Novo Guideline Sepse 2026: o que você precisa saber

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Surviving Sepsis Campaign (SSC)

A Surviving Sepsis Campaign (SSC) publicou, em março de 2026, as novas diretrizes internacionais para o manejo da sepse e do choque séptico.

O documento substitui a versão de 2021 e introduz mudanças estruturais, focando não apenas na conduta médica isolada, mas na organização do sistema de saúde através de programas de melhoria de qualidade e protocolos como o “Code Sepsis”.

Novo Paradigma: Níveis de Probabilidade Diagnóstica

A diretriz reconhece a incerteza intrínseca ao diagnóstico inicial e estabelece quatro níveis de probabilidade para guiar a urgência do tratamento:

  • Sepse Definida: Confirmada clinicamente e por exames; diagnóstico alternativo improvável.
  • Sepse Provável: Alta suspeita; sepse é a hipótese mais provável.
  • Sepse Possível: Suspeita moderada; diagnósticos alternativos são igualmente prováveis.
  • Sepse Improvável: Baixa suspeita; avaliação clínica sugere outras causas.

Rastreamento: O Fim do qSOFA como Ferramenta Única

A recomendação contra o uso do qSOFA como ferramenta isolada de triagem foi elevada a Forte. Devido à sua baixa sensibilidade, ele deve ser substituído por escores mais sensíveis para pacientes agudamente enfermos, como NEWS, NEWS2, MEWS ou SIRS. O qSOFA permanece útil apenas para prever mortalidade ou tempo de permanência na UTI, mas não para detecção precoce. Além disso, sugere-se o rastreio já no ambiente pré-hospitalar (ambulâncias) para agilizar a notificação hospitalar.

Antibioticoterapia: Janelas de Tempo e Infusão Prolongada

Fonte: Surviving Sepsis Campaign: international guidelines for management of sepsis and septic shock 2026

O tempo para a primeira dose agora é ditado pela probabilidade e pela presença de choque:

  1. Sepse Definida/Provável ou Choque Presente: Administrar antimicrobianos imediatamente, idealmente em até 1 hora da detecção.
  2. Sepse Possível (sem choque): Realizar investigação rápida (limite de 3 horas); iniciar o tratamento se a suspeita de infecção persistir após esse período.

Uma das maiores atualizações é a recomendação Forte para o uso de infusão prolongada de beta-lactâmicos (como piperacilina-tazobactam e carbapenêmicos) para manutenção após a dose de ataque, visando otimizar a farmacodinâmica e reduzir a mortalidade.

Ressuscitação Volêmica: 30 mL/kg e Ajuste por IMC

A recomendação de 30 mL/kg de cristaloides nas primeiras 3 horas foi mantida, mas com ressalvas importantes para evitar a sobrecarga hídrica. Em pacientes com IMC > 30 kg/m², o volume deve ser calculado com base no peso ideal ou ajustado, prevenindo volumes excessivos em obesos. Os cristaloides balanceados (como Ringer Lactato) são sugeridos sobre o soro fisiológico 0,9%, exceto em casos de traumatismo cranioencefálico. O uso de albumina só deve ser considerado após grandes volumes de cristaloides já terem sido administrados.

Manejo Hemodinâmico: Vasopressores e Metas de PAM

Fonte: Surviving Sepsis Campaign: international guidelines for management of sepsis and septic shock 2026

A diretriz de 2026 traz uma flexibilização segura na administração de drogas vasoativas:

  • Via Periférica: Sugere-se iniciar vasopressores por acesso periférico para restaurar a pressão arterial rapidamente, em vez de atrasar o início aguardando um acesso venoso central.
  • Noradrenalina: Continua como primeira linha.
  • Metas de PAM: O alvo padrão permanece >= 65 mmHg. No entanto, para pacientes com >= 65 anos, sugere-se uma meta menor, entre 60–65 mmHg, para evitar toxicidade por excesso de vasopressores.
  • Monitorização: O uso de Tempo de Enchimento Capilar (TEC) é sugerido como adjunto ao lactato para guiar a ressuscitação, sendo uma ferramenta de baixo custo e resposta rápida.

Terapias Adjuvantes: Corticoides, SDD e Remoção de Fluidos

  • Corticosteróides: Sugeridos para pacientes com choque séptico que necessitam de terapia vasopressora contínua (ex: dose >= 0,25 µg/kg/min de noradrenalina).
  • Descontaminação Digestiva Seletiva (SDD): Sugerida para pacientes em ventilação mecânica em unidades com baixa prevalência de resistência antimicrobiana.
  • Remoção Ativa de Fluidos: Após a estabilização hemodinâmica, sugere-se o uso de diuréticos para atingir um balanço negativo e evitar edema tecidual.
  • Profilaxia de Úlcera de Estresse: Recomendado o uso de Inibidores de Bomba de Prótons (IBP) em pacientes com fatores de risco para sangramento gastrointestinal.

Código sepse: reuniões beira leito

  • O documento sugere, condicionalmente, com nível baixo de evidência, para implementação de protocolos Code sepsis ou sepsis huddle (“código sepse” em tradução livre) envolvendo uma reunião de time multidisciplinar beira leito para discutir o diagnóstico e tratamento rapidamente após uma triagem de sepse positiva. 

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Autor

  • Hideky Dolci

    Sou estudante do 10º período de Medicina, criador de conteúdo e com fortes interesses em saúde acessível, mas com abordagem crítica e medicina baseada em evidências. Estou sempre praticando algum esporte.