
Os corrimentos vaginais referem-se a qualquer alteração na secreção fisiológica da vagina, podendo ser de natureza fisiológica (normal) ou patológica (indicativo de doença).
A Fisiologia do Equilíbrio vaginal
Durante a vida reprodutiva (menacme), o estrogênio estimula a proliferação do epitélio estratificado e o acúmulo de glicogênio nas células superficiais e intermediárias. Esse glicogênio serve de substrato para os Lactobacillus (principalmente espécies como L. crispatus e L. gasseri). Ao fermentarem o glicogênio, essas bactérias produzem ácido lático, mantendo o pH vaginal ácido (entre 3,8 e 4,5), o que cria uma barreira química contra patógenos. Além disso, a produção de peróxido de hidrogênio (H2O2) reforça essa defesa.

Quando esse sistema falha, o pH se altera e as infecções oportunistas ou disbioses surgem. O raciocínio clínico deve ser guiado, primariamente, pela medição do pH vaginal e pela microscopia.
O que são vulvovaginites?
Vulvovaginite é a inflamação do epitélio estratificado da vagina e da pele da vulva. Geralmente decorre da quebra da homeostase vaginal (alteração da flora de Lactobacillus e do pH). As etiologias mais frequentes são infecciosas: Vaginose Bacteriana (desequilíbrio da flora), Candidíase (fungo) e Tricomoníase (IST). Também podem ser não infecciosas (alérgicas, atróficas ou químicas).
Candidíase Vulvovaginal
É causada pelo fungo do gênero Candida, sendo a Candida albicans responsável por 80 a 90% dos casos. É um fungo dimórfico, que transita da forma de levedura (colonização assintomática) para a forma de hifa (invasão tecidual).
Fatores de Risco
- Gestação (altos níveis de estrogênio e glicogênio);
- Uso de antibióticos;
- diabetes mellitus descompensada;
- Imunossupressão.
Quadro Clínico
O sintoma guia é o prurido vulvar intenso. O corrimento é caracteristicamente branco, grumoso (aspecto de “leite coalhado”), aderido às paredes vaginais e sem odor. Ao exame, observam-se hiperemia, edema e fissuras vulvares.

Diagnóstico
- pH ácido (< 4,5);
- Teste de aminas negativo;
- Visualização de hifas ou esporos (blastoconídios) no exame a fresco.
Tratamento
Pode ser dividido:
- Não Complicada: Antifúngicos tópicos (Miconazol, Nistatina) ou Fluconazol 150mg em dose única via oral.
- Complicada/Recorrente: Definida por 4 ou mais episódios em um ano. Exige tratamento de indução (Fluconazol nos dias 1, 4 e 7) seguido de manutenção semanal por 6 meses. Em casos de Candida não-albicans (ex: Glabrata), que respondem mal aos azólicos, pode-se usar ácido bórico intravaginal.
Vaginose Citolítica
É o principal diagnóstico diferencial da candidíase recorrente que não responde aos antifúngicos. Ocorre por uma superpopulação de Lactobacillus, levando a uma acidez excessiva (pH < 3,8) que provoca a lise das células epiteliais.
Diagnóstico
A clínica é idêntica à candidíase (prurido, ardor, corrimento branco), mas a microscopia revela excesso de lactobacilos, grande quantidade de citólise (núcleos nus, restos celulares) e ausência de hifas.

Tratamento
O objetivo é alcalinizar o meio vaginal. Utilizam-se banhos de assento com bicarbonato de sódio ou óvulos vaginais de bicarbonato.
Vaginose Bacteriana
É a causa mais comum de corrimento vaginal. Não se trata de uma infecção por um agente único, mas de uma disbiose (desequilíbrio de flora): ocorre a substituição maciça dos Lactobacillus por bactérias anaeróbias estritas (Gardnerella vaginalis, Prevotella, Mobiluncus, Atopobium). Não é considerada uma IST.
Quadro Clínico
Corrimento fluido, homogêneo, branco-acinzentado, com odor fétido característico (peixe podre) que piora após a menstruação ou coito (devido à alcalinidade do sangue e do sêmen). Geralmente não há sinais inflamatórios (dor ou ardor).
Diagnóstico (Critérios de Amsel – necessário 3 de 4)
- Corrimento homogêneo e fino.
- pH > 4,5.
- Teste de Aminas (Whiff test) positivo (odor fétido após adição de KOH 10%).
- Presença de Clue Cells (células-alvo) na microscopia.

