Assistência ao parto: o que é, cuidados e fases

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A assistência ao parto baseia-se no conjunto de cuidados prestados à mulher e ao recém-nascido durante o trabalho de parto, parto e pós-parto.

O estudo do parto se divide em entender o “motor” (útero), o “objeto” (feto) e o “trajeto” (bacia), além de como monitorar a interação entre eles através do tempo.

Fisiologia da contração

Para que o parto aconteça, o útero precisa funcionar de maneira coordenada. Definimos Trabalho de Parto como a presença de contrações regulares e rítmicas associadas à modificação cervical (dilatação e esvaecimento). Cuidado para não confundir com as contrações de Braxton-Hicks, que são focais, irregulares e não alteram o colo.

O Tríplice Gradiente Descendente (TGD)

A contração eficaz obedece a uma ordem hierárquica fundamental:

  1. Início: Começa no fundo do útero (perto das trompas).
  2. Duração: Dura mais tempo no fundo do que no colo.
  3. Intensidade: É mais forte no fundo do que no segmento inferior.
Dilatação cervical durante a primeira fase clínica do parto (E. Friedman, 1954). Acervo de imagens MedCof. 

Isso garante que a força seja vetorialmente direcionada para baixo, empurrando o feto contra o colo.

Monitorização da Atividade Uterina

  • Hipotonia: Contrações fracas ou infrequentes.
  • Hipertonia/Taquissistolia: Mais de 5 contrações em 10 minutos. Risco alto de hipóxia fetal por redução do fluxo placentário.

Mecanismo de Parto: Os Movimentos Cardinais

O feto realiza uma “dança” para passar pelo canal de parto. Didaticamente, separamos em tempos principais e acessórios:

  1. Insinuação (Tempo Principal): É a passagem do maior diâmetro transverso da cabeça fetal pelo estreito superior da bacia.
    • Acessório: Flexão. O feto encosta o queixo no esterno, oferecendo o menor diâmetro (suboccipitobregmático) para a bacia.
  2. Descida (Tempo Principal): O feto progride pelo canal.
    • Acessório: Rotação Interna. A cabeça gira para alinhar a sutura sagital com o diâmetro anteroposterior da saída da bacia (geralmente occipito-púbica).
  3. Desprendimento (Tempo Principal): A saída da cabeça.
    • Acessório: Deflexão. A cabeça faz um movimento de “dobradiça” no púbis (hipomóclio) e estende o pescoço para sair.
  4. Restituição (Tempo Principal): O corpo sai.
    • Acessório: Desprendimento dos Ombros. A cabeça faz a rotação externa (olha para a coxa da mãe) para alinhar os ombros no sentido anteroposterior.

Quais são as fases do parto?

1ª Fase: Dilatação

Dividida em fase latente e fase ativa (início com 4 cm de dilatação).

  • Partograma: Deve ser aberto na fase ativa. Traça-se a Linha de Alerta imediatamente e a Linha de Ação 4 horas depois.
Modelo de ficha com partograma, respectivas linhas de alerta e ação e outros registros de interesse no acompanhamento do trabalho de parto. Fonte: Ministério da Saúde, 2001
  • Rotinas Proscritas: Não se faz mais enteroclisma (lavagem intestinal), tricotomia (raspar pelos) ou amniotomia (romper bolsa) de rotina.
  • Monitorização: Toque vaginal a cada 4 horas; Ausculta fetal a cada 15 minutos; PA e Temperatura a cada 4 horas.

2ª Fase: Período Expulsivo

Vai da dilatação total (10 cm) até o nascimento.

  • Duração: Aceitável até 4 horas com analgesia.
  • Posição: Verticalizadas ou de conforto são preferíveis à litotômica dorsal estrita.
  • Episiotomia: Seletiva! Indicada apenas em risco iminente de laceração grave, sofrimento fetal ou uso de fórceps. Deve ser médio-lateral direita (foge do esfíncter anal).
Manobra de Episiotomia. Fonte: https://www.fetalmed.net/episiotomiaquando-ela-e-necessaria-e-quando-nao-e/ 

3ª Fase: Dequitação (Secundamento)

Saída da placenta. Tempo máximo normal: 30 minutos.

