Intoxicações Exógenas na Emergência: abordagem avançada por Toxissíndromes

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A abordagem do paciente intoxicado é um desafio diagnóstico. Frequentemente, a história clínica é escassa ou não confiável. O médico deve, portanto, usar o exame físico minucioso para identificar a Toxissíndrome (conjunto de sinais e sintomas fisiológicos) e guiar o tratamento empírico antes mesmo da confirmação laboratorial.

O que são intoxicações exógenas?

A Intoxicação Exógena é definida como um conjunto de efeitos nocivos ao organismo produzidos pela interação de um ou mais agentes tóxicos com o sistema biológico, representados por manifestações clínicas ou laboratoriais que revelam desequilíbrio orgânico.

Sistematização do Atendimento Inicial

Antes de focar no antídoto, garanta a estabilidade do paciente. O manejo segue o Checklist Toxicológico:

  1. Estabilização (ABCDE): Monitorização contínua, acesso venoso, proteção de via aérea se Glasgow < 8.
  2. Anamnese Dirigida (SAMPLA):
    • Agente: Qual substância? Tempo decorrido? Intencional ou acidental?
    • Antecedentes: Comorbidades psiquiátricas? Acesso a medicamentos? Ocupação (agricultor?).
  3. Exame Físico “Chave”: O diagnóstico diferencial baseia-se em 3 pilares:
    • Pupilas: Miose vs. Midríase.
    • Sinais Vitais: Bradicardia/Hipotensão vs. Taquicardia/Hipertensão.
    • Pele/Mucosas: Seca vs. Úmida (Diaforese).

Síndrome Colinérgica: A “Tempestade Úmida”

Decorre da hiperestimulação dos receptores de acetilcolina (muscarínicos e nicotínicos), geralmente por inibição da enzima Acetilcolinesterase.

Sinais e sintomas associados a Síndrome Colinérgica. Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof. 
  • Etiologia: Organofosforados, Carbamatos (“chumbinho”), inseticidas, pilocarpina.
  • Quadro Clínico (Hiperatividade Parassimpática): O paciente apresenta-se “molhado”.
    1. Muscarínicos: Miose puntiforme, Sialorreia, Broncorreia (secreção pulmonar copiosa), Lacrimejamento, Diarreia, Vômitos, Bradicardia.
    2. Nicotínicos: Fasciculações musculares, fraqueza, paralisia (incluindo diafragmática).
  • Manejo Avançado:
    1. Atropina: Antagonista muscarínico. Meta: Secar secreções pulmonares (atropinizar), não necessariamente reverter a miose. Dose: 1-2 mg EV, dobrando a cada 5 min se necessário.
    2. Pralidoxima: Reativador da colinesterase (atua na causa, revertendo efeitos nicotínicos como fasciculações).

Síndrome Anticolinérgica: O “Paciente Seco e Quente”

Ocorre pelo bloqueio competitivo dos receptores muscarínicos, impedindo a ação da acetilcolina.

Sinais e sintomas associados à Síndrome Anticolinérgica. Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof. 
  • Etiologia: Antidepressivos Tricíclicos (Amitriptilina), Anti-histamínicos, Atropina, Escopolamina, Antipsicóticos.
  • Mnemônico Clássico:
    • “Cego como um morcego” (Midríase, visão turva).
    • “Louco como um chapeleiro” (Agitação, delírio, alucinações).
    • “Vermelho como um rabanete” (Flushing cutâneo).
    • “Seco como um osso” (Boca seca, pele seca, retenção urinária/fecal).
    • “Quente como o deserto” (Hipertermia).
  • Pérola de ECG (Tricíclicos): Alargamento do QRS (>100ms) e onda R proeminente em aVR indicam bloqueio de canais de sódio e risco iminente de arritmias.
Legenda: ECG típico de intoxicação por tricíclico. Fonte: https://litfl.com/tricyclic-overdose-sodium-channel-blocker-toxicity
  • Manejo Avançado:
    • Bicarbonato de Sódio: Mandatório se QRS alargado ou arritmias ventriculares.
    • Benzodiazepínicos para agitação. Evitar neurolépticos (podem piorar efeitos anticolinérgicos e baixar limiar convulsivo).

