/esquelética.
- Mecanismo de Cura: Consolidação Secundária. Ocorre a formação de calo ósseo (inflamação -> calo mole -> calo duro -> remodelação). Requer micro-movimento no foco da fratura para estimular a formação óssea.
Tratamento Cirúrgico (Osteossíntese)
Aqui reside o conceito mais importante para provas de residência: Estabilidade Absoluta vs. Relativa.
- Estabilidade Absoluta:
- O que é: Elimina qualquer movimento no foco da fratura. Redução anatômica perfeita + compressão interfragmentar.
- Implantes: Parafusos de tração e placas de compressão.
- Cura: Consolidação Primária (sem calo ósseo). O osso cura por remodelagem direta dos sistemas de Havers (“cutting cones”).
- Indicação: Obrigatória em fraturas articulares (para evitar degraus articulares e artrose futura).
- Estabilidade Relativa:
- O que é: Permite micro-movimento controlado no foco da fratura. Redução funcional (alinhamento, comprimento e rotação), sem necessidade de anatomia perfeita dos fragmentos intermediários.
- Implantes: Hastes intramedulares, placas em ponte, fixadores externos.
- Cura: Consolidação Secundária (formação de calo ósseo exuberante).
- Indicação: Padrão ouro para fraturas diafisárias (tíbia, fêmur). Preserva o “hematoma fraturário” e a vascularização periosteal.
- Controle de Danos (Damage Control Orthopedics – DCO):
- Em pacientes instáveis (politrauma grave), não se realiza a cirurgia definitiva imediata. Opta-se pela Fixação Externa provisória (rápida, < 30 min, menor sangramento) para estabilizar o paciente na UTI. A conversão para síntese definitiva ocorre quando o paciente recupera sua reserva fisiológica (“janela de oportunidade”).

Foi realizado tratamento provisório com fixador externo transarticular para controle dos tecidos e planejamento cirúrgico. Fonte: https://drleonardorochathomaz.com.br/tratamento-de-fraturas-do-planalto-tibial/
4. Complicações (Red Flags)
- Síndrome Compartimental Aguda: Aumento da pressão em um compartimento fechado levando à isquemia neuromuscular.
- Diagnóstico: Clínico! Dor desproporcional é o sinal mais precoce. “Parestesia” é tardio. “Ausência de pulso” é sinal de morte do membro (muito tardio).
- Conduta: Fasciotomia descompressiva de emergência.
- Embolia Gordurosa: Comum em fraturas de ossos longos (fêmur) em jovens. Tríade clínica: Hipoxemia (SARA) + Alterações neurológicas (confusão) + Petéquias (tórax/axilas).

Síndrome da embolia gordurosa. Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof.
- Tromboembolismo (TVP/TEP): Profilaxia mecânica e química mandatória em fraturas de membros inferiores e pelve.
- Infecção (Osteomielite): Risco crítico em fraturas expostas. Antibioticoterapia precoce e desbridamento cirúrgico agressivo são a chave da prevenção.

Classificação de Cierny e Mader – Scielo. Fonte: https://ortopedistaemsaopaulo.com.br/osteomielite/
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