Ministério da Saúde publica atualização do PCDT sobre Acidentes Escorpiônicos

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O Ministério da Saúde publicou a nova edição do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) dos Acidentes Escorpiônicos, documento que orienta o diagnóstico, a classificação de gravidade, o tratamento e o monitoramento dos casos em todo o território nacional.

A atualização consolida evidências recentes, reforça a importância do diagnóstico precoce e detalha condutas específicas, com ênfase na organização da rede assistencial e no uso racional da soroterapia.

Tempo é determinante de prognóstico e diagnóstico precoce

O novo PCDT reafirma que o diagnóstico precoce é fator crítico para reduzir morbimortalidade, especialmente em casos moderados e graves. A orientação é clara: diante de suspeita de escorpionismo, o manejo deve ser imediato, e a eventual indisponibilidade de unidade de terapia intensiva não deve retardar a administração do soro antiveneno quando indicado.

O documento destaca ainda:

  • Necessidade de descentralização estratégica de estoques de soro;
  • Organização de fluxos assistenciais, sobretudo em áreas remotas;
  • Planejamento regional como medida de proteção à vida.

Ou seja, isso significa reconhecer rapidamente sinais de gravidade e não postergar condutas específicas.

Diagnóstico clínico-epidemiológico: manifestações e particularidades regionais

O diagnóstico do escorpionismo permanece fundamentalmente clínico-epidemiológico, não havendo recomendação de exame laboratorial para confirmação da presença do veneno.

Manifestações locais

  • Dor intensa (sintoma mais frequente);
  • Parestesias;
  • Eritema discreto;
  • Edema geralmente leve ou ausente.

A maioria dos casos é classificada como leve, com reversão completa.

Manifestações sistêmicas: diferenças regionais

O protocolo enfatiza diferenças importantes entre espécies:

Espécies predominantes fora da Amazônia (Tityus serrulatus, T. stigmurus, T. bahiensis)

Podem causar alterações:

  • Cardiovasculares;
  • Respiratórias;
  • Digestivas;
  • Neurológicas.

Nos casos moderados e graves, destacam-se:

  • Sudorese;
  • Sialorreia;
  • Lacrimejamento;
  • Náuseas e vômitos (marcador sensível de gravidade);
  • Taquicardia;
  • Alterações pressóricas;
  • Edema agudo de pulmão;
  • Choque;
  • Convulsões.

Espécies amazônicas (como Tityus obscurus)

Apresentam perfil predominantemente neurológico:

  • Mioclonias;
  • Ataxia;
  • Disartria;
  • Sensação de choque elétrico.

Essa diferenciação é essencial na prática clínica, sobretudo em serviços da Região Norte.

Classificação da gravidade

O Ministério da Saúde mantém a classificação em três níveis:

Leve

  • Dor local;
  • Eritema;
  • Sudorese discreta;
  • Eventuais náuseas ou vômitos isolados.

Não há indicação de soro.

Moderado

  • Manifestações sistêmicas leves a moderadas;
  • Sudorese;
  • Vômitos repetidos;
  • Alterações discretas de frequência cardíaca ou pressão arterial.

Indicação: 3 frascos-ampolas de soro antiescorpiônico.

Grave

  • Vômitos incoercíveis;
  • Instabilidade hemodinâmica;
  • Insuficiência cardíaca;
  • Edema agudo de pulmão;
  • Convulsões;
  • Choque.

Indicação: 6 frascos-ampolas.

Contudo, o protocolo reforça que não devem ser administrados mais de 6 frascos-ampolas.

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Qual o tratamento?

Tratamento inicial

  • Lavagem com água e sabão;
  • Não utilizar torniquetes;
  • Não aplicar substâncias caseiras.

Tratamento sintomático

A analgesia deve ser guiada por escala de dor (EVN ou escalas adaptadas para crianças):

  • Dor leve: dipirona VO;
  • Dor moderada: dipirona IV;
  • Dor intensa: infiltração local com lidocaína 2% sem vasoconstritor;
  • Recidiva da dor: considerar opioide fraco.

Outros pontos relevantes:

  • Metoclopramida para vômitos persistentes;
  • Benzodiazepínicos (ex.: diazepam) em manifestações neuromusculares amazônicas;
  • Cautela na reposição volêmica em crianças;
  • Dobutamina como primeira escolha em choque cardiogênico;
  • Oxigenoterapia e suporte ventilatório quando necessário.

Não há recomendação de uso profilático de antibióticos.

Soroterapia: indicações e cuidados

O soro antiescorpiônico deve ser administrado o mais precocemente possível nos casos moderados e graves.

Administração

  • Via intravenosa (preferencial);
  • Diluição em SF 0,9% ou SG 5%;
  • Infusão em 10–15 minutos ou bolus controlado;
  • Observação mínima de 24 horas após administração.

Em caso de dúvida diagnóstica com araneísmo (especialmente Phoneutria), pode-se utilizar o soro antiaracnídico.

O protocolo também ressalta:

  • Reações de hipersensibilidade são raras, mas possíveis;
  • Não se recomenda uso profilático de corticosteroides ou anti-histamínicos;
  • Armazenamento entre 2°C e 8°C.

Monitoramento: parâmetros clínicos e laboratoriais

A monitorização é fundamental nos casos com indicação de soro.

Parâmetros clínicos

  • Pressão arterial;
  • Frequência cardíaca;
  • Frequência respiratória;
  • Saturação de O₂;
  • Temperatura.

Exames laboratoriais (quando há manifestações sistêmicas)

  • Hemograma;
  • Glicemia;
  • Potássio;
  • Amilase;
  • Gasometria;
  • CK e CK-MB;
  • Troponina;
  • NT-proBNP (especialmente em suspeita de disfunção cardíaca).

Exames de imagem

  • Radiografia de tórax;
  • Eletrocardiograma;
  • Ecocardiograma;
  • Ultrassonografia point-of-care (quando disponível).

Em casos neurológicos graves, pode ser necessária tomografia de crânio.

Populações de risco

O documento reforça que:

  • Idosos seguem o mesmo protocolo terapêutico dos adultos.
  • Crianças ≤10 anos (especialmente <7 anos) apresentam maior risco de formas graves.
  • Comorbidades como cardiopatias, hipertensão e diabetes podem agravar o quadro.
Leia mais: Acidentes com Animais Peçonhentos e Não Peçonhentos

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