Encefalopatia Hepática e Síndrome Hepatorrenal

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A cirrose hepática culmina em duas grandes vias fisiopatológicas: a Hipertensão Portal e a Insuficiência Hepática. A Encefalopatia Hepática (EH) é uma manifestação neuropsiquiátrica potencialmente reversível decorrente da falência hepática e dos shunts portossistêmicos.

Fisiopatologia

O fígado doente falha em depurar toxinas. A principal delas é a amônia (produzida pela atividade bacteriana intestinal). Como o fígado não metaboliza e os shunts desviam o sangue da circulação portal direto para a sistêmica, essas toxinas atingem o cérebro, causando edema e disfunção neuronal.

Diagnóstico Clínico: Critérios de West Haven

O diagnóstico é eminentemente clínico. Usamos a classificação de West Haven para estadiar a gravidade:

  • Grau I: Paciente orientado, mas com alteração do sono (troca do dia pela noite), déficit de atenção ou declínio cognitivo leve.
  • Grau II (O divisor de águas): Desorientado no tempo/espaço. O marco físico é o Flapping (asterixis) e a dispraxia (dificuldade motora).
  • Grau III: Sonolência importante (torpor), maior desorientação.
  • Grau IV: Coma.
Fonte: https://utiprotocolos.com.br/graus-estagios-da-encefalopatia-hepatica/ 

A Regra de Ouro

A EH raramente acontece “do nada”. Sempre existe um gatilho descompensando o paciente. A missão no PS é investigar a causa:

  • Iatrogênicas: Uso de Benzodiazepínicos (evitar ao máximo!), sedativos e excesso de diuréticos.
  • Infecciosas: PBE (Peritonite Bacteriana Espontânea), ITU, Pneumonia. Dica: Sempre faça paracentese diagnóstica se houver ascite.
  • Gastrointestinais: Hemorragia Digestiva (o sangue é proteína digerida, o que gera muita amônia) e Constipação (aumenta o tempo de absorção das toxinas).
  • Renais/Metabólicas: Desidratação, Insuficiência Renal, Hipocalemia (DHE), Hipoglicemia.

Tratamento da Encefalopatia

O tratamento se baseia em três pilares: Suporte Geral, Tratamento do Gatilho e Redução da Amônia.

Medidas Gerais e Nutrição

  • Estabilização (proteção de via aérea se graus III/IV – considerar SNE).
  • Suspender diuréticos imediatamente.
  • Não restringir proteína! O paciente deve receber dieta normoproteica (1.2 a 1.5 g/kg/dia) para evitar o catabolismo muscular (o músculo ajuda a metabolizar amônia).

Medicamentos Específicos

  1. Lactulona (Dissacarídeo não absorvível): É o carro-chefe.
    • Mecanismo: Acidifica o lúmen intestinal, convertendo Amônia (NH3 – absorvível) em Amônio (NH4+ – não absorvível) e tem efeito laxativo (acelera o trânsito).
  2. Antibióticos não absorvíveis:
    • Rifaximina: Melhor perfil de segurança.
    • Alternativas: Neomicina (risco de ototoxicidade/nefrotoxicidade) ou Metronidazol (risco de neuropatia).

Síndrome Hepatorrenal (SHR)

Muitas vezes, a EH vem acompanhada de disfunção renal. A SHR é um diagnóstico de exclusão em cirróticos com ascite.

A Síndrome Hepatorrenal é uma insuficiência renal funcional causada por vasodilatação esplâncnica severa, que leva a uma hipoperfusão renal extrema (o rim está estruturalmente “são”, mas não recebe sangue suficiente devido ao sequestro esplâncnico).

Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof.

Como diagnosticar? (Critérios ICA-AKI)

Você está diante de uma Lesão Renal Aguda (LRA) em um cirrótico. O passo a passo é:

  1. Retirar diuréticos e drogas nefrotóxicas.
  2. Descartar choque e infecção ativa.
  3. O Teste da Albumina: Administrar Albumina 1 g/kg/dia por 2 dias.
    • Melhorou a Creatinina? Era LRA pré-renal (desidratação).
    • Não melhorou? Provável Síndrome Hepatorrenal (HRS-AKI).
  4. Confirmação: O USG renal deve ser normal e não pode haver proteinúria ou hematúria significativas.
Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof. 

Tratamento da Síndrome Hepatorrenal

O objetivo é promover vasoconstrição esplênica para jogar o sangue de volta para a circulação efetiva e para o rim.

  • Droga de Escolha: Terlipressina associada à Albumina.
  • Alternativa: Noradrenalina (se Terlipressina indisponível).
  • Contraindicação da Terlipressina: Doença coronariana ou AVC isquêmico.

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