
A infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) em crianças ocorre, majoritariamente, por transmissão vertical, ou seja, da mãe para o filho durante a gestação, o parto ou o aleitamento materno.
Diferentemente do adulto, o diagnóstico pediátrico apresenta particularidades relevantes, sobretudo nos primeiros meses de vida, devido à presença de anticorpos maternos circulantes. Por esse motivo, o raciocínio diagnóstico em pediatria é essencialmente etário-dependente, exigindo conhecimento específico para evitar atrasos no tratamento ou diagnósticos equivocados.
Como ocorre a transmissão do HIV na infância?
A principal forma de infecção pelo HIV em crianças é a transmissão vertical, que pode ocorrer em três momentos distintos:
- Intraútero, por passagem transplacentária do vírus;
- Intraparto, durante o contato com sangue e secreções maternas;
- Pós-natal, principalmente por meio do aleitamento materno, que é contraindicado em mães vivendo com HIV.
A ausência de pré-natal adequado, diagnóstico tardio materno e falhas na profilaxia antirretroviral aumentam significativamente o risco de transmissão.
Sintomas e manifestações clínicas
O quadro clínico do HIV pediátrico pode ser variável e, muitas vezes, inespecífico. Em crianças sem história conhecida de exposição, a suspeita diagnóstica pode surgir a partir de sinais de alerta:
- Pneumonia intersticial linfoide (LIP);
- Parotidite crônica;
- Infecções bacterianas de repetição (otites, sinusites graves);
- Candidíase oral persistente ou refratária;
- Hepatoesplenomegalia e linfadenopatia generalizada;
- Déficit de crescimento ponderoestatural;
- Atraso no desenvolvimento neuropsicomotor.
Essas manifestações refletem a imunossupressão progressiva e devem sempre levantar a hipótese de infecção pelo HIV.

Diagnóstico do HIV na pediatria
O diagnóstico da infecção pelo HIV em crianças varia conforme a idade, sendo 18 meses o principal marco temporal.
Crianças menores de 18 meses (criança exposta)
Nessa faixa etária, testes sorológicos não são confiáveis devido à presença de IgG materna. O diagnóstico é feito por testes virológicos, que detectam diretamente o vírus Pediatria HIV :
- Carga viral do HIV (RNA plasmático);
- DNA pró-viral, que identifica o vírus integrado ao genoma da célula hospedeira.
Cronograma de testagem
Para não perder janelas de transmissão, segue-se um calendário rigoroso de coleta:
- Ao nascimento;
- Com 14 dias de vida;
- Com 6 semanas;
- Com 12 semanas.
Interpretação dos resultados
- Carga viral indetectável: manter seguimento conforme calendário.
- Carga viral detectável (qualquer valor): iniciar imediatamente tratamento antirretroviral preemptivo e coletar nova amostra para confirmação.
O diagnóstico é confirmado com:
- Duas cargas virais detectáveis em momentos distintos, ou
- Uma carga viral detectável associada a DNA pró-viral positivo.

Zona cinzenta: crianças entre 12 e 18 meses
Nesse período, a maioria das crianças já eliminou os anticorpos maternos, mas isso nem sempre ocorre. A conduta inclui:
- Sorologia anti-HIV aos 12 meses;
- Se positiva, repetir aos 18 meses para confirmação;
- Se negativa, com exames virológicos prévios negativos, o caso pode ser encerrado.
Crianças com mais de 18 meses
Após essa idade, o sistema imunológico é autônomo e o diagnóstico segue o mesmo fluxo do adulto:
- Teste rápido ou imunoensaio como triagem;
- Confirmação com segundo teste de metodologia diferente.
Tratamento da infecção pelo HIV em crianças
O tratamento baseia-se no uso precoce da terapia antirretroviral (TARV), que deve ser iniciada assim que houver suspeita consistente de infecção, mesmo antes da confirmação definitiva. A introdução precoce da TARV reduz mortalidade, preserva a função imunológica e melhora o desenvolvimento da criança.

Prevenção e profilaxia
A prevenção da infecção pelo HIV em crianças envolve estratégias integradas:
- Diagnóstico precoce do HIV materno;
- Uso adequado de TARV durante a gestação;
- Profilaxia antirretroviral no recém-nascido;
- Contraindicação do aleitamento materno.
Além disso, todos os recém-nascidos expostos devem receber profilaxia para Pneumocystis jirovecii a partir da 4ª semana de vida, com sulfametoxazol-trimetoprima, até que a infecção pelo HIV seja excluída ou conforme critérios clínicos.
Qual a expectativa de vida de uma criança com HIV?
A expectativa de vida de uma criança com HIV, atualmente, é próxima à da população geral, desde que o diagnóstico seja feito precocemente e o tratamento antirretroviral (TARV) seja iniciado e mantido de forma adequada.
Panorama atual
Com o advento da TARV combinada, o HIV passou de uma doença fatal na infância para uma condição crônica controlável. Crianças que:
- iniciam TARV precocemente (especialmente nos primeiros meses de vida),
- mantêm boa adesão ao tratamento,
- apresentam acompanhamento regular,
podem alcançar a idade adulta, envelhecer e ter qualidade de vida semelhante à de crianças não infectadas.
Fatores que influenciam a expectativa de vida
A sobrevida está diretamente relacionada a alguns pontos-chave:
- Momento do diagnóstico
Diagnóstico tardio está associado a maior risco de infecções oportunistas e dano imunológico irreversível. - Início precoce da TARV
Reduz mortalidade, preserva CD4 e diminui reservatórios virais. - Adesão ao tratamento
Falhas na adesão aumentam risco de resistência viral e progressão da doença. - Acesso ao sistema de saúde
Seguimento regular, vacinação adequada e profilaxias oportunas são fundamentais.
Quando o prognóstico é pior?
Sem tratamento, a evolução é desfavorável:
- Cerca de 50% das crianças infectadas verticalmente evoluem para formas graves nos primeiros anos de vida;
- A mortalidade é elevada, especialmente por infecções oportunistas como pneumonia por Pneumocystis jirovecii.
Conquiste a aprovação e acompanhe mais notícias!
Gostou do conteúdo? Continue acompanhando nosso blog para ficar por dentro das principais notícias sobre residência médica, editais e oportunidades que podem transformar sua carreira!

