Cirurgia Neonatal: o que é, diagnóstico, manejo inicial, tratamento e mais!

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A Cirurgia Neonatal aborda o diagnóstico e tratamento de malformações congênitas e urgências abdominais que acometem recém-nascidos. O foco principal é a correção de defeitos anatômicos que impedem a alimentação ou respiração, além de urgências vasculares e infecciosas.

Atresia de esôfago

A falha na separação entre o intestino anterior e o divertículo respiratório gera uma das emergências mais clássicas da neonatologia.

Esôfago e traqueia têm a mesma origem embriológica: o intestino anterior. Durante as primeiras semanas de gestação, o broto respiratório surge a partir do intestino anterior e se diferencia para formar traqueia, brônquios e demais estruturas. Se houver erros nesse processo haverá comunicação entre a traqueia e o esôfago. Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof. 

A classificação de Gross detalhada

Embora o Tipo C (86,6%) — atresia proximal com fístula distal — seja o mais comum, entenda a implicação clínica dos outros:

  • Tipo A (7,5% – Long Gap): Sem fístula. O abdome é escavado (sem gás). O desafio aqui é a distância entre os cotos.
  • Tipo E (3,8%): Fístula em H. Não há atresia, apenas a comunicação. O diagnóstico é tardio, muitas vezes por pneumonias de repetição.
Classificação de Gross. Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof. 

Diagnóstico e manejo inicial

  • Sinais Clínicos: Além da cianose às mamadas, atente para a salivação aerada excessiva.
  • A “Manobra” da Sonda: A sonda nasogástrica não progride. O Raio-X mostra a sonda enrolada no coto proximal.

Gasometria do Raio-X: Gás no estômago/intestino = Fístula Distal presente (ar da traqueia desceu). Ausência de gás = Provável Tipo A ou B.

Associação VACTERL

A presença de atresia exige investigação sistêmica completa:

  • Vertebrais (Hemivértebras).
  • Anorretais (Imperfuracao anal).
  • Cardíacas (As mais comuns associadas).
  • Traqueoesofágicas.
  • Renais.
  • Limbs (Defeitos de membros, ex: rádio).

Tratamento cirúrgico e complicações

  • Padrão: Toracotomia com ligadura da veia ázigos, fechamento da fístula e anastomose término-terminal.
  • Long Gap (Cotos distantes):
    • Técnica de Livaditis: Miotomia circular no coto proximal para alongá-lo.
    • Substituição: Se não for possível unir, usa-se o cólon (esofagocoloplastia) ou estômago.
Técnica Long Gap: mais de 3 corpos vertebrais entre um coto e o outro. Fonte: Acervo de Aulas do Grupo MedCof. 
  • Complicações:
    • Traqueomalácia: Causa estridor expiratório e infecções respiratórias.
    • Deiscência: Risco de pneumotórax e saliva no dreno.
    • Estenose: Disfagia futura, tratada com dilatação.

Estenose Hipertrófica de Piloro (EHP): O Distúrbio Metabólico

Ocorre hipertrofia da camada muscular (circular e longitudinal) do piloro, obstruindo a saída gástrica.

Cronologia e fisiopatologia

  • Janela de Ocorrência: Não ocorre ao nascer! Surge tipicamente entre 2 a 10 semanas de vida.
  • Etiologia: Multifatorial (genética, uso de eritromicina, primogênitos homens).
 A camada muscular do piloro fica hipertrofiada a ponto de obstruir a mucosa. Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof. 

O ciclo da alcalose

A criança vomita HCL (ácido clorídrico) persistentemente.

  1. Perde H+ e Cl- (Hipocloremia).
  2. Gera Alcalose Metabólica.
  3. O rim tenta compensar a hipovolemia reabsorvendo Na+ e água. Para reabsorver Na+, ele precisa excretar K+ (Hipocalemia) ou H+.
  4. Acidúria Paradoxal: Na escassez de K+, o rim excreta H+ na urina para salvar o Na+. Resultado: O sangue está alcalino, mas a urina está ácida.

