Doenças Negligenciadas: Esquistossomose, PLECT, Leishmaniose, Doença de Chagas e mais!

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As doenças negligenciadas são infecções endêmicas em populações de baixa renda, frequentemente esquecidas pela grande indústria. Dominar esses temas exige entender a imunologia do hospedeiro e os detalhes dos protocolos do Ministério da Saúde.

Leishmaniose

A Leishmaniose não é uma doença única; sua apresentação clínica é um espelho da resposta imune do paciente (Th1 vs. Th2) frente ao parasita.

Leishmaniose Tegumentar Americana

É a doença da “imunidade competente”.

  • Vetor: Flebotomíneo (Mosquito Palha).
Transmitida pelo mosquito palha. Fonte: https://www.saude.ce.gov.br/2024/04/05/leishmaniose-tegumentar-saiba-o-que-e-e-como-prevenir-a-doenca/ 
  • Imunologia (Pólo Celular – Th1): O paciente monta uma resposta imune celular eficaz. Os macrófagos são ativados e conseguem conter a infecção na pele, gerando uma reação inflamatória local.
  • Clínica: Úlcera crônica (“Úlcera de Bauru”), indolor, com bordas elevadas em moldura e fundo granulomatoso. Pode haver acometimento mucoso (nariz/boca) por contiguidade ou metástase.
Úlcera de Bauru. Fonte: https://museudinamicointerdisciplinar.wordpress.com/2015/06/22/a-ulcera-de-bauru-ja-nao-e-mais-so-de-bauru/ 
  • Diagnóstico:
    • Intradermorreação de Montenegro: POSITIVA (confirma que há imunidade celular).
    • Sorologia: Geralmente negativa ou inconclusiva (a doença não está espalhada).
    • Biópsia: Deve ser feita na borda da lesão (área ativa).

Leishmaniose Visceral (Calazar)

É a doença da “anergia celular”.

  • Agente: L. chagasi / L. donovani.
  • Imunologia (Pólo Anérgico – Th2): O paciente tem uma resposta celular falha e uma resposta humoral (anticorpos) exagerada, porém inútil. O parasita se dissemina pelo sistema retículo-endotelial.
Fonte: https://www.diariodosertao.com.br/noticias/sertao/64272/garota-de-dez-anos-contrai-calazar-no-vale-do-pianco-populacao-atribui-problema-a-condicoes-sanitarias-veja.html 
  • Tríade Clínica: Febre de Origem Indeterminada (FOI) + Hepatoesplenomegalia maciça + Pancitopenia/Desnutrição.
  • Diagnóstico:
    • Montenegro: NEGATIVO (anergia).
    • Sorologia (ELISA rk-39): POSITIVA (há excesso de anticorpos/hipergamaglobulinemia).
    • Parasitológico: Aspirado de medula óssea ou baço.

Tratamento e Toxicidade

A droga de escolha é o Antimonial Pentavalente (Glucantime), administrado por 20 dias (pode ser intralesional se até 3 lesões de 3cm).

Contraindicações ao Glucantime (Indicações de Anfotericina B Lipossomal):

Devido ao risco de miosite cardíaca (alargamento do QT), pancreatite e hepatite, não usamos em:

  1. Gestantes.
  2. Insuficiência Renal, Hepática ou Cardíaca.
  3. Pacientes com HIV (alto risco de recidiva com antimonial).

Novidade: O Ministério da Saúde incluiu a Miltefosina (oral) para tratamento da Leishmaniose Tegumentar Americana.

O Acrônimo “PLECT”: Diagnóstico Diferencial de Úlceras

Diante de uma úlcera cutânea crônica, pense em PLECT: Paracoccidioidomicose, Leishmaniose, Esporotricose, Cromoblastomicose, Tuberculose cutânea.

Paracoccidioidomicose

Doença de trabalhadores rurais (solo). A apresentação depende da idade:

  • Forma Aguda/Juvenil (< 30 anos): Acomete o sistema retículo-endotelial. Gera linfadenopatia generalizada, hepatoesplenomegalia e lesões cutâneas. Atenção para Insuficiência Adrenal.
  • Forma Crônica/Adulto (> 40 anos): Típica de homens (o estrogênio protege as mulheres). Acomete Pulmão (fibrose, tosse, dispneia) e Mucosa (Estomatite Moriforme – lesões na boca com pontilhado hemorrágico).
  • Diagnóstico: Visualização de leveduras com brotamento múltiplo (“Roda de Leme”).
  • Tratamento: Sulfametoxazol-Trimetoprima ou Itraconazol.