  • Baudelocque-Schultze: Placenta sai pelo centro, face fetal (brilhante) primeiro. O sangramento vem depois. (Mais comum).
  • Baudelocque-Duncan: Placenta sai pela borda lateral. Sangramento precede a saída.
Baudelocque-Schultze (inicia centralmente, placenta sai primeiro e depois vem sangue). Fonte: https://www.chegg.com/flashcards/parto-d8ee42ec-be0b-49fa-b931-187c856e5c11/deck  
  • Conduta Ativa: Essencial para prevenir hemorragia. Administrar 10 UI de Ocitocina IM logo após o nascimento do ombro anterior + Tração controlada do cordão.

Distocias: quando o parto não evolui

Identificamos os problemas analisando o Partograma.

Distocias Funcionais (Do Motor)

  • Fase Ativa Prolongada: Dilatação lenta (< 1 cm/hora), ultrapassando a linha de alerta. Geralmente por hipoatividade uterina. Correção: Ocitocina e Amniotomia.
  • Parto Taquitócito: Evolução violenta (< 4 horas total). Alto risco de laceração de trajeto e atonia uterina pós-parto.

Distocias de Trajeto/Objeto (Mecânicas)

  • Parada Secundária da Descida: Dilatação total, mas a altura da apresentação (DeLee) não muda em 2 toques sucessivos (intervalo de 1h). Sugere Desproporção Céfalo-Pélvica (DCP).
  • Parada Secundária da Dilatação: Dilatação estagnada em 2 toques com intervalo de 2 horas ou mais, mesmo com boa dinâmica.

Emergência: distocia de mmbro

Ocorre quando a cabeça sai, mas o ombro anterior impacta na sínfise púbica. É uma emergência com “teto” de 5 minutos para evitar lesão cerebral ou morte.

Mnemônico ALEERTA (Sequência de Ação)

  1. A – Ajuda: Chamar neonatologista, anestesista e obstetra auxiliar.
  2. L – Levantar pernas (McRoberts): Hiperflexão das coxas sobre o abdome. Retifica a lordose lombar e abre a bacia. (Resolve a maioria dos casos).
  3. E – Externa (Pressão Suprapúbica – Rubin I): Empurrar o ombro fetal logo acima do púbis (jamais fazer Kristeller/fundo uterino!).
  4. E – Episiotomia: Considerar para dar espaço às mãos do obstetra.
  5. R – Remover braço posterior (Jacquemier): Entrar na vagina, buscar o braço posterior e “lavar o rosto” do feto com ele.
  6. T – Toque (Manobras Internas):
    • Rubin II: Empurrar a escápula para aduzir os ombros.
    • Woods: Rotação tipo saca-rolhas (180º).
    • Woods Reverso: Rotação no sentido contrário.
  7. A – Alterar posição (Gaskin): Colocar a paciente em quatro apoios.
Manobra de McRoberts (B) e Manobra de Rubin I (pressão suprapúbica) (A). Acervo de Imagens MedCof.  

Parto Instrumental (Fórceps)

Usado para abreviar o expulsivo (exaustão materna, cardiopatia) ou sofrimento fetal. Requisitos: Dilatação total, bolsa rota, cabeça insinuada (DeLee +3) e feto vivo.

  • Simpson: Pequenas rotações e tração simples (alívio).
  • Kielland: O único que corrige grandes rotações, assinclitismo e variedades transversas. Não tem curvatura pélvica fixa.
  • Piper: Exclusivo para cabeça derradeira no parto pélvico.
Da esquerda para direita: Simpson. Kielland. Piper. Acervo de imagens MedCof.   

Indução do parto: Índice de Bishop

Antes de induzir, avaliamos o colo uterino com o Índice de Bishop (pontua: Altura, Dilatação, Esvaecimento, Consistência e Posição).

  • Bishop Desfavorável (< 6): O colo está “verde” (duro, posterior, fechado). Precisamos amadurecer o colo antes de contrair.
    • Métodos: Misoprostol (Prostaglandina) ou Sonda de Foley/Krause (Mecânico).
  • Bishop Favorável (≥ 6): O colo está maduro. Podemos iniciar a indução direta.
    • Métodos: Ocitocina e/ou Amniotomia.
Índice de Bishop. Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof. 

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