
O trauma pélvico é geralmente um evento de alta energia (atropelamentos, quedas de altura, colisões) e carrega uma mortalidade elevada devido à hemorragia maciça.
Anatomia do Sangramento
Por que a pelve sangra tanto?
A pelve pode acomodar praticamente toda a volemia do paciente. A origem do sangramento é a chave para o tratamento:
- Venosos (90%): Plexo venoso pré-sacral e fraturas ósseas (plexo ósseo). A maioria para com estabilização mecânica (fechamento do anel pélvico) e tamponamento.
- Arteriais (10%): Ramos da Ilíaca Interna (Pudenda Interna, Glútea Superior, Sacral Lateral). Estes não param com tamponamento simples e exigem angioembolização.
Avaliação Inicial e Exame Físico
No “C” do ABCDE, se houver suspeita de trauma pélvico, devemos avaliar a estabilidade mecânica.
Manobra de Estabilidade
- Compressão das cristas ilíacas (fechamento) e sínfise púbica.
- Regra de Ouro: Testar a estabilidade apenas uma vez. Se for instável, não repita, pois você pode desalojar coágulos e reiniciar o sangramento.
Inspeção: Buscar hematoma perineal, sangramento uretral (uretrorragia) ou vaginal e discrepância de comprimento de membros.
Conduta Imediata no Pré-Hospitalar/Sala de Trauma
- Lençol ou Cinta Pélvica: Deve ser passado na altura dos trocânteres maiores (não nas cristas ilíacas!) para fechar o anel pélvico e reduzir o volume da pelve.
Classificação das Fraturas (Mecanismo de Trauma)
Entender a força aplicada ajuda a prever lesões associadas:
- Compressão Lateral (Tipo A): Mais comum (colisão lateral). O anel roda para dentro. Sangra menos, mas lesa muito vísceras (bexiga, uretra).
- Compressão Anteroposterior (Tipo B – “Livro Aberto”): Abertura da sínfise púbica. Alarga o volume pélvico, causando sangramento abundante.
- Cisalhamento Vertical (Tipo C): Queda de altura. Rompe todos os ligamentos (inclusive o assoalho pélvico). É a mais grave e instável.

Algoritmo de Decisão: O Paciente Instável
O divisor de águas é a estabilidade hemodinâmica.
Paciente ESTÁVEL
Segue para Tomografia com Contraste.
- Se houver Blush arterial (vazamento de contraste): Angioembolização.
- Tratamento definitivo da fratura pela ortopedia.
Paciente INSTÁVEL
Aqui o tempo é vida. Iniciar Protocolo de Transfusão Maciça (PTM).
O exame fundamental é o e-FAST ou Lavado Peritoneal.
Cenário A: Pelve Instável + FAST Positivo (+)
Significa que há sangue na barriga E na pelve. Quem está matando o paciente? Provavelmente ambos.
- Conduta: Laparotomia Exploradora (para controlar baço/fígado/mesentério) + Tamponamento Pélvico Extraperitoneal (packing) + Fixação Externa.
Cenário B: Pelve Instável + FAST Negativo (-)
O sangramento é exclusivamente pélvico (retroperitoneal). Não abra o peritônio!
- Conduta: Tamponamento Pélvico Extraperitoneal (incisão infraumbilical sem violar o peritônio) + Fixação Externa.
- Se continuar sangrando ou houver blush na TC: Angiografia para embolização.

Procedimentos de Salvamento
Tamponamento Pélvico Extraperitoneal (Packing)
É uma cirurgia de controle de danos.
- Incisão infraumbilical mediana.
- Dissecção pré-peritoneal (espaço de Retzius).
- Inserção de compressas (3 a 6) de cada lado da bexiga, empurrando o peritônio para cima e comprimindo os plexos venosos contra o sacro.
- As compressas são retiradas em 48-72h.
Fixação Externa
Fundamental para reduzir o volume da pelve e estancar o sangramento venoso do plexo ósseo. Deve ser feita simultaneamente ao packing ou logo após.
REBOA (Balão Endovascular de Oclusão da Aorta)
Pode ser usado na Zona 3 (aorta infra-renal) para ocluir o fluxo arterial para a pelve temporariamente enquanto se prepara a cirurgia ou embolização.

Trauma Pelviperineal Complexo
É quando há fratura pélvica associada a lesão de partes moles (exposição óssea, lesão de reto, vagina ou uretra). A mortalidade por sepse é altíssima.
Tríade do Tratamento:
- Desbridamento: Limpeza exaustiva de tecidos desvitalizados.
- Derivação: Colostomia (se lesão retal/perineal grave) e Cistostomia (se lesão uretral).
- Drenagem: Drenos amplos na região pré-sacral.
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