Entenda como funciona e como tratar as principais queixas gástricas

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Dentro do estudo da gastroenterologia, temos várias temáticas importantes. Mas dentre elas, as afecções gástricas e duodenais são as principais queixas comuns na clínica. Uma compreensão sólida da etiologia, fisiopatologia, diagnóstico e tratamento da úlcera péptica, infecção por H. pylori, gastrite atrófica e dispepsia funcional é fundamental para uma abordagem eficaz do paciente.

Úlcera Péptica

A úlcera péptica, uma lesão na mucosa que se estende além da muscular da mucosa, surge do desequilíbrio entre os fatores de proteção da mucosa gástrica e a acidez. A úlcera duodenal é aproximadamente cinco vezes mais comum que a gástrica.

Possíveis localizações da úlcera péptica. Fonte: Acervo de Aulas do Grupo MedCof.

Etiologia e Fisiopatologia

As duas principais etiologias são a infecção por Helicobacter pylori e o uso de Anti-inflamatórios Não Esteroides (AINEs).

  1. H. pylori: A infecção estimula a produção de gastrina, levando à hipercloridria. O bacilo também é um produtor de urease, que converte ureia em bicarbonato (HCO-3) e amônia (NH-3), substâncias que estimulam a produção de toxinas que lesam a mucosa, além de gerar uma resposta imune inflamatória crônica local.
  1. AINEs: Agem inibindo a ciclo-oxigenase (COX1 e COX2), o que suprime a produção de prostaglandinas a partir do ácido araquidônico. Isso resulta na redução da defesa gástrica, alteração na vascularização e diminuição da perfusão local. O dano também ocorre por ação tópica direta e pelos metabólitos hepáticos secretados na bile.

Outras etiologias menos comuns incluem Síndrome de Zollinger-Ellison (SZE), hiperparatireoidismo, neoplasias (carcinoma, leiomiossarcoma, GIST), infecções (tuberculose, sífilis, herpes simples, CMV, fungos), mastocitose sistêmica, doenças granulomatosas (Doença de Crohn, sarcoidose), isquemia (incluindo vasoconstrição por cocaína/crack/anfetamina), úlcera de anastomose e úlcera de estresse em terapia intensiva.

Diagnóstico e Classificação

O diagnóstico é feito por Endoscopia Digestiva Alta (EDA), principalmente na presença de sinais de alarme.

  1. Classificação de Sakita: Avalia o estágio de cicatrização da úlcera:
  • A (Active): A1 (bordas nítidas, fibrina e hematina) e A2 (bordas definidas, fibrina espessa).
Exemplo de úlcera péptica do tipo A1 na classificação de Sakita. Fonte: Lee YJ et al, PLoS One, 2016. 
  • H (Healing): H1 (fibrina tênue, hiperemia marginal) e H2 (ilha de regeneração)
Úlcera tipo H2 na classificação de Sakita. Fonte: Lee YJ et al, PLoS One, 2016.
  • S (Scar): S1 (cicatriz avermelhada) e S2 (cicatriz esbranquiçada).
Úlcera peptica tipo S2 para classificação de Sakita. Fonte: Fonte: Lee YJ et al, PLoS One, 2016.
  1. Classificação de Forrest (em caso de sangramento): Determina a necessidade de terapia endoscópica, sendo IA, IB e IIA as lesões com alto risco de ressangramento que necessitam de intervenção.

Em úlceras gástricas, a biópsia é obrigatória para excluir malignidade, e a EDA deve ser repetida após o tratamento para confirmar a cicatrização.

Complicações

As complicações são sangramento (a mais comum), perfuração e obstrução (a mais rara). O sangramento se apresenta tipicamente como hematêmese ou melena. A úlcera é a principal causa de hemorragia digestiva alta (HDA) não varicosa.

Tratamento

O tratamento visa a cicatrização da lesão e a prevenção de recidivas:

  • Medidas Gerais: Cessar tabagismo e etilismo, e evitar o uso de AINEs/AAS.
  • Farmacológico: Inibidores da Bomba de Prótons (IBP), PCABs, anti-H2, antiácidos, e sucralfato. É crucial tratar o H. pylori se a pesquisa for positiva.
  • Cirurgia: Reservada para casos de complicações (ex: peritonite por perfuração), não cicatrização ou recidivas constantes.

