Infertilidade Conjugal: diagnóstico e quando iniciar o tratamento avançado

0
17

A infertilidade é sempre um diagnóstico do casal. A abordagem deve ser simultânea, investigando ambos os parceiros, e empática, respeitando o relógio biológico e os aspectos emocionais envolvidos.

O que é a infertilidade?

Infertilidade se caracteriza como ausência de gravidez clínica após 1 ano (12 meses) ou mais de relações sexuais frequentes e desprotegidas.

Quando iniciar a investigação da infertilidade?

A regra de 1 ano não é absoluta. A idade da mulher é o principal determinante para acelerar o processo, devido ao declínio natural da reserva ovariana:

  • < 35 anos: Aguardar 12 meses de tentativas.
  • 35 a 40 anos: Iniciar investigação após 6 meses.
  • 40 anos: Investigação imediata (não se deve esperar).

Classificação:

  • Primária: Ausência de gestação prévia do casal.
  • Secundária: Casal com qualquer gestação prévia (incluindo abortamentos) que agora não consegue engravidar.

Etiologias da infertilidade

As causas são divididas de forma equilibrada, o que reforça a necessidade de avaliar o homem e a mulher simultaneamente:

Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof
  • Fator Feminino (~35%): Subdivido em Ovulatório (35%), Tubário (35%), Endometriose (20%) e Uterino (1%).
  • Fator Masculino (~30%): Varicocele, infecções, genética, obstruções.
  • Mista (~20%): Problemas identificados em ambos os parceiros.
  • ISCA (~15%): Infertilidade Sem Causa Aparente (diagnóstico de exclusão).

Como investigar?

A investigação básica envolve avaliar quatro pilares fundamentais com exames específicos e timing correto.

Fator Ovulatório e Reserva Ovariana

Em pacientes com ciclos regulares, a anamnese já sugere ovulação (presença de muco, dismenorreia, tensão pré-menstrual).

Aspectos do muco cervical durante o ciclo menstrual. Fonte: https://www.fetalmed.net/muco-cervical-suas-variacoes-e-como-identificar-a-ovulacao/ 
  • Perfil Hormonal: Dosagem de FSH, LH, Estradiol, Prolactina e TSH (para descartar hiperprolactinemia e tireoidopatias).
  • Confirmação de Ovulação: Dosagem de Progesterona na 2ª fase (lútea), aproximadamente no 21º dia do ciclo.
  • Reserva Ovariana (O “Relógio Biológico”):
    • Hormônio Anti-Mülleriano (AMH): Produzido pelas células da granulosa dos folículos pré-antrais. Níveis muito baixos (< 1 ng/ml) indicam baixa reserva e má resposta à estimulação, sugerindo caminhos mais agressivos (FIV) ou ovodoação.
    • Contagem de Folículos Antrais (CFA): Realizada via ultrassom transvaginal no início do ciclo.
Contagem dos folículos antrais. Fonte: https://danielavazfranco.com.br/blog/reserva-ovariana-contagem-de-foliculos-antrais/ 

Fator Tubário

A patência das tubas é essencial para que o espermatozóide encontre o óvulo.

  • Exame Padrão-Ouro:Histerossalpingografia (HSG).
    • Timing: Deve ser realizada na fase folicular (após a menstruação e antes da ovulação) para evitar irradiar uma possível gestação inicial.
    • Achado Crítico: A presença de Hidrossalpinge (tuba dilatada com líquido tóxico) reduz a taxa de implantação na FIV pela metade. A conduta recomendada é a salpingectomia (retirada da tuba) antes da transferência embrionária.
Radiografia das Trompas em Histerossalpingografia. Fonte: https://crtrsp.org.br/histerossalpingografia-e-a-infertilidade-feminina/# 

Fator Uterino

Avaliar a anatomia para implantação.

  • Exame: Ultrassonografia Transvaginal (2D/3D). Se houver suspeita de pólipos, miomas submucosos ou sinéquias, prosseguir com Histeroscopia Diagnóstica ou Ressonância Magnética.
Fonte: https://www.fetalmed.net/o-que-e-sinequia-uterina/#google_vignette 

Fator Masculino

Não basta confirmar a presença de espermatozoides. É preciso checar os critérios estritos da OMS no Espermograma.