Tratamento
Metronidazol 500mg VO de 12/12h por 7 dias ou Metronidazol Gel Vaginal. Deve-se orientar a paciente sobre o efeito antabuse (reação grave com álcool).
Tricomoníase
Infecção Sexualmente Transmissível (IST) causada pelo protozoário flagelado Trichomonas vaginalis.
Quadro Clínico
Corrimento abundante, amarelo-esverdeado, bolhoso e fétido. Diferente da VB, causa inflamação intensa, com disúria, polaciúria, prurido e dispareunia. O colo do útero pode apresentar pontilhados hemorrágicos característicos (Colo em Framboesa ou Strawberry Cervix).

Diagnóstico
- pH elevado (> 4,5, frequentemente > 5,0);
- Teste de aminas pode ser positivo;
- Visualização do protozoário móvel e flagelado no exame a fresco.
Tratamento
Metronidazol 2g em dose única ou 500mg de 12/12h por 7 dias. O tratamento do parceiro sexual é obrigatório para interromper a cadeia de transmissão.
Vaginite Aeróbia e Inflamatória Descamativa
São condições inflamatórias onde os lactobacilos são substituídos por bactérias aeróbias entéricas (E. coli, S. aureus, Streptococcus).

Quadro Clínico
Corrimento purulento, eritema vaginal intenso, ardor e dispareunia.
Microscopia
Aumento significativo de leucócitos, presença de bactérias cocoides e células parabasais (indicando aumento da descamação e inflamação).
Tratamento
Clindamicina creme vaginal 2% ou Corticoides tópicos (Hidrocortisona).
Vaginite Atrófica
Parte da Síndrome Geniturinária da Menopausa. O hipoestrogenismo leva à redução do glicogênio, diminuição dos lactobacilos e elevação do pH.
Sinais
Mucosa pálida, lisa, perda das rugas vaginais, friabilidade, secura e dispareunia.
Tratamento
Estrogênio tópico para restaurar o trofismo.
O que são cervicites?
Diferente das vaginites que afetam o epitélio escamoso, a cervicite é a inflamação da mucosa endocervical (epitélio colunar), ou seja, são uma infecção alta, frequentemente causada por Chlamydia trachomatis e Neisseria gonorrhoeae.
Clamídia
Causada pela bactéria Chlamydia trachomatis (sorotipos D a K), um bacilo gram-negativo intracelular obrigatório. É a IST bacteriana mais prevalente no mundo e a principal causa de infertilidade tubária prevenível.
Sinais
Apresentação “silenciosa”. Cerca de 70-80% das mulheres são assintomáticas, o que favorece a ascensão silenciosa para o trato superior (endometrite/salpingite). Quando sintomática, gera cervicite mucopurulenta, disúria, dispareunia de profundidade e sinusorragia (sangramento ao toque). O colo pode apresentar aspecto edemaciado e friável.
Tratamento
Azitromicina 1g (via oral, dose única) ou Doxiciclina 100mg (12/12h por 7 dias). É obrigatório tratar o parceiro e rastrear outras ISTs.
Gonorreia
Infecção causada pela Neisseria gonorrhoeae, um diplococo gram-negativo aeróbio. Tem um período de incubação mais curto que a clamídia e alto potencial inflamatório local.
Sinais
Tende a ser mais sintomática que a clamídia, embora assintomáticos também existam. Causa uma cervicite com corrimento purulento abundante (amarelo-esverdeado), uretrite com disúria intensa e polaciúria. É uma causa comum de inflamação das glândulas vestibulares (Bartholinite e Skeneíte). Se não tratada, evolui rapidamente para Doença Inflamatória Pélvica (DIP).
Tratamento
Devido à resistência bacteriana, a base é Ceftriaxona 500mg (Intramuscular, dose única). Protocolos atuais recomendam sempre associar o tratamento para Clamídia (Azitromicina) devido à altíssima taxa de coinfecção.
Gestantes: Azitromicina e Ceftriaxona são seguros. Doxiciclina e Ciprofloxacino são contraindicados.
Quais são os tipos de corrimentos vaginais?
Corrimento transparente
O pico de estrogênio que antecede a ovulação torna o muco cervical filante, límpido e abundante para facilitar a ascensão dos espermatozoides, ou seja, é indicativo do período ovulatório.
- Sinais: Aspecto de clara de ovo, sem odor, elástico (filância positiva). Não causa coceira ou ardor.
Corrimento branco
Pode representar dois extremos:
- Fisiológico (Leucorreia): Fluido, leitoso e homogêneo. Comum na segunda fase do ciclo (progesterona) ou uso de anticoncepcionais. Sem sintomas irritativos.
- Patológico (Candidíase): Se for branco e grumoso, indica infecção fúngica.
Corrimento marrom
Representa a presença de sangue oxidado (antigo) misturado ao muco. Tem dois extremos de etiologia:
- Fisiológico: Final da menstruação, spotting ovulatório ou nidação.
- Patológico: Sangramento intermenstrual, patologias do colo (pólipos, ectopia friável) ou neoplasia uterina/cervical. Conduta: Investigar a história menstrual e realizar exame especular para identificar a origem do sangramento
Corrimento amarelo
Representa o processo infeccioso bacteriano ou protozoário. As etiologias possíveis são:
- Cervicite (Gonorreia/Clamídia): Amarelo-purulento saindo pelo orifício do colo.
