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ATA 2026: Novas Recomendações sobre Doenças da Tireoide na Gestação

Tudo o que você precisa saber sobre doenças da tireoide na gestação: do rastreio ao tratamento, baseado nas diretrizes ATA 2026

doenças da tireoide na gestação
Imagem de Canva

A American Thyroid Association (ATA) publicou as diretrizes atualizadas sobre doenças tireoidianas na gestação. O texto, que não era atualizado desde 2017, incorpora evidências novas e altera normativas para o tratamento das condições.  

A ATA utilizou revisões sistemáticas com metodologia GRADE (Grading of Recommendations, Assessment, Development, and Evaluation). Além disso, também contou com a participação de 10 sociedades internacionais, incluindo obstetras, endocrinologistas, cirurgiões e representantes de pacientes. 

As recomendações são classificadas como fortes (“should“) ou condicionais (“may“), além das Good Practice Statements (GPS), ou Declarações de Boas Práticas, para situações com alta certeza indireta, mas sem dados formais suficientes.

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Fisiologia tireoidiana na gestação

As diretivas determinam os aspectos fisiológicos fundamentais para a interpretação dos exames que identificam doenças da tireoide na gestação:

  • O TSH é o melhor marcador do estado tireoidiano materno durante a gestação;
  • O hCG estimula a produção de hormônios tireoidianos, com pico no fim do primeiro trimestre, causando queda fisiológica do TSH (TSH < 0,4 mU/L é comum);
  • A TBG aumenta a partir da semana 7, com pico na semana 16;
  • Ocorre aumento da degradação de T4 pela deiodinase tipo 3 placentária e aumento da excreção renal de iodo;
  • A tolerância imunológica da gestação reduz os anticorpos tireoidianos progressivamente ao longo da gravidez;

Interpretação dos exames de função tireoidiana

Intervalos de Referência

SituaçãoRecomendação
Padrão idealIntervalo laboratorial e específico por trimestre (percentil 2,5–97,5)
Sem intervalo disponívelTSH: 0,1–4,0 mU/L no 1º e 2º trimestres
FT4 sem intervalo específicoUsar TT4 ajustado para a semana gestacional, FT4 index ou intervalo da não-gestante

Importante: O ajuste do TT4 consiste em aumentar os limites de referência em 5% por semana a partir da semana 7, com plateau de +50% a partir da semana 16.

O que é novo?

  • Maior ênfase nas limitações dos imunoensaios de FT4 na segunda metade da gestação (subestimação método-dependente);
  • O FT4 por imunoensaio analógico correlaciona-se melhor com o TSH no primeiro trimestre;
  • Recomenda-se usar o mesmo método de dosagem para acompanhamentos posteriores.

Indicações para rastreio da função tireoidiana

Não há recomendação de rastreio universal. O rastreio direcionado é recomendado com base nos fatores de risco abaixo:

Fatores de risco e frequência de Testagem

Fator de RiscoFrequência Sugerida
Hipotireoidismo/hipertireoidismo prévio, incluindo tireoidite pós-partoApós resultado positivo para grávidez
Positividade conhecida para anticorpos tireoidianosA cada 4-6 semanas até metade da gestação
Sintomas de disfunção tireoidiana ou bócioApós resultado positivo para grávidez
Uso de medicamentos associados a disfunção tireoidiana (amiodarona, lítio, imunoterapia etc.)Após resultado positivo para grávidez + a cada trimestre
Doença autoimune (DM1, artrite reumatoide, lúpus etc.)Após resultado positivo para grávidez
Duas ou mais perdas gestacionais ou infertilidadeApós resultado positivo para grávidez (se não realizado pré-concepcionalmente)
Síndrome de Down ou TurnerApós resultado positivo para grávidez
Radioterapia cervical prévia ou radioiodoApós resultado positivo para grávidez + a cada trimestre
Cirurgia tireoidiana préviaApós resultado positivo para grávidez + a cada trimestre
História familiar de doença autoimune tireoidianaApós resultado positivo para grávidez
Residência em área de deficiência grave de iodoApós resultado positivo para grávidez + a cada 4–6 semanas até metade da gestação

O que é novo: A atualização excluiu fatores com baixo poder discriminativo, como IMC, paridade e idade materna isolados.

