
As diretrizes do novo consenso sobre Helicobacter pylori, previamente apresentada na XXIV Semana Brasileira do Aparelho Digestivo (SBAD), foi oficialmente publicada em junho de 2026, na revista Arquivos de Gastroenterologia. Oito anos após a última edição (2018), o documento atualiza orientações essenciais para o manejo da infecção no Brasil, trazendo recomendações baseadas nas melhores evidências científicas e alinhadas aos desafios contemporâneos.
O grande destaque desta edição é a resposta ao aumento progressivo da resistência bacteriana aos antimicrobianos tradicionais. Como resultado, novos esquemas terapêuticos e agentes antissecretores mais potentes ganham protagonismo.
Abaixo, detalhamos as principais atualizações e mudanças para a prática clínica.

Resumo rápido: como é o tratamento de H. pylori hoje
- Primeira escolha empírica: terapia quádrupla com bismuto (bismuto, metronidazol e tetraciclina) associada a IBP ou P-CAB.
- O tempo padrão passou para 14 dias (exceto a terapia quádrupla em cápsula única, de 10 dias).
- P-CABs, como a vonoprazana, entram como opção de inibição ácida mais potente que os IBPs.
- No retratamento, não se repete claritromicina nem levofloxacino já usados.
- A confirmação da cura é obrigatória, com teste respiratório de ureia ou antígeno fecal, respeitando o intervalo sem medicação.
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O que é o H. pylori e por que tratar?
O Helicobacter pylori é uma bactéria gram-negativa que coloniza a mucosa do estômago e infecta cerca de metade da população mundial. Boa parte das pessoas não tem sintomas, mas a infecção é o principal fator por trás da gastrite crônica e da úlcera péptica, além de aumentar o risco de adenocarcinoma gástrico e de linfoma MALT.
Tratar o H. pylori significa erradicar a bactéria com antibióticos associados a um bloqueio potente da acidez. O objetivo não é apenas aliviar sintomas: é cicatrizar úlceras, reduzir recidivas e diminuir o risco de câncer gástrico no longo prazo. Por isso, quando há indicação, a meta é alcançar taxas de erradicação de pelo menos 90%.
Por que o consenso foi atualizado?
A principal motivação do Núcleo Brasileiro para Estudo do H. pylori e Microbiota para esta atualização é o avanço contínuo e preocupante da resistência bacteriana, especialmente à claritromicina e ao levofloxacino.
Para contornar esse desafio, o V Consenso Brasileiro propõe ajustes definitivos no tratamento baseados em três frentes principais:
- Adição de bismuto: Amplia a eficácia contra cepas resistentes à claritromicina, levofloxacino e metronidazol.
- Maior inibição ácida: Com uso preferencial de bloqueadores competitivos de potássio (P-CABs), como a vonoprazana, ou aumento de dose e frequência dos Inibidores de Bomba de Prótons (IBPs).
- Padronização do tempo de tratamento: O uso de esquemas de 14 dias passa a ser a regra (abandonando os antigos esquemas de 7 a 10 dias), com exceção da terapia quádrupla em cápsula única (10 dias).
Novas Indicações de Tratamento
O novo consenso expandiu as indicações formais para a erradicação do H. pylori, oficializando condutas que já vinham sendo adotadas na prática baseadas em diretrizes internacionais recentes.
Tabela 1. Indicações para o Tratamento do H. pylori
| Status | Condição Clínica |
| Nova | Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE) com recomendação de uso periódico de IBPs ou P-CABs. |
| Nova | Candidatos à cirurgia bariátrica. |
| Nova | Familiares de primeiro grau (pais, irmãos e filhos) de pacientes com câncer gástrico. |
| Nova | Desejo expresso do paciente. |
| Mantida | Gastrite crônica. |
| Mantida | Doença ulcerosa péptica (gástrica ou duodenal). |
| Mantida | Dispepsia funcional / Dispepsia associada ao H. pylori. |
| Mantida | Dispepsia não investigada em pacientes com 45 anos ou menos, sem sinais de alarme. |
| Mantida | Condições ou lesões pré-neoplásicas associadas (atrofia, metaplasia intestinal e displasia). |
| Mantida | Linfoma MALT gástrico. |
| Mantida | Pós-ressecção endoscópica ou cirúrgica de câncer gástrico inicial. |
| Mantida | Planejamento de uso prolongado de AINEs, incluindo aspirina. |
| Mantida | Anemia ferropriva inexplicada ou púrpura trombocitopênica imune (PTI). |
| Retirada | A deficiência de vitamina B12 não consta mais nas indicações brasileiras. |
Diretrizes de Tratamento (Linhas Terapêuticas)
1ª Linha de Tratamento
O Núcleo Brasileiro determina as seguintes opções para o tratamento empírico inicial:
- Esquema quádruplo (Preferencial): Bismuto, metronidazol e tetraciclina, associados a IBP ou P-CAB (quando disponível) por 10 a 14 dias.