Síndrome Adrenérgica (Simpatomimética): O “Estado Hipermetabólico”

Causada pela descarga direta de catecolaminas ou inibição de sua recaptação.

  • Etiologia: Cocaína, Crack, Anfetaminas, Ecstasy.
  • Quadro Clínico: Semelhante à anticolinérgica (Midríase, Taquicardia, Hipertensão, Agitação), mas com uma diferença crucial: a presença de DIAFORESE (SUDORESE) profusa.
Diaforese, que se diferencia da sudorese por se manifestar de maneira profusa. Fonte: https://www.megacurioso.com.br/educacao/124657-6-funcoes-corporais-com-nomes-pouco-conhecidos.htm 
  • Complicações: Infarto Agudo do Miocárdio (vasoespasmo), AVC hemorrágico, Rabdomiólise, Hipertermia Maligna.
  • Manejo Avançado:
    • Benzodiazepínicos: Droga de escolha para sedação e controle da taquicardia/hipertensão.
    • Resfriamento: Medidas físicas agressivas se hipertermia.

Nota: Evitar Beta-bloqueadores isolados (risco de “efeito alfa sem oposição”, piorando a hipertensão).

Síndrome Opioide: A “Tríade da Depressão”

Intoxicação por agonistas dos receptores opioides (mu, kappa, delta), causando depressão global do SNC.

  • Etiologia: Morfina, Heroína, Fentanil, Metadona, Tramadol, Oxicodona.
  • Tríade Clássica:
    • Coma (Rebaixamento do nível de consciência).
    • Depressão Respiratória (Bradipneia severa, FR < 12).
    • Miose Puntiforme (Pupilas “alfinete”).
Olhos relaxados em 1, midríase em 2, miose puntiforme em 3, anisocoria em 4. Fonte: https://lenscope.com.br/blog/pupilas-mioticas-miose/?srsltid=AfmBOood7VpMisgId2QvcUkK4X_aMlTmuJyZV4t5xWuVf11ggp_mzvXS 
  • Manejo Avançado:
    • Naloxona: Antagonista opioide competitivo.
    • Dose: 0,4 mg a 2 mg EV em bolus. Pode ser repetida a cada 2-3 min. O objetivo é restaurar a respiração espontânea, não necessariamente acordar o paciente totalmente (risco de abstinência aguda e agitação).

Síndrome Hipnótico-Sedativa: O “Coma Calmo”

Potencialização do efeito inibitório do GABA. Clinicamente, assemelha-se à síndrome opioide, mas com sinais vitais menos deprimidos e pupilas variáveis.

  • Etiologia: Benzodiazepínicos (Diazepam, Clonazepam), Álcool, Barbitúricos, Anticonvulsivantes.
  • Quadro Clínico: Sonolência, fala arrastada (disartria), Nistagmo (comum em álcool e fenitoína), Ataxia (marcha ebriosa), Hiporreflexia.
Nistagma. Fonte: https://www.oftalmologiatrestorres.com/nistagmus-nistagmo/ 
  • Diferencial: Pupilas geralmente normais ou levemente mióticas (não puntiformes). Sinais vitais estáveis a menos que haja co-ingestão.
  • Manejo Avançado:
    • Suporte (Ventilatório e Hemodinâmico).
    • Flumazenil: Antagonista de Benzodiazepínicos.
    • Alerta: Uso controverso. Contraindicado em pacientes com uso crônico de benzodiazepínicos (risco de convulsão por abstinência) ou suspeita de co-ingestão de antidepressivos tricíclicos. Na dúvida, priorize o suporte.

Resumo Comparativo para Diagnóstico Diferencial

ParâmetroColinérgicaAnticolinérgicaAdrenérgicaOpioide
PupilasMioseMidríaseMidríaseMiose Puntiforme
PeleSudoreicaSeca e QuenteSudoreicaFria
FC / PABradicardia / HipotensãoTaquicardia / HipertensãoTaquicardia / HipertensãoBradicardia / Hipotensão
Ruídos HidroaéreosAumentadosDiminuídos / AusentesAumentadosDiminuídos
AntídotoAtropina / PralidoximaBicarbonato (Tricíclicos)BenzodiazepínicosNaloxona

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