Pneumoconioses e Pneumopatias Ocupacionais: diagnóstico clínico-radiológico na Saúde do Trabalhador

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As pneumoconioses resultam da deposição de partículas inaladas no parênquima pulmonar e da reação tecidual a elas. A chave para o diagnóstico correto é a tríade: História Ocupacional Detalhada + Padrão Radiológico Específico + Exclusão de outras causas.

Pneumoconioses Fibrogênicas (Poeiras Minerais)

Estas condições cursam com alteração da arquitetura pulmonar e fibrose irreversível.

Silicose (A “Grande Simuladora”)

Doença pulmonar difusa causada pela inalação de sílica livre cristalina. É a pneumoconiose de maior prevalência no Brasil.

  • População de Risco: Mineração (subterrânea ou superfície), jateamento de areia, cortadores de pedras, indústria de vidro e cerâmica.
  • Fisiopatologia: A sílica é citotóxica para os macrófagos alveolares, desencadeando liberação de citocinas fibrogênicas.
  • Padrão Radiológico (OIT):
    • Nódulos: Pequenas opacidades arredondadas (< 10mm), predominando nos terços superiores e posteriores dos pulmões.
Radiografia simples de tórax de indivíduo exposto à sílica, demonstrando múltiplos nódulos com menos de 0,5 cm, no campo pulmonar superior direito. Fonte: https://www.scielo.br/j/jbpneu/a/ WBphJRFShrzmdXpjFLjMJqp/?lang=pt# 
  • Peculiaridade: Tendem a poupar os seios costofrênicos (diferença crucial para asbestose).
  • Silicose Complicada: Coalescência de nódulos formando grandes massas de fibrose (Fibrose Maciça Progressiva).
Silicone crônica com grande opacidade na projeção do lobo superior direito (seta). Fonte: https://www.scielo.br/j/jbpneu/a/ WBphJRFShrzmdXpjFLjMJqp/?lang=pt# 
  • Complicações Associadas: Risco aumentado de Tuberculose (silico-tuberculose), DPOC e doenças autoimunes (Esclerodermia/Síndrome de Erasmus). O transplante pulmonar é a única opção em fases terminais.

Asbestose (Amianto)

Fibrose intersticial difusa causada pelo asbesto.

  • População de Risco: Mineração de amianto, fabricação de caixas d’água/telhas de fibrocimento, lonas de freio, tecidos à prova de fogo e demolição civil.
  • Padrão Radiológico (OIT):
    • Opacidades irregulares (lineares/reticulares) em bases pulmonares (predomínio inferior).
fibrose intersticial difusa, em pulmão inflado, longe de áreas de tumor ou de outra lesão associada à presença de dois ou mais corpos de asbesto, por área seccional de 1 cm2. Fonte: https://www.scielo.br/j/jbpneu/a/ WBphJRFShrzmdXpjFLjMJqp/?lang=pt 
  • Placas Pleurais: Marcador de exposição (patognomônico de exposição, mas não necessariamente de asbestose doença).
  • TC de Alta Resolução: Espessamento septal interlobular, linhas subpleurais curvilíneas, bandas parenquimatosas e faveolamento (honeycombing) em casos avançados.
  • Malignidade: O asbesto é um carcinógeno potente. Causa Carcinoma Broncogênico (mais comum) e Mesotelioma Pleural (mais específico).

Pneumoconiose dos Mineiros de Carvão (PMC)

  • Agente: Poeira de carvão mineral (antracito/betuminoso).
  • Apresentação:
    • Forma Simples: Máculas de carvão, pouco sintomática.
    • Forma Complicada: Fibrose maciça, dispneia severa e alteração funcional.
Fonte: https://www.scielo.br/j/jbpneu/a/WBphJRFShrzmdXpjFLjMJqp/?format=html&lang=pt 

Pneumoconioses Não-Fibrogênicas e Granulomatosas

Beriliose (Doença Crônica pelo Berílio)

  • Agente: Berílio (indústria aeroespacial, nuclear, cerâmicas de alta tecnologia).
  • Fisiopatologia: Reação de hipersensibilidade tardia (Tipo IV) formando granulomas não-caseosos.
  • Mimetismo: Clínica e radiologicamente indistinguível da Sarcoidose.
  • Imagem: Fibrose em lobos superiores, bronquiectasias de tração.
Tomografia computadorizada de alta resolução mostrando sinais de fibrose nos lobos superiores, com bronquiectasias de tração e consolidação. Fonte: https://www.scielo.br/j/jbpneu/a/WBphJRFShrzmdXpjFLjMJqp/?format=html&lang=pt 

