Dermatite atópica em bebês e Lesões Neonatais

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A pele da criança, especialmente no período neonatal, é imatura e propensa a diversas manifestações. Enquanto a Dermatite Atópica exige um manejo crônico e disciplinado, muitas lesões neonatais são autolimitadas e requerem apenas o “olhar clínico” treinado para o diagnóstico correto, evitando tratamentos desnecessários e tranquilizando a família.

O que é a Dermatite Atópica em bebês?

A Dermatite Atópica é a dermatose mais comum na infância. Trata-se de uma doença inflamatória, de curso crônico e recidivante, que frequentemente representa a primeira manifestação da chamada “Marcha Atópica” (a progressão para rinite alérgica e asma).

Representação da Marcha Atópica. Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof. 

Fisiopatologia da Dermatite Atópica

A doença é multifatorial, resultante da interação entre genética e ambiente. Os mecanismos centrais incluem:

  • Barreira Epidérmica Disfuncional: Ocorre uma mutação na proteína filagrina associada a uma alteração lipídica, resultando em perda de água transepidérmica e maior permeabilidade a alérgenos.
  • Desregulação Imunológica: Na fase aguda, há predomínio da resposta Th2 (com aumento de IgE); na fase crônica, a resposta evolui para Th1.
  • Disbiose: Anormalidade no microbioma cutâneo, frequentemente com colonização excessiva por Staphylococcus aureus.

Quadro Clínico por Faixa Etária

Os sintomas cardinais, presentes em todas as fases, são pruridos intensos e xerodermia (pele seca). A topografia das lesões muda conforme a criança cresce:

  • Lactentes (< 2 anos): Acomete principalmente a face (tipicamente poupando o triângulo nasolabial) e superfícies extensoras. As lesões são agudas (pápulas, eritema, exsudato e crostas).
Xerodermia poupando trígono nasolabial. Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof.  
  • Pré-Puberal (2-10 anos): A doença migra para as flexuras (dobras dos braços e joelhos). As lesões tendem a ser subagudas ou crônicas, com alta ocorrência de infecção secundária (crostas melicéricas).
  • Adolescentes/Adultos: Foco em flexuras, pescoço, face e dorso das mãos. Há predominância de liquenificação (espessamento da pele).
Liquenificação e espessamento da pele em flexuras. Fonte:Frazier W, Bhardwaj N. Atopic Dermatitis: Diagnosis and Treatment. Am Fam Physician. 2020 May 15;101(10):590-598. PMID: 32412211.

Diagnóstico e Critérios da Dermatite Atópica

O diagnóstico é essencialmente clínico. Considera-se obrigatório o prurido nos últimos 12 meses associado a pelo menos 3 critérios menores:

  • Histórico de pele seca (xerose).
  • Histórico pessoal ou familiar de atopia (asma/rinite).
  • Início precoce dos sintomas (geralmente < 2 anos).
  • Eczema em locais característicos para a idade.
SCORAD ( Scoring Atopic Dermatitis). Fonte: https://www.researchgate.net/profile/Fb-De-Waard-Van-Der-Spek/publication/6124575/figure/fig1/AS:280414313828381@1443867390874/The-SCORAD-index-derived-from-the-report-of-the-European-Task-Force-on-Atopic.png 

Sinais Menores: Achados como Pregas de Dennie-Morgan (dupla linha infraorbitária), ceratose pilar, hiperlinearidade palmar e ictiose vulgar corroboram o diagnóstico

Como tratar a Dermatite Atópica em bebês?

  • Educação e Higiene: Banhos rápidos, mornos, com sabonetes líquidos de pH ácido e sem buchas.
  • Hidratação: É a base da terapia. Deve ser feita com emolientes diariamente, preferencialmente aplicada 3 minutos após o banho (com a pele ainda úmida) para “aprisionar” a água.
  • Controle Anti-inflamatório:
    • Corticosteroides Tópicos: São a 1ª linha. A potência deve ser escolhida conforme a área: baixa potência na face/períneo (para evitar atrofia) e média/alta no corpo.
    • Inibidores da Calcineurina (Tacrolimus/Pimecrolimus): 2ª linha. Excelentes poupadores de corticoide, ideais para uso em face e áreas intertriginosas.
  • Anti-histamínicos: O prurido da DA não é mediado apenas por histamina. Portanto, os anti-histamínicos são usados principalmente se houver rinite associada ou para aproveitar o efeito sedativo à noite, melhorando o sono.