- Tricomoníase: Amarelo-esverdeado. Sinais: Geralmente associado a odor desagradável, disúria ou dispareunia. Na microscopia, observa-se grande quantidade de leucócitos (piócitos). Tratamento: Antibioticoterapia direcionada (Ceftriaxona/Azitromicina ou Metronidazol).
Corrimento esverdeado
Altamente sugestivo de Tricomoníase. Fisiopatologia: O protozoário Trichomonas vaginalis causa uma resposta inflamatória intensa e produção de gases, gerando o aspecto bolhoso.
- Sinais: Corrimento amarelo-esverdeado, bolhoso, abundante e com odor fétido. O colo pode apresentar aspecto de “morango” (colpite focal).
- Tratamento: Metronidazol (tratar paciente e parceiro).
Corrimento cinza
Patognomônico de Vaginose Bacteriana. Fisiopatologia: Alcalinização do pH e volatilização de aminas pelas bactérias anaeróbias.
- Sinais: Fluido, homogêneo, finamente bolhoso e com forte odor de “peixe podre” (teste das aminas positivo).
- Tratamento: Metronidazol ou Clindamicina.
Corrimento espesso
Clássico da Candidíase Vulvovaginal. Descrito como “nata de leite”, “leite coalhado” ou “queijo cottage”. É aderente às paredes vaginais. Sinais Associados: Prurido intenso, hiperemia e edema vulvar. Tratamento: Antifúngicos (Fluconazol oral ou cremes azólicos).
Corrimento rosado
Sangramento ativo em pequena quantidade misturado ao fluxo normal.
Etiologia:
- Traumático: Pós-coito (fissuras ou trauma em colo friável).
- Hormonal: Instabilidade endometrial (spotting).
- Infeccioso: Cervicite grave que causa sangramento ao contato (sinusorragia).
- Conduta: Exame especular obrigatório para descartar lesões cervicais ou vaginais
Quais tipos de corrimentos são normais?
Corrimento Transparente (“Clara de Ovo”)
- Fase do Ciclo: Ocorre no período ovulatório (pico estrogênico).
- Aspecto: Límpido, transparente e elástico (se você pinçar com uma pinça ou os dedos, ele estica sem arrebentar – isso é a filância).
- Função: Facilitar a sobrevivência e a subida dos espermatozoides pelo colo do útero.
- Diagnóstico: É sinal de saúde reprodutiva e fertilidade.
Corrimento Branco ou Leitoso
- Fase do Ciclo: Comum no início e fim do ciclo (fase pré-ovulatória e fase lútea/pós-ovulatória).
- Aspecto: Fluido, branco-leitoso ou levemente amarelado (creme claro) quando seca na calcinha. É mais espesso que o ovulatório, mas não é grumoso como “nata”.
- Causa: Ação da progesterona, que torna o muco mais denso para “fechar” o colo do útero, e descamação natural das células vaginais.
- Importante: Se for muito branco, espesso (tipo queijo) e tiver coceira, aí sim suspeitamos de Candidíase. Se for apenas fluido e assintomático, é normal.
Corrimento de Excitacão
- Contexto: Durante a excitação sexual.
- Aspecto: Transparente, aquoso e abundante.
- Causa: Transudação das paredes vaginais e secreção das glândulas de Bartholin e Skene para lubrificação.
Corrimento da Gestação
- Contexto: Durante a gravidez.
- Aspecto: Leitoso, fluido e em maior volume.
- Causa: O aumento intenso de estrogênio e progesterona aumenta a produção de muco e a descamação celular. Desde que não tenha cheiro ruim ou coceira, é a leucorreia fisiológica da gravidez.
Corrimentos vaginais durante a gravidez
Fisiológico: Leucorreia Gravídica
O aumento exponencial de estrogênio e progesterona causa uma descamação vaginal intensa e hiperprodução de muco cervical.
- Características: A secreção aumenta muito de volume. É branca/leitosa, fluida, homogênea e com odor suave (não fétido).
- Sintomas: Apenas a sensação de umidade. Não deve haver prurido, ardor ou disúria.
- Conduta: Orientação (não usar protetores diários para evitar abafamento).
Patológico
Aqui temos mudanças importantes no tratamento em relação à mulher não grávida.
Candidíase Vulvovaginal (Muito Comum)
A gestação é um estado “pró-fúngico” (aumento de glicogênio vaginal + imunomodulação).
- Clínica: Corrimento branco grumoso + Prurido intenso + Hiperemia vulvar.
- Tratamento:
- Tópico (Cremes): Miconazol (7 dias), Clotrimazol ou Nistatina (14 dias).
- Oral (Contraindicado): Fluconazol é Categoria D (risco de malformações, Tetralogia de Fallot). Não prescreva fluconazol oral para gestantes!
Vaginose Bacteriana
Está associada ao Trabalho de Parto Prematuro (TPP), Ruptura Prematura de Membranas (RPMO) e Corioamnionite.
- Tratamento: Deve ser tratada, mesmo que assintomática em alguns protocolos de alto risco.
- Metronidazol: 500mg VO 12/12h por 7 dias. (Atualmente, o Ministério da Saúde e CDC consideram seguro o uso oral após o 1º trimestre, e muitos protocolos liberam no 1º trimestre se risco > benefício, mas a via vaginal é preferida no início).
- Clindamicina: 300mg VO 12/12h por 7 dias.
Tricomoníase
Também associada a RPMO e baixo peso ao nascer.
- Tratamento: Metronidazol 2g VO dose única (após 1º trimestre preferencialmente).
Cervicites (Clamídia/Gonococo)
- Tratamento da Clamídia:
- Azitromicina: 1g VO (Dose única).
- Doxiciclina: Contraindicada (risco de alterações ósseas e dentárias no feto).

