Entenda sobre o Carcinoma Espinocelular de Trato Aerodigestivo Superior

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O Carcinoma Espinocelular (CEC) é a histologia predominante (90-95%) nesta região. O comportamento biológico do tumor varia drasticamente dependendo do sítio (ex: laringe vs. orofaringe) e da associação viral.

Cancerização de Campo

O conceito de Cancerização de Campo explica a alta taxa de segundos tumores primários. A exposição crônica a carcinógenos (tabaco e álcool) cria alterações genéticas em toda a mucosa aerodigestiva, não apenas onde o tumor cresceu.

  • Risco: Um segundo tumor primário é a 2ª maior causa de morte nesses pacientes (25-33% dos óbitos).
  • Incidência: Ocorre em 2-7% dos pacientes ao ano após o tratamento do primeiro câncer.
  • Implicação Prática: A panendoscopia (EDA, Laringoscopia, Broncoscopia) não serve apenas para estadiar, mas para rastrear lesões sincrônicas.

Propedêutica Armada e Estadiamento

A Biópsia Correta

  • Tumor Primário (Mucosa): Deve ser incisional (tirar um pedaço da borda viável).
  • Linfonodo Cervical: A abordagem inicial é a PAAF (Punção Aspirativa com Agulha Fina). Evita-se biópsia aberta de linfonodo para não violar os planos cervicais e disseminar o tumor.

Marcadores Virais

Em tumores de orofaringe, pesquisa-se o p16 (marcador substituto do HPV). Em nasofaringe, pesquisa-se o EBV (Epstein-Barr Vírus). Tumores HPV+ tendem a ter melhor prognóstico.

Estadiamento TNM: O Detalhe que Muda a Conduta

O estadiamento segue regras mnemônicas precisas:

T (Tamanho e Invasão): A Regra do 2 e 4

  • T1: < 2 cm.
  • T2: > 2 a 4 cm.
  • T3: > 4 cm.
  • T4: Invasão de estruturas adjacentes.
    • T4a (Ressecável): Invade osso cortical, músculos profundos da língua, seio maxilar ou pele.
    • T4b (Irressecável/Muito Avançado): Invade base do crânio, carótida, ou fáscia pré-vertebral.

N (Linfonodos): A Regra do 3 e 6 e o ENE

  • N1: Único, ipsilateral, $\le$ 3 cm.
  • N2a: Único, ipsilateral, 3 a 6 cm.
  • N2b: Múltiplos, ipsilaterais, todos $\le$ 6 cm.
  • N2c: Bilateral ou contralateral, $\le$ 6 cm.
  • N3a: Qualquer linfonodo > 6 cm.
  • N3b: Qualquer linfonodo com Extravasamento Extranodal (ENE+). A presença de ENE (ruptura da cápsula do linfonodo) é um fator de péssimo prognóstico e indicação absoluta de quimioterapia adjuvante.
Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof.

Terapêutica: A Escalada de Tratamento

Não existe neoadjuvância (QT antes da cirurgia) como padrão em cabeça e pescoço. O tratamento é definitivo (Cirurgia ou Rádio) ou Adjuvante.

Doença Precoce (Estádios I e II – T1/T2, N0)

  • Objetivo: Cura com preservação funcional.
  • Conduta: Cirurgia conservadora ou radioterapia isolada. Sobrevida de 70-90%.

Doença Avançada (Estádios III e IV – T3/T4 ou N+)

  • Conduta: Cirurgia “Comando” (ressecção ampla + esvaziamento cervical) seguida de adjuvância OU Protocolo de Preservação de Órgão (QT+RT concomitantes) para laringe/orofaringe.

Critérios de Adjuvância (Pós-Operatório)

Quando indicamos complementar com Radioterapia (RT) ou Quimioterapia (QT)?

Indicação de Radioterapia (RT)Indicação de Quimioterapia (QT)
Estádio T3 ou T4Margens Comprometidas
Margens exíguas (< 5mm)ENE Positivo (Extravasamento Extranodal)
Margens comprometidas
Invasão Perineural ou Vascular
N+ (2 ou mais linfonodos metastáticos)
Nota: Margem comprometida e ENE+ são critérios de Alto Risco, exigindo o combo RT + QT (Protocolo cisplatin-based).

Acessos Cirúrgicos e reconstrução

Para acessar tumores profundos (base de língua, amígdala, hipofaringe) sem destruir a face, usamos manobras específicas:

  • Mandibulotomia (Swing Mandibular): Serra-se a mandíbula na linha média para abrir a boca como um “livro”, acessando a orofaringe posterior.
Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof.
  • Retalho em Viseira (Visor Flap): Incisão cervical que permite elevar a pele do pescoço até a mandíbula, preservando o lábio.
Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof.
  • Pull-Through: Ressecção da língua e assoalho da boca puxando as estruturas por baixo, através do pescoço.
Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof.
  • TORS (Transoral Robotic Surgery): Cirurgia robótica minimamente invasiva para tumores de orofaringe.

A escada da reconstrução

Após grandes ressecções, precisamos fechar o defeito.

  1. Fechamento Primário / 2ª Intenção: Pequenos defeitos.
  2. Retalhos Locais/Regionais:
    • Peitoral Maior: Retalho pediculado miocutâneo. É o “cavalo de batalha” para cobrir grandes defeitos cervicais e proteger a carótida.
Enxertia. Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof.
  1. Retalhos Microcirúrgicos (Livres): Padrão-ouro funcional.
    • Fíbula: Para reconstruir mandíbula (osso).
    • Antebraço/Coxa: Para reconstruir língua e partes moles.
Reconstrução de língua com tecido da coxa. Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof. 

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