Lesões Benignas do Recém-Nascido

O recém-nascido pode apresentar dermatoses transitórias que assustam os pais. O papel do médico é diferenciar o fisiológico do patológico.

Pústulas e Vesículas: O Diagnóstico Diferencial

  • Eritema Tóxico: Surge entre o 2º e 3º dia de vida. Caracteriza-se por pápulas ou pústulas sobre uma base eritematosa (“mordida de pulga”). É rico em eosinófilos e poupar palmas e plantas é a dica de ouro.
Eritema tóxico. Fonte: O’Connor NR, McLaughlin MR, Ham P. Newborn skin: Part I. Common rashes. Am Fam Physician. 2008 Jan 1;77(1):47-52. PMID: 18236822.
  • Melanose Pustulosa Transitória: Presente já ao nascimento. A lesão evolui de pústula para descamação em colarete, deixando uma mancha hipercrômica residual. É rica em neutrófilos e, diferentemente do eritema tóxico, afeta palmas e plantas.
Melanose pustulosa. Fonte: O’Connor NR, McLaughlin MR, Ham P. Newborn skin: Part I. Common rashes. Am Fam Physician. 2008 Jan 1;77(1):47-52. PMID: 18236822
  • Miliária: Causada pela obstrução das glândulas sudoríparas (calor/excesso de roupas). Pode ser cristalina (vesículas sem inflamação) ou rubra (pápulas eritematosas).
Miliária cristalina e rubra. Fonte: O’Connor NR, McLaughlin MR, Ham P. Newborn skin: Part I. Common rashes. Am Fam Physician. 2008 Jan 1;77(1):47-52. PMID: 18236822.
  • Hiperplasia Sebácea: Pápulas amareladas no dorso nasal e região malar, causadas por andrógenos maternos.
  • Milia: Cistos de inclusão epidérmica (pontos brancos perolados), comuns na face e gengiva (Pérolas de Epstein).

Lesões Vasculares

  • Mancha Salmão (Nevo Simples): Mancha rósea na glabela (“beijo dos anjos”) ou nuca (“bicada da cegonha”). Intensifica com o choro. As da face costumam desaparecer, mas as da nuca podem persistir.
  • Mancha Vinho do Porto (Malformação Capilar): Mancha vinhosa, permanente, geralmente unilateral e que respeita a linha média. Se afetar a área do ramo oftálmico do trigêmeo (V1), deve-se investigar Síndrome de Sturge-Weber (risco de angiomas leptomeníngeos e glaucoma).
Tipo de mancha Vinho do Porto. Fonte: Diociaiuti A, Paolantonio G, Zama M, Alaggio R, Carnevale C, Conforti A, Cesario C, Dentici ML, Buonuomo PS, Rollo M, El Hachem M. Vascular Birthmarks as a Clue for Complex and Syndromic Vascular Anomalies. Front Pediatr. 2021 Oct 7;9:730393. doi: 10.3389/ fped.2021.730393. PMID: 34692608; PMCID: PMC8529251
  • Hemangioma: Tumor vascular benigno que cresce rápido nos primeiros meses e involui lentamente (até os 9 anos). Se houver risco de complicação funcional (ex: periorbitário, via aérea), o tratamento de escolha é o Propranolol.
Hemangioma. Fonte: McLaughlin MR, O’Connor NR, Ham P. Newborn skin: Part II. Birthmarks. Am Fam Physician. 2008 Jan 1;77(1):56-60. PMID: 18236823.

Lesões Hiperpigmentadas e Outras

  • Melanocitose Dérmica (Mancha Mongólica): Mancha azul-acinzentada na região lombossacra decorrente de melanócitos na derme. Tende a desaparecer com o tempo.
  • Nevo Melanocítico Congênito: Mancha escura, podendo ter pelos. Lesões gigantes exigem rastreio para melanocitose neurológica.
  • Nevo Sebáceo: Placa amarelada (alopecia) no couro cabeludo. Pode aumentar na puberdade.
  • Aplasia Cutis: Ausência congênita de pele e tecido subcutâneo, geralmente no couro cabeludo. Se houver defeito ósseo associado, deve-se investigar Síndrome de Adams-Olivier ou Trissomia do 13.

Dominar esses diagnósticos permite evitar a “corticofobia” no tratamento da dermatite atópica e previne intervenções desnecessárias nas lesões neonatais benignas, garantindo um cuidado pediátrico de excelência.

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