- Terapia tríplice otimizada: Claritromicina e amoxicilina por 14 dias, associada ao bismuto e/ou substituição do IBP pelo P-CAB (duas vezes ao dia).
- Terapia dupla em altas doses (Na indisponibilidade de bismuto): Amoxicilina 3 a 4 g/dia (em 3 ou 4 tomadas), associada ao IBP (em dose alta, 3 a 4 vezes ao dia) ou, preferencialmente, ao P-CAB (Vonoprazana 20 mg, duas vezes ao dia) por 14 dias.
- Terapia concomitante: Claritromicina, amoxicilina, metronidazol associados a IBP ou P-CAB por 14 dias é uma opção alternativa.
2ª Linha de Tratamento
Para retratamentos, é fundamental não repetir os esquemas indicados na 1ª linha (evitando reexposição a antibióticos como claritromicina). As opções são:
- Esquema quádruplo: Bismuto, metronidazol e tetraciclina com IBP ou P-CAB por 10 a 14 dias (caso não tenha sido a primeira escolha).
- Esquema tríplice com levofloxacino: Amoxicilina, levofloxacino e bismuto associados a IBP ou P-CAB por 14 dias.
- Terapia dupla em altas doses: Amoxicilina 3 a 4 g/dia (em 3 ou 4 tomadas) associada a IBP (alta dose) ou P-CAB (Vonoprazana 20 mg, 2x/dia) por 14 dias (na indisponibilidade de bismuto).
Terapia de Resgate (3ª Linha ou mais)
A terapia de resgate deve ser aplicada quando as alternativas anteriores falharem, sem repetir antibióticos chaves (como levofloxacino e claritromicina):
- Esquema quádruplo clássico: Bismuto, metronidazol e tetraciclina com IBP ou P-CAB por 10 a 14 dias.
- Terapia tríplice com rifabutina: Rifabutina e amoxicilina associadas a IBP ou P-CAB por 14 dias (especialmente se a terapia quádrupla já foi utilizada ou não estiver disponível).
- Terapia dupla em altas doses: Novamente, amoxicilina 3 a 4 g/dia e IBP/P-CAB por 14 dias (na ausência de bismuto e rifabutina).
Pacientes com Alergia à Penicilina
A alergia à penicilina exige a exclusão da amoxicilina, tornando o cenário mais restrito:
- 1ª Linha: Esquema quádruplo (bismuto, metronidazol, tetraciclina e IBP/P-CAB por 10 a 14 dias) ou terapia dupla com tetraciclina e P-CAB por 14 dias.
- 2ª Linha: Qualquer opção não utilizada anteriormente, ou terapia tríplice com quinolona (levofloxacino) e claritromicina por 14 dias.
Testes de Sensibilidade Antibiótica
O consenso determina que testes de suscetibilidade (cultura ou genotipagem) devem ser solicitados idealmente após três falhas terapêuticas, caso disponíveis. Nesses cenários, terapias guiadas (como IBP-Amoxicilina-Claritromicina ou IBP-Amoxicilina-Levofloxacino) podem ser empregadas com segurança
Quanto tempo dura o tratamento de H. pylori?
Uma das mudanças mais práticas do V Consenso é a padronização do tempo de tratamento. Os esquemas de 7 a 10 dias foram abandonados, e 14 dias passaram a ser a regra para a maioria das terapias. A única exceção é a terapia quádrupla em cápsula única, mantida em 10 dias.
Cumprir os 14 dias completos, sem interromper ao primeiro sinal de melhora, é decisivo para evitar falha terapêutica e resistência bacteriana.
Como confirmar se o H. pylori foi eliminado?
Confirmar a erradicação é etapa obrigatória, e não opcional. Depois de terminar o tratamento, o controle de cura precisa respeitar dois intervalos para não dar falso negativo:
- pelo menos 4 semanas após o fim dos antibióticos e do bismuto;
- pelo menos 14 dias sem uso de IBP ou P-CAB antes do teste.
