Nutrição Perioperatória: do rastreio à alta

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A desnutrição é um inimigo silencioso na cirurgia, atingindo até 50% dos pacientes cirúrgicos. O trauma cirúrgico, por si só, aumenta o consumo energético basal (que gira em torno de 25-35 kcal/kg/dia), criando uma “tempestade perfeita” para o catabolismo.

Como identificar o paciente em risco?

O limiar de suspeição deve ser baixo. Observe sempre perda ponderal, baixa ingesta e perda de massa muscular. Não confie apenas no “olhômetro”; utilize ferramentas validadas:

Ferramentas de Triagem (Scores)

  1. PONS (Preoperative Nutrition Screen): Uma ferramenta simples para triagem inicial. Considera risco se houver qualquer resposta positiva para:
    • IMC <18,5 (<20 se idoso >65 anos).
    • Perda de peso não planejada >10% nos últimos 6 meses.
    • Redução da ingesta alimentar >50% na última semana.

Fluxograma do padrão PONS. Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof.

  1. NRS-2002 (Nutritional Risk Screening): É o padrão ouro para pacientes hospitalizados.
    • Como funciona: Avalia o Estado Nutricional (IMC, perda de peso, ingesta) + Gravidade da Doença (estresse metabólico).
    • Idade: Pacientes > 70 anos ganham 1 ponto extra.
    • Resultado: Score > 3 indica risco nutricional e necessidade de intervenção terapêutica.
Tabela do padrão NRS-2002. Fonte:https://www.researchgate.net/profile/Carlos-Arbeloa/publication/360470266/figure/tbl8/AS:11431281121544564@1677011920331/Nutritional-Risk-Screening-NRS-2002.png 
  1. ASG (Avaliação Subjetiva Global): Baseada em história clínica (alteração de peso, sintomas gastrointestinais, capacidade funcional) e exame físico (perda de gordura subcutânea, edema, ascite). Classifica o paciente em:
    • A: Bem nutrido.
    • B: Moderadamente desnutrido (ou suspeito).
    • C: Gravemente desnutrido.
Tabela de avaliação padrão ASG. Fonte: https://www.researchgate.net/publication/26340928/figure/fig1/AS:645338666917888@1530872136147/FIGURA-1-Avaliacao-subjetiva-global-segundo-DETSKY-et-al-18.png 

Avaliação Laboratorial e de Composição Corporal

  • Marcadores Bioquímicos: A Albumina é a mais usada (meia-vida 18-20 dias), mas exige cautela: ela é uma proteína de fase aguda negativa. Isso significa que em processos inflamatórios/infecciosos ela cai naturalmente, não refletindo apenas desnutrição. Outras opções incluem Transferrina (meia-vida 8-9 dias) e Pré-albumina (2-3 dias), que respondem mais rápido.
  • Sarcopenia (Perda de Massa Muscular e Força):
    • Hand-grip test (Dinamometria): Avalia força de preensão palmar. Alterado se < 26kg (homens) ou < 16kg (mulheres).
    • DEXA: Padrão-ouro para avaliar composição corporal, mas pouco disponível na urgência.
    • Tomografia (Índice de Psoas): Mede a área do músculo psoas ao nível de L3. É extremamente útil pois muitos pacientes cirúrgicos já realizam TC abdominal por outros motivos.
Sarcopenia do Psoas. Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof. 

Estratégias no Pré-Operatório

Se identificamos o risco, precisamos agir. A via preferencial é sempre a Oral (mais fisiológica), seguida pela Enteral. A Parenteral fica reservada para quando o trato gastrointestinal não puder ser usado, devido ao maior custo e risco de infecção.

Pré-Habilitação

Idealmente iniciada 4 a 6 semanas antes da cirurgia. Envolve um “combo” multimodal para preparar o paciente para a maratona que é a cirurgia:

  • Exercícios físicos supervisionados (combate à sarcopenia).
  • Suporte psicológico.
  • Tratamento de anemia e controle rigoroso de comorbidades.
  • Interrupção do tabagismo (pelo menos 4-8 semanas antes) e etilismo.

Abreviação de Jejum (Protocolo ERAS/ACERTO)

Aquele jejum absoluto de 8h (“nada por boca após a meia-noite”) é obsoleto para a maioria dos pacientes.

  • Recomendação: Líquidos claros contendo carboidratos (maltodextrina) até 2 horas antes da indução anestésica.
  • Benefício: Melhora o controle glicêmico, reduz a resistência insulínica e a sensação de sede/fome, sem aumentar risco de broncoaspiração.
  • Contraindicações (Quem mantém o jejum clássico): DM2 descompensado, gastroparesia, refluxo grave sintomático e obstrução intestinal.

Imunonutrição

Uso de fórmulas enriquecidas com imunomoduladores (Arginina, Ômega-3 e Nucleotídeos).

  • Indicação: Pacientes de alto risco nutricional (perda ponderal grave) ou cirurgias de grande porte (ex: oncológica abdominal, cabeça e pescoço).
  • Tempo: Deve ser usada por no mínimo 7 dias no pré-operatório.
  • Desfecho: Reduz complicações infecciosas (principalmente ferida operatória) e tempo de internação.

Dietas Específicas para Comorbidades

A prescrição dietética deve ser ajustada à patologia de base:

  • Pulmonar (ex: DPOC): Dieta com menos carboidratos e mais gordura/proteína. O metabolismo de carboidratos produz mais CO2, o que pode dificultar o desmame ventilatório.
  • Renal: Restrição de volume, potássio, fósforo e magnésio. Porém, atenção: se o paciente renal for crítico ou sarcopênico, a restrição proteica clássica pode ser relaxada para evitar catabolismo.
  • Hepatopata: Uso de lipídeos TCM (Triglicerídeos de Cadeia Média) pois sua absorção independe de sais biliares, e aminoácidos de cadeia ramificada (BCAA) que são metabolizados no músculo, poupando o fígado e evitando encefalopatia.
  • Diabético: Foco em baixo índice glicêmico, troca de carboidratos simples por lipídeos e fibras para retardar o esvaziamento gástrico e evitar picos glicêmicos.

Manejo Pós-Operatório

O objetivo é a recuperação funcional rápida.

  1. Realimentação Precoce: Deve ser estimulada (Protocolo ERAS). O intestino delgado recupera a motilidade horas após a cirurgia. O suplemento nutricional oral já pode ser oferecido na dieta de prova.
Protocolo ERAS. Fonte: https://academiamedica.com.br/blog/saude-baseada-em-valor-o-exemplo-do-protocolo-eras-no-perioperatorio 
  1. Balanço Hídrico: Evitar hiper-hidratação (“paciente encharcado”). O excesso de cristaloides causa edema de alças (piorando o íleo paralítico) e congestão pulmonar. A hidratação deve ser guiada por metas.
  1. Síndrome de Realimentação: Atenção redobrada em pacientes graves que ficaram muito tempo em jejum (> 5 dias). A reintrodução abrupta da dieta gera um pico de insulina que joga Potássio, Fósforo e Magnésio para dentro da célula, causando hipofosfatemia grave, arritmias e morte. Comece devagar e reponha eletrólitos!

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