Manejo pré e pós-operatório

  • Estabilização: Corrigir a desidratação e a alcalose (Cl > 100, HCO3 < 30) antes da cirurgia.
  • Cirurgia: Piloromiotomia de Fredet-Ramstedt.
  • Dica Prática: Vômitos no pós-operatório imediato são comuns por edema local. Não se desesperar nem reoperar nos primeiros 4 dias.
O diagnóstico é dado pela USG. Fonte: Ashcraft’s Pediatric Surgery. 6th Edition. Expert Consult – Online + Print. Authors: George Holcomb J. Patrick Murphy Daniel Ostlie. eBook ISBN: 9780323187367

Obstruções Intestinais: atresias e mecanismos

Diferencie a origem embriológica:

  • Atresia Duodenal: Falha na recanalização do lúmen intestinal. Sinal da Dupla Bolha. Alta associação com Síndrome de Down. Cirurgia: Diamond Shape.
  • Atresia Jejuno-Ileal: Acidente vascular intrauterino (isquemia). Pode gerar intestino curto.
    • Tipo 4 (“Apple Peel” ou Casca de Maçã): Intestino distal espiralado ao redor de um vaso, com grande perda de comprimento.
Representação da Atresia duodenal. Fonte: Acervo de ilustrações do Grupo MedCof. 

Má Rotação Intestinal: o perigo do volvo

O intestino médio sofre uma herniação fisiológica e deve retornar rodando 270º anti-horário. Se falhar:

  • Não Rotação: Menos grave. Delgado todo à direita, cólon à esquerda.
  • Rotação Incompleta (O Perigo): O ceco fica alto, fixado por bandas fibrosas (Bandas de Ladd) que cruzam sobre o duodeno, podendo obstruí-lo ou torcer o pedículo vascular (Volvo de Intestino Médio).
Sinal do Saca-rolhas no Rx contrastado. Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof. 

Cirurgia de Ladd: Desfazer o volvo + Lise das bandas de Ladd + Posicionamento em não-rotação + Apendicectomia (para evitar confusão diagnóstica futura).

Enterocolite Necrotizante (ECN): Estadiamento de Bell

É uma doença inflamatória aguda com necrose de coagulação, típica de prematuros.

Fatores de Risco

Prematuridade (imaturidade da barreira mucosa) + Isquemia/Hipóxia + Dieta enteral (fórmula). O leite materno é protetor.

Estágios de Bell Simplificados

  • Estágio I (Suspeita): Distensão, resíduo gástrico, sangue oculto. Rx normal ou íleo leve.
  • Estágio II (Definida): Sangue visível nas fezes, acidose, plaquetopenia.
    • Sinal Radiológico: Pneumatose Intestinal (gás dissecando a parede da alça) ou gás no sistema porta.
Neonato em classificação IIb de Enterocolite necrotizante. Fonte: Fonte: https://www.aparcih.org.br/down/cpi_2017/Enterocolite_ Camila.pdf 
  • Estágio III (Avançada/Perfurada): Choque séptico, CIVD, peritonite.
    • Sinal Radiológico: Pneumoperitônio (gás livre).

Decisão Cirúrgica

  • Indicação absoluta: Perfuração (Pneumoperitônio).
  • Opções:
    • Laparotomia: Ressecção e estomia (mais comum).
    • Drenagem Peritoneal (Penrose): Medida “ponte” ou paliativa para recém-nascidos de extremo baixo peso (<1kg) ou muito instáveis para suportar a cirurgia aberta.

Defeitos da Parede: Gastrosquise x Onfalocele

Aprofundando nas nuances de manejo:

Gastrosquise (Abertura Lateral)

  • Intestino: Sofre serosite química (inflamação) pelo contato direto com líquido amniótico. Fica edemaciado e espessado, o que dificulta o retorno à cavidade.
  • Silo: Frequentemente necessário. Coloca-se uma bolsa estéril que é apertada progressivamente dia após dia para reduzir as alças sem causar síndrome compartimental abdominal.

Onfalocele (Abertura Central)

  • Conteúdo: Pode conter fígado e baço, além de intestino. Tudo protegido pelo saco (âmnio + peritônio).
Manejo da onfalocele e da gastrosquise no recém-nascido / Management of omphalocele and gastroschisis in the newborn Alves, Fernanda Osorio; Naujorks, Caroline da Costa; Azenha, Marcus Vinícius da Silva; Bastos, João Cyrus. Acta méd. (Porto Alegre) ; 36: [9], 2015. 
  • Manejo Conservador: Em onfaloceles gigantes onde a cirurgia é impossível de imediato, usa-se a técnica “Paint and Wait” (Pintar e Esperar) com agentes escarificantes (ex: sulfadiazina de prata) para epitelizar o saco progressivamente, transformando-o em uma hérnia ventral para correção futura.
  • Síndrome de Beckwith-Wiedemann: Onfalocele + Macroglossia + Gigantismo. Atenção à hipoglicemia neonatal.

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