Siderose

  • Agente: Óxidos de Ferro (soldadores).
  • Características: Depósito de ferro nos macrófagos (siderófagos). Geralmente benigna e assintomática (forma pura), a menos que haja coexposição à sílica (Siderossilicose).
Árvore bronquial inferior esquerda escurecida por depósitos de poeira metálica. Fonte:  https://www.flickr.com/photos/ internetarchivebookimages/14757815412/ 

Doenças por Poeiras Orgânicas (Imunológicas)

Bissinose (“Síndrome da Segunda-Feira”)

  • Agentes: Poeiras vegetais (Algodão, Linho, Cânhamo, Sisal). Comum na indústria têxtil.
  • Quadro Clínico (Bifásico):
    • Agudo: Opressão torácica e dispneia que iniciam no primeiro dia da semana de trabalho e melhoram ao longo da semana ou nas folgas.
    • Crônico: Sintomas permanentes, mimetizando DPOC/Asma.
Fonte: https://www.hypeness.com.br/2016/10/a-monsanto-estaperdendo-milhoes-na-india-para-a-producao-de-algodaoorganico/ 

Bagaçose (Pneumonite de Hipersensibilidade)

  • Agente: Bagaço da cana-de-açúcar mofado.
  • Etiologia: Reação imunológica à bactéria termofílica Thermoactinomyces vulgaris.
  • Clínica: Quadro “gripal” (febre, dispneia, mialgia) 4-8h após exposição. A forma crônica evolui para fibrose irregular.
Trabalhadores expostos à cana-de-açúcar podem desenvolver uma pneumonite de hipersensibilidade, devido à exposição à bactéria Thermoactinomyces vulgaris. Fonte: https://neomondo.org.br/2018/06/21/brasil-e-o-maiorprodutor-mundial-de-cana-de-acucar/

Síndromes Específicas com Diagnósticos mais Complexos

Síndrome de Caplan (Pneumoconiose Reumatoide)

Uma manifestação rara onde ocorre a combinação de Pneumoconiose (Silicose ou Carvão) + Artrite Reumatoide.

  • Imagem: Nódulos pulmonares periféricos, múltiplos, de evolução rápida e grandes (1 a 5 cm), podendo cavitar.
Imagem em a demonstrando diminuição simétrica do espaço articular, erosões ósseas marginais e osteoporose periarticular nas articulações metacarpofalangeanas e interfalangeanas proximais. Em b, imagem demonstra radiografia do tórax exibindo nódulos de tamanhos variados, entre 1 e 5 cm de diâmetro, arredondados e bem delimitados, distribuídos na periferia dos pulmões. Fonte: https://www.jornaldepneumologia.com.br/details/639/pt-BR/rheumatoid-pneumoconiosis–caplan-s-syndrome–with-a-classical-presentation

Úlcera/Perfuração de Septo Nasal

Lesão cáustica direta em vias aéreas superiores.

  • Agentes: Cromo Hexavalente (galvanoplastia/cromagem), Arsênio, Cádmio.
  • Clínica: Rinorreia sanguinolenta, dor e perfuração septal visível à rinoscopia.
Perfuração do septo nasal antes e depois de cirurgia corretiva. Fonte: : https://www.dradaniellyandrade.com/post/perfuracao-dosepto-nasal 

Perfuração do septo nasal antes e depois de cirurgia corretiva. Fonte: : https://www.dradaniellyandrade.com/post/perfuracao-dosepto-nasal

Diagnóstico Diferencial: Asma Ocupacional vs. RADS

A distinção é baseada na latência e no mecanismo.

CaracterísticaAsma OcupacionalRADS (Síndrome de Disfunção Reativa das Vias Aéreas)
MecanismoImunológico (IgE) ou irritativo crônico.Irritativo direto (lesão química/térmica).
LatênciaPossui período de latência (sensibilização).Sem latência. Início imediato (< 24h).
ExposiçãoExposição crônica a baixas/médias doses.Exposição única, acidental e em alta concentração.
AgentesFarinhas, isocianatos, látex, metais.Cloro, Amônia, Ácido Sulfúrico, Fumaça.
DiagnósticoPeak Flow seriado (Trabalho vs. Casa).História de acidente químico + Espirometria.

Classificação de Schilling (O Nexo Causal)

Fundamental para a medicina legal e previdenciária, define a relação entre a doença e o trabalho.

  1. Grupo I (Causa Necessária): O trabalho é a causa única.
    • Ex: Silicose, Asbestose, Intoxicação por Chumbo. (Sem trabalho = Sem doença).
  2. Grupo II (Fator Contributivo): O trabalho é um fator de risco (contributivo), mas não necessário.
    • Ex: Hipertensão, Doença Coronariana, Câncer, Burnout, Doenças Osteomusculares.
  3. Grupo III (Agravador): O trabalho desencadeia ou agrava uma doença latente/preexistente.
    • Ex: Asma, Dermatite de Contato Alérgica.

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