

Definimos escroto agudo como o aumento súbito, ou em curto espaço de tempo, do volume escrotal acompanhado de dor. As principais etiologias são: Torção Testicular, Orquiepididimite, Torção de Apêndice Testicular e Tumor.
Anatomia Cirúrgica Relevante
Para entender a patologia, precisamos relembrar as camadas (de fora para dentro) que derivam da parede abdominal durante a descida do testículo:
- Pele.
- Dartos.
- Fáscia Espermática Externa (derivada do Oblíquo Externo).
- Músculo Cremaster (derivado do Oblíquo Interno).
- Fáscia Espermática Interna (derivada da Fáscia Transversalis).
- Túnica Vaginal (Parietal e Visceral – derivada do Peritônio).
- Túnica Albugínea (cápsula do testículo).

Vascularização: A irrigação arterial vem da Artéria Testicular (aorta), Deferencial e Cremastérica. A drenagem venosa ocorre pelo plexo pampiniforme.

Torção Testicular: A Emergência Isquêmica
Ocorre o giro do cordão espermático sobre seu próprio eixo, bloqueando o fluxo sanguíneo e causando isquemia.
Epidemiologia
- Pico de Incidência: Entre 12 e 15 anos.
- Fator Predisponente: Bell Clapper (“Badalo de Sino”) – implantação alta da túnica vaginal, permitindo mobilidade excessiva e rotação do testículo.
Quadro Clínico
- Dor: Início súbito, forte intensidade, frequentemente noturna.
- Sintomas Associados: Náuseas e vômitos são comuns (reflexo vagal pela dor visceral).
Exame Físico (Sinais Clássicos)
- Sinal de Brunzel: Testículo acometido está mais elevado (encurtamento do cordão pela torção).
- Sinal de Angell: Testículo horizontalizado.
- Reflexo Cremastérico: ABOLIDO. Ao estimular a face interna da coxa, o testículo não sobe. A presença do reflexo sugere fortemente que não é torção.
- Sinal de Prehn: NEGATIVO. A elevação manual do testículo não alivia a dor (ou piora).

Orquiepididimite: O Processo Infeccioso
É a causa mais comum de dor escrotal, caracterizada por inflamação.
Etiologia por Faixa Etária
- Crianças: Geralmente viral.
- Adulto Jovem: Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs).
- Idosos: Infecção do trato urinário (bactérias entéricas, ex: E. coli), associado a hiperplasia prostática.
Quadro Clínico
- Dor: Início subagudo, progressiva (leve a moderada), associada a sintomas urinários.
- Sinais Sistêmicos: Febre é frequente.
Exame Físico
- Sinal de Prehn: POSITIVO. A elevação do escroto alivia a dor (diminui a tensão no cordão inflamado).
O Diagnóstico Diferencial na Prática
| Característica | Torção Testicular | Orquiepididimite |
| Início | Súbito (agudo) | Insidioso (subagudo) |
| Dor | Intensa, Noturna | Progressiva |
| Sintomas | Náuseas/Vômitos | Febre/Disúria |
| Reflexo Cremastérico | Abolido | Presente |
| Sinal de Prehn | Negativo | Positivo (alivia) |
| Posição Testicular | Elevado/Horizontal | Normal/Edemaciado |

Exames de Imagem
O USG Doppler é o padrão-ouro, mas há uma regra de ouro:
Não pode atrasar a conduta cirúrgica. Se a suspeita clínica de torção for alta, indica-se exploração cirúrgica imediata, sem ultrassom.
- Torção: Ausência de fluxo ao Doppler.
- Orquite: Aumento importante do fluxo (hiperemia inflamatória).

Tratamento
Manejo da Torção Testicular (“Tempo é Testículo”)
A cirurgia deve ser imediata (idealmente < 6 horas).
Passo a Passo Cirúrgico:
- Acesso: Escrototomia (ou inguinotomia se suspeita de tumor/necessidade de prótese).
- Manobra: Distorcer o cordão e aquecer o testículo (compressas mornas).
- Avaliação de Viabilidade:
- Viável (ficou rosado): Orquidopexia (fixação no escroto).
- Inviável (necrótico/preto): Orquiectomia.
- Obrigatório: Orquidopexia Contralateral (o defeito anatômico Bell Clapper costuma ser bilateral).

Fonte: Case courtesy of Assoc Prof Frank Gaillard, Radiopaedia.org, rID: 10977
Manejo da Orquiepididimite
Tratamento clínico com antibióticos e suporte (suspensório escrotal, gelo, AINEs).
- Sexualmente Ativos (foco em Gonococo/Clamídia):
- Ceftriaxone 250mg IM (dose única) + Doxiciclina 100mg VO 12/12h por 10 dias.
- Sexualmente Inativos/Idosos (foco em Enterobactérias):
- Quinolona (ex: Ciprofloxacino ou Levofloxacino) por 10 dias.
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