
Um parecer publicado pela Rede Brasileira de Estudos sobre a Hipertensão na Gestação (RBEGH) em parceria com a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), passou a não recomendar o uso de cálcio para a prevenção da pré-eclâmpsia. Essa decisão modifica o entendimento anterior das entidades, publicado em fevereiro de 2025.
O que motivou a decisão?
A revisão ocorreu por uma nova metanálise da Cochrane Database of Systematic Reviews:
- Rigor Estatístico: Diferente da análise anterior, o novo estudo excluiu pesquisas consideradas “não confiáveis” ou com alto risco de viés.
- Inexistência de Benefício: Após essa filtragem rigorosa, concluiu-se que o efeito protetor da suplementação rotineira de cálcio para prevenir a pré-eclâmpsia inexiste ou não é robusto o suficiente para ser suportado.
Anteriormente, a indicação de >1g/dia de cálcio reduzia o risco de pré-eclâmpsia, especialmente em populações com baixa ingestão dietética. Ao atualizar a análise com ensaios multicêntricos de grande porte e critérios de sensibilidade mais rígidos, o benefício global enfraqueceu.
Apesar de não recomendarem mais o cálcio para prevenir especificamente a pré-eclâmpsia, as entidades destacam:
- Outras Indicações: O cálcio ainda pode ser prescrito por outros motivos clínicos durante a gestação.
- Escolha Médica: A prescrição permanece como uma decisão individual do médico assistente.
As instituições afirmam que continuarão acompanhando novas metanálises em andamento e aguardam os posicionamentos futuros de órgãos como a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Ministério da Saúde e a Sociedade Internacional para Estudos da Hipertensão na Gestação (ISSHP).

Nota Técnica Conjunta 251/2024
Em fevereiro de 2025, o Ministério da saúde publicou uma nota técnica conjunta, elaborada pela Coordenação-Geral de Atenção à Saúde das Mulheres, que estabelece a suplementação universal do cálcio em gestantes na Atenção Primária à Saúde (APS).
A nota elaborada orientava a suplementação de cálcio para prevenir distúrbios hipertensivos na gestação, como a pré-eclâmpsia, que é uma das principais causas de mortalidade materna no Brasil. A orientação foi definida devido a baixa ingestão de cálcio entre mulheres brasileiras.
Orientações de suplementação pelo SUS
O protocolo orientado seguia da seguinte forma:
- Público: todas as gestantes atendidas no Sistema Único de Saúde (SUS), com início da suplementação a partir da 12ª semana de gestação até o parto;
- Dosagem: dois comprimidos diários de carbonato de cálcio (1.250 mg, equivalente a 1.000 mg de cálcio elementar);
- Prescrição: pode ser feita por médicos, enfermeiros e nutricionistas das equipes da APS;
- Cuidados na administração: o suplemento não deve ser ingerido junto com a suplementação de ferro, sendo necessário um intervalo de duas horas entre os suplementos para garantir a absorção adequada de cada um.
O que é a pré-eclâmpsia?
A pré-eclâmpsia é o novo diagnóstico de hipertensão arterial ou da piora de hipertensão arterial preexistente que surge após a 20ª semana de gestação. Já a eclâmspia são convulsões que ocorrem em mulheres com pré-eclâmpsia e que não apresentam outra causa.
Causas
Ainda desconhecida, a pré-eclâmpsia é mais comum em mulheres com os seguintes distúrbios ou características:
- Pré-eclâmpsia em uma gravidez anterior;
- Dois ou mais fetos (gravidez múltipla) na gravidez atual;
- Distúrbio de coagulação, como a síndrome do anticorpo antifosfolipídeo;
- Diabetes presente antes da gravidez ou surgido durante a gestação (diabetes gestacional);
- Hipertensão arterial ou um distúrbio dos vasos sanguíneos antes da gravidez;
- Primeira gravidez;
- Idade acima de 35 anos;
- Obesidade;
- Parentes que tiveram pré-eclâmpsia;
- Ancestralidade negra não hispânica, indígena americana ou nativa do Alasca.
Sintomas
Algumas mulheres não apresentam sintomas, porém em outros casos é possível notar retenção de líquidos nas mãos, nos dedos das mãos, no rosto e nos tornozelos e pés. Em casos mais graves, a pré-eclâmpsia pode danificar os órgãos, tais como o cérebro, os rins, os pulmões, o coração ou o fígado. Outros sintomas incluem:
- Dores de cabeça intensas;
- Visão distorcida;
- Confusão;
- Reflexos hiperativos;
- Dor na parte superior direita do abdômen (sobre o fígado);
- Náusea e/ou vômito;
- Dificuldade em respirar;
- Diminuição da urina;
- Hipertensão arterial muito elevada;
- Acidente vascular cerebral (raramente).
Diagnóstico e tratamento
O diagnóstico ocorre por meio do aumento de proteína na urina da gestante ou o aumento da pressão arterial durante a gravidez, além de avaliação médica e exames de sangue.
O tratamento pode incluir internação hospital em alguns casos para tratar a hipertensão arterial. Já em outros casos o sulfato de magnésio pode ser preescrito para prevenir ou interromper convulsões. Porém, dependendo da gravidade da pré-eclâmpsia e do bem-estar da mãe e do feto e número de semanas de gestação, também é realizado o parto do bebê, que normalmente é o melhor tratamento. Caso necessário, a mulher é inicialmente tratada com medicamentos para prevenir convulsões. Então, o parto costuma ser realizado assim que possível nas seguintes situações:
- Problemas no feto;
- A gestação durou 37 semanas ou mais;
- Eclâmpsia;
- Pré-eclâmpsia grave se a gravidez já tiver durado 34 semanas ou mais;
- Agravamento dos danos aos órgãos da mãe;
- Síndrome de HELLP.
Desse modo, após o parto a pressão arterial deve ser monitorada de perto até voltar ao normal.
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