  • Parâmetros de Referência (Mínimos):
    • Volume: 1,5 ml.
    • pH:  7,2.
    • Concentração:  15 milhões/ml.
    • Total Ejaculado:  39-40 milhões.
    • Motilidade Progressiva (A+B):  32%.
    • Vitalidade:  58%.
    • Morfologia de Kruger:  4% (formas ovais perfeitas).
    • Leucócitos: < 1 milhão/ml (acima disso sugere infecção – leucocitospermia).

Tratamento: Baixa vs. Alta Complexidade

A decisão terapêutica segue um algoritmo rigoroso baseado na causa, idade e tempo de infertilidade.

Baixa Complexidade (Coito Programado ou Inseminação Intrauterina – IIU)

  • O que é: A fecundação ocorre dentro do corpo da mulher (na tuba).
  • Indicações: Infertilidade Sem Causa Aparente (ISCA), fator masculino leve, anovulação (SOP), endometriose mínima.
  • Pré-requisitos Obrigatórios: Pelo menos uma tuba pérvia, espermograma normal/leve e tempo de infertilidade < 3 anos.
  • Protocolos de Indução da Ovulação:
    • Citrato de Clomifeno: 50 mg/dia por 5 dias.
    • Letrozol: 2,5 a 5 mg/dia por 5 dias. (Atualmente é a 1ª escolha para SOP, pois gera menos efeitos antiestrogênicos no endométrio que o Clomifeno).
  • Critério de Cancelamento: Se a paciente desenvolver > 3 folículos dominantes, o ciclo deve ser cancelado para evitar gestação múltipla de alto risco (ex: trigemelar).

Alta Complexidade (Fertilização In Vitro – FIV / ICSI)

  • O que é: O encontro dos gametas ocorre em laboratório.
  • Indicações: Obstrução tubária bilateral, fator masculino grave, endometriose profunda/avançada (Graus III/IV), falha nos tratamentos de baixa complexidade ou infertilidade de longa data (> 3 anos).
  • ICSI (Injeção Intracitoplasmática de Espermatozoides): É uma variação da FIV onde o embriologista injeta um único espermatozoide dentro do óvulo. É mandatória em casos de fator masculino grave.
Fertilização em vitro. Fonte: https://redeglobo.globo.com/globouniversidade/noticia/2012/07/ha-34-anos-fertilizacao-vitro-ajuda-realizar-o-sonho-de-pais-e-maes.html 

Regras de Transferência Embrionária (Prevenção de Gemelaridade):

O número de embriões transferidos depende da idade da mulher (ou da doadora do óvulo) e da análise genética:

  1. Mulheres até 37 anos: Máximo de 2 embriões.
  2. Mulheres > 37 anos: Máximo de 3 embriões (devido à menor qualidade ovocitária e menor chance de implantação, permite-se um a mais).
  3. Embriões Biopsiados (Euploides): Independente da idade, transfere-se no máximo 2 embriões (pois a chance de implantação de um embrião geneticamente normal é muito alta).

Atualizações Éticas e Legislação (Resolução CFM 2.320/2022)

Você precisa estar atualizado com as normas éticas que balizam a reprodução assistida no Brasil:

  1. População LGBTQIA+: O tratamento é permitido sem necessidade de autorização judicial.
    • Permite-se a Gestação Compartilhada para casais homoafetivos femininos (óvulo de uma parceira fecundado, gestado no útero da outra).
  2. Útero de Substituição (“Barriga Solidária”):
    • Quem pode ceder o útero? Parentes de até 4º grau (mãe, irmã, tia, prima).
    • Requisito: A cedente deve ter pelo menos 1 filho vivo.
  3. Doação de Gametas:
    • Pode ser anônima ou de parentes até 4º grau (desde que não haja consanguinidade na formação do embrião).
    • Limite de Idade do Doador: Mulheres até 37 anos; Homens até 45 anos.
  4. Seleção Embrionária (Biopsia):
    • Permitida para evitar doenças hereditárias ou selecionar HLA compatível (para tratar irmão doente).
    • Proibida para sexagem (escolha do sexo) sem indicação médica de doença ligada ao sexo.

Conquiste a aprovação e acompanhe mais conteúdos!

Gostou do conteúdo? Continue acompanhando nosso blog para ficar por dentro das principais notícias sobre residência médica, editais e oportunidades que podem transformar sua carreira!