H. Pylori

A infecção por H. pylori é comum e nem sempre sintomática. Sua pesquisa deve ser realizada sempre que uma úlcera for identificada.

Diagnóstico

Os métodos diagnósticos são divididos em invasivos (requerem EDA) e não invasivos. Para evitar falso-negativos, o paciente deve suspender o IBP 2 semanas antes, e antibióticos/bismuto 4 semanas antes do teste.

Tabela de teste diagnóstico. Fonte: Acervo de Aulas do Grupo MedCof 

Indicação de Tratamento 

De acordo com o IV Consenso Brasileiro – 2018, o tratamento está indicado nas seguintes condições:

  • Dispepsia
  • Úlcera
  • Câncer gástrico
  • Linfoma MALT
  • Uso prolongado de AINEs/AAS
  • Uso prolongado de IBP
  • Gastrite associada ao H. pylori
  • Anemia ferropriva de causa desconhecida
  • Deficiência de vitamina B12
  • Púrpura Trombocitopênica Imune (PTI)

Atenção: A Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE) não configura indicação para o tratamento.

Esquemas Terapêuticos

O IV Consenso Brasileiro (2018) estabelece esquemas de 10-14 dias:

  • 1° Linha (Tríplice Padrão – OAC – 14 dias):
  • O: IBP dose padrão 12/12h
  • A: Amoxicilina 1g 12/12h
  • C: Claritromicina 500 mg 12/12h
  • 2°  Linha (Quádrupla com Bismuto – BOTM – 10-14 dias):
  • B: Subcitrato de bismuto (120 mg q6h ou 240 mg q12h)
  • O: IBP dose padrão 12/12h
  • T: Tetraciclina 500 mg q6h (ou Doxiciclina 100 mg q12h)
  • M: Metronidazol 400 mg 8/8h
  • Alergia à Penicilina (Tríplice com Claritromicina e Levofloxacino – OCL – 14 dias):
  • O: IBP dose padrão 12/12h
  • C: Claritromicina 500 mg 12/12h
  • L: Levofloxacino 500 mg 24/24h

Controle de Cura

O controle de cura é necessário e deve ser realizado pelo menos 4 semanas após o término do tratamento, preferencialmente com métodos não invasivos.

Gastrite Atrófica

A gastrite atrófica é caracterizada por perda das glândulas gástricas e está associada a risco aumentado de neoplasia endócrina (TNE) e adenocarcinoma.

Etiologias

  1. Autoimune:

 Envolve anticorpos anti célula parietal e antifator intrínseco. Esse tipo acomete primariamente o corpo gástrico e evolui com deficiência de Vitamina B12 (anemia perniciosa) e ferro devido à hipocloridria. Por fim, ele cursa com hipergastrinemia.

  1. H. pylori:

Acomete o antro inicialmente e, com a cronificação e atrofia, migra para o corpo gástrico. O tratamento do agente etiológico é mandatório.

Dispepsia Funcional

É uma condição crônica baseada em critérios clínicos, com exclusão de doença orgânica.

Critérios Diagnósticos 

Segunda Roma IV – 2016, o diagnóstico é estabelecido pela presença de um ou mais dos seguintes sintomas por pelo menos 3 meses, com início há pelo menos 6 meses:

  • Plenitude pós-prandial
  • Saciedade precoce
  • Dor epigástrica
  • Queimação epigástrica
  • + Ausência de doença estrutural na investigação (ex: EDA).

Tratamento

O tratamento é direcionado à síndrome predominante:

  1. Síndrome do Desconforto Pós-Prandial: Pró-cinéticos.
  2. Síndrome da Dor Epigástrica: Antissecretores.

Em todos os casos, se houver pesquisa positiva para H. pylori, o agente deve ser tratado. Se a dispepsia for refratária, pode-se considerar o uso de antidepressivos.

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