Os métodos de escolha são os que detectam infecção ativa: o teste respiratório com ureia marcada ou a pesquisa de antígeno fecal. Um ponto importante do consenso: o teste rápido da urease não deve ser usado sozinho para documentar a cura, porque sua sensibilidade cai muito nesse cenário. Quando o tratamento dá certo, a chance de reinfecção é baixa, inferior a 5% ao ano.
Vigilância após o tratamento
Em pacientes que já apresentam lesões de maior risco, como atrofia ou metaplasia intestinal gástrica avançada (OLGA/OLGIM III ou IV, ou metaplasia incompleta), o consenso recomenda seguimento endoscópico de vigilância a cada 3 anos, mesmo após a erradicação.
Cuidados e efeitos colaterais durante o tratamento
Os novos esquemas são mais eficazes, mas também mais complexos, com vários comprimidos por dia. A adesão é o principal determinante de sucesso, então vale organizar horários e concluir todos os 14 dias. Alguns efeitos são comuns e esperados:
- gosto metálico e intolerância gástrica, sobretudo com metronidazol;
- evitar bebida alcoólica durante o uso de metronidazol, pelo risco de reação desagradável (efeito dissulfiram);
- maior sensibilidade ao sol com tetraciclina e com levofloxacino;
- desconforto abdominal, náusea ou alteração do hábito intestinal.
Na maioria das vezes, os sintomas são leves e passam com o fim do tratamento. Orientar o paciente sobre eles aumenta a adesão.
Raio-X MedCof: o que cai na prova sobre o tratamento de H. pylori
Nas provas de residência, o H. pylori costuma cobrar mudanças de conduta, e o V Consenso trouxe várias. Estes são os pontos de maior rendimento:
- Primeira linha preferencial: terapia quádrupla com bismuto (bismuto, metronidazol e tetraciclina) com IBP ou P-CAB.
- Tempo padrão de 14 dias (o esquema de 7 dias saiu).
- P-CABs (vonoprazana) como bloqueio ácido mais potente que os IBPs.
- No retratamento, não repetir claritromicina nem levofloxacino já usados.
- Novas indicações de tratar: candidatos à cirurgia bariátrica, familiares de 1º grau de paciente com câncer gástrico, DRGE com uso periódico de IBP/P-CAB e desejo do paciente.
- Saiu das indicações brasileiras: deficiência de vitamina B12.
- Controle de cura obrigatório (4 semanas sem antibióticos, 14 dias sem IBP/P-CAB) e teste de urease não vale sozinho para documentar a cura.
O que fazer: memorize a primeira linha com bismuto e o tempo de 14 dias, e treine as trocas de esquema no retratamento, que é onde as questões costumam pegar.
Perguntas frequentes sobre o tratamento de H. pylori
Qual é o tratamento de primeira linha para H. pylori?
A opção preferencial é a terapia quádrupla com bismuto: bismuto, metronidazol e tetraciclina associados a um IBP ou, quando disponível, a um P-CAB, por 10 a 14 dias.
Quanto tempo dura o tratamento?
Na maioria dos esquemas, 14 dias. A exceção é a terapia quádrupla em cápsula única, que dura 10 dias.
Como saber se o H. pylori foi curado?
Com teste respiratório de ureia ou antígeno fecal, feitos pelo menos 4 semanas após os antibióticos e 14 dias sem IBP ou P-CAB. A confirmação é obrigatória.
O que fazer se o primeiro tratamento falhar?
Parte-se para a 2ª linha, sem repetir os antibióticos já usados (como claritromicina). Após três falhas, testes de sensibilidade podem guiar a escolha.
Precisa tratar quem não tem sintomas?
Depende da indicação. O consenso ampliou as situações em que se trata mesmo sem sintomas, como familiares de 1º grau de pacientes com câncer gástrico e candidatos à cirurgia bariátrica.
O tratamento mudou em relação ao consenso de 2018?
Sim. As principais mudanças são o uso preferencial do bismuto, a entrada dos P-CABs, o tempo padrão de 14 dias e novas indicações de tratamento.
Referência
COELHO, LGZ. V Consenso Brasileiro sobre a infecção por H. pylori. Apresentado em: XXIV Semana Brasileira do Aparelho Digestivo (SBAD); 2025; São Paulo, Brasil.
COELHO LGV, Sanches BSF, Maguilnik I, et al. Vth Brazilian Consensus Conference on Helicobacter pylori infection. Arq Gastroenterol. 2026;63:e26043.
Como se preparar em Gastroenterologia para a residência
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