Prevenção, tratamento e cuidados com o corrimento vaginal
A prevenção aos corrimentos vaginais não fisiológicos depende da Manutenção da Homeostase Vaginal. O objetivo é preservar os Lactobacillus e o pH ácido.
Higiene Íntima
- Proibir Duchas Vaginais: “lavar por dentro” remove a flora de proteção e aumenta o risco de Vaginose Bacteriana e DIP.
- Sabonetes: Preferir sabonetes líquidos de pH neutro ou ácido. Evitar bactericidas fortes.
- Limpeza: Orientar a limpeza da região anal sempre no sentido “frente para trás” para evitar contaminação por E. coli (vaginite aeróbia).
Vestuário
- Incentivar o uso de calcinhas de algodão (permitem ventilação).
- Evitar uso prolongado de roupas justas/sintéticas e biquínis molhados (o calor e umidade favorecem fungos).
- Dormir sem calcinha quando possível (“arejar” a região).
Dieta
Reduzir o consumo excessivo de açúcares simples (carboidratos de alto índice glicêmico) em pacientes com candidíase de repetição.
Já quando falamos de uma paciente em tratamento, precisamos nos atentar para os detalhes específicos de cada infecção e se há necessidade de tratamento do parceiro. Veja um resumo de todas que a gente discutiu: :
| Etiologia | Tratamento de 1ª Escolha | Tratamento de Parceiro? |
| Vaginose Bacteriana | Metronidazol 500mg VO 12/12h (7 dias) ou Metronidazol Gel Vaginal (5 noites). | Não (geralmente). |
| Candidíase | Miconazol creme 2% (7 noites) ou Fluconazol 150mg VO (dose única). | Apenas se sintomático (balanopostite). |
| Tricomoníase | Metronidazol 2g VO (dose única) ou 500mg 12/12h (7 dias). | Sim, Obrigatório! |
| Cervicites (Gon/Clam) | Ceftriaxona 500mg IM + Azitromicina 1g VO. | Sim, Obrigatório! |
| Vaginite Atrófica | Estrogênio Tópico (Promestrieno ou Estriol creme). | Não. |
Além disso, alguns cuidados devem ser levados em consideração quando falamos de cada paciente em sua individualidade:
- Efeito Antabuse (Dissulfiram): Se prescrever Metronidazol oral, proíba terminantemente o consumo de álcool durante o tratamento e até 24h após. A interação causa náuseas graves, vômitos, taquicardia e hipotensão.
- Abstinência Sexual: Recomendar abstinência durante o tratamento (geralmente 7 dias) para evitar recontaminação e permitir a cicatrização da mucosa inflamada.
- Cremes Vaginais:
- Aplicar à noite, antes de dormir.
- Avisar que os cremes à base de óleo podem enfraquecer o látex dos preservativos (risco de ruptura).
Notificação: Lembrar que Sífilis, Gonorreia, HIV e Hepatites são de notificação compulsória. Tricomoníase e Vaginose, não.
Conquiste a aprovação e acompanhe mais notícias!
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