Esporotricose

Doença de jardineiros e veterinários (transmissão pelo gato).

  • Clínica: Inicia com pápula no local da inoculação que evolui para Linfangite Ascendente (cordão de nódulos seguindo o trajeto linfático).
Dermatose após uma semana da arranhadura (por gato positivo para esporotricose), na porção inferior no braço direito, próxima ao punho, caracterizada por um único pequeno nódulo, eritematoso e pruriginoso; B. Dermatose ulcerada após cerca de 15 dias; C. Dermatose após 30 dias da arranhadura caracterizada por uma úlcera de bordas eritematosas e exsudação purulenta, com aproximadamente 2,5 cm de diâmetro; D. Dermatose após 30 dias de tratamento com itraconazol 100 mg, de 12/12 horas, via oral. Fonte: https://rmmg.org/artigo/detalhes/4109 

O tratamento ocorre por meio do Itraconazol.

Esquistossomose

Causada pelo Schistosoma mansoni (hospedeiro: caramujo Biomphalaria).

Fases Clínicas e Complicações

  1. Dermatite Cercariana: Coceira no local de entrada (“lagoas de coceira”).
  2. Fase Aguda (Febre de Katayama): Febre, eosinofilia, linfoadenomegalia.
  3. Fase Crônica (Hepatoesplênica): Ocorre fibrose periportal (Fibrose de Symmers). A função hepática é preservada, mas há hipertensão portal grave (varizes esofágicas).
Fonte: http://www.bioqmed.ufrj.br/noticias/esquistossomose-descoberta-de-um-novo-alvo-para-o-tratamento-da-fibrose-hepatica/ 

Complicações Clássicas de Prova:

  • Salmonelose Prolongada: O verme serve de reservatório para a bactéria Salmonella, causando febre arrastada e sepse.
  • Neuroesquistossomose: Mielite transversa (paraplegia, disfunção esfincteriana) por ovos na medula.
  • Síndrome Nefrótica: Por deposição de imunocomplexos (Glomerulopatia).

Manejo Populacional (Praziquantel)

A estratégia de tratamento em massa depende da prevalência na comunidade:

  • < 15%: Tratar apenas os casos positivos.
  • 15-25%: Tratar positivos e seus conviventes.
  • > 25%: Tratar toda a população da área.

Doença de Chagas

Causada pelo Trypanosoma cruzi. O manejo depende da fase evolutiva.

  • Fase Aguda: Sinal de Romaña (edema bipalpebral unilateral), miocardite, encefalite.
Sinal de Romanã. Fonte: https://www.researchgate.net/figure/Sinal-de-Romana-em-uma-menina-procedente-de-area-endemica-no-Brasil-Fonte-Rey-2001_fig4_265335604 
  • Tratamento Obrigatório com Benznidazol para todos.
  • Fase Crônica:
    • Cardíaca: Bloqueio de Ramo Direito (BRD) + Bloqueio Divisional Anterossuperior Esquerdo (BDASE), aneurisma de ponta.
    • Digestiva: Megaesôfago e Megacólon (destruição de plexos nervosos).

Protocolo de Tratamento na Fase Crônica:

O Benznidazol tem muitos efeitos colaterais e eficácia duvidosa em casos avançados.

  1. Forma Indeterminada ou Digestiva: Tratar apenas se < 50 anos.
  2. Forma Cardíaca Inicial: Ponderar tratamento.
  3. Forma Cardíaca Avançada ou Idade > 50 anos: NÃO tratar (o dano está feito e o risco supera o benefício).

Notificação Compulsória

Para fins de vigilância epidemiológica:

  • Notificação Semanal: Leishmaniose Visceral, Leishmaniose Tegumentar e Esquistossomose.
  • Notificação Imediata: Casos de Doença de Chagas Aguda.

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