Suplementação de Iodo

  • Gestantes e lactantes devem atingir 250 mcg/dia de iodo (dieta + suplementação);
  • Mulheres com risco de deficiência devem iniciar a suplementação de 150 mcg/dia idealmente pelo menos 3 meses antes da concepção planejada;
  • Em países de baixa renda com deficiência grave: 400 mg de óleo iodado anual como medida emergencial;
  • Evitar exposição excessiva: mulheres devem evitar suplementos com mais de 500 mcg/dia devido a preocupações com disfunção tireoidiana fetal e materna;
  • Não há biomarcador individual validado para estimar o status crônico de iodo.

Hipotireoidismo subclínico e manifesto

Hipotireoidismo Manifesto

SituaçãoRecomendaçãoForça
TSH ≥ 6 mU/L ou hipotireoidismo confirmado na repetiçãoTestar novamente depois da 3ª semana e tratar com levotiroxina  Forte
TSH < 6 mU/L (hipotireoidismo manifesto leve)Pode repetir o teste em 3 semanas antes de iniciar LT4Condicional
Preparações com LT3 ou extrato tireoidiano dessecadoNão devem ser usadas na gestaçãoForte

Raciocínio para a nova recomendação sobre TSH < 6: Estudos recentes mostram que até metade dos casos de hipotireoidismo leve na gestação normaliza espontaneamente em semanas, especialmente se TSH < 6 mU/L.

Hipotireoidismo subclínico

SituaçãoRecomendaçãoForça
TSH > 10 mU/LTratar com LT4GPS
Diagnosticado no 1º trimestreLT4 pode ser consideradaCondicional/Baixa
Diagnosticado após o 1º trimestreLT4 não deve ser oferecidaForte/Alta
Em tratamento com LT4Alvo de TSH < 2,5 mU/LCondicional

O que é novo:

  • A positividade para TPOAb não deve mais guiar a decisão de tratar hipotireoidismo subclínico. Isso ocorre porque as diferenças no risco de efeitos adversos entre o hipotireoidismo subclínico TPOAb-positivo e TPOAb-negativo são pequenas;
  • O momento do diagnóstico (1º vs. demais trimestres) passa a ser o principal determinante da conduta;
  • Dados de ensaios randomizados mostram que LT4 iniciada após o 1º trimestre não melhora desfechos obstétricos ou neurodesenvolvimento infantil

Manejo do Hipotireoidismo Pré-existente

  • A maioria das pacientes têm um aumento da dose de LT4 de cerca de 25% até a semana 12 e 50% até a semana 20;
  • Monitoramento recomendado: TSH a cada 4 semanas até a metade da gestação e pelo menos uma vez próximo à semana 30;
  • Após o parto: retornar à dose pré-gestacional; checar TSH em 6 semanas.

Autoimunidade tireoidiana (TPOAb positiva)

Esta é uma das principais mudanças das diretrizes de 2026:

Três grandes ensaios randomizados publicados após as diretrizes de 2017 demonstraram que levotiroxina não melhora os efeitos em mulheres eutireoidianas TPOAb positivas, independentemente de:

  • TSH > 2,5 mU/L;
  • Histórico de abortos;
  • Idade materna;
  • Concentração de TPOAb.
SituaçãoRecomendaçãoForça
Mulher eutireoidiana TPOAb+ (gestante ou planejando gestação)Não oferecer LT4Forte/Alta
Suplementação de selênioNão oferecerCondicional/Baixa
Glucocorticoides ou imunoglobulina IVNão oferecerCondicional/Baixa
Monitoramento do TSHA cada 3-6 meses pré-concepcionalmente; a cada 4-6 semanas no 1º semestre gestacionalCondicional/Baixa

Por que o risco ainda existe: A maior taxa de abortamento em TPOAb+ parece refletir uma susceptibilidade autoimune geral, não mediada pela disponibilidade de hormônio tireoidiano — por isso o LT4 não a modifica.

Hipotireoxinemia isolada

  • Prevalência: 2,0–2,2% das gestantes;
  • Não tratar com LT4 após o primeiro trimestre (recomendação forte/alta evidência);
  • No 1º trimestre: não oferecer LT4 (condicional);
  • Avaliar deficiência de ferro e iodo (fatores de risco modificáveis);
  • Seguimento com TSH e FT4 em 2-6 semanas se diagnosticada no 1º trimestre para excluir progressão.

Hipertireoidismo na gestação

Tireotoxicose Gestacional Transitória (TGT) vs. Doença de Graves

CaracterísticaTGTDoença de Graves
Sintomas pré-gestacionaisAusentesFrequentes
Hiperemese gravídicaFrequenteGeralmente ausente
TRAb/TSINormalElevado
TSHNormaliza no 3º trimestreSuprimido durante toda a gestação
FT3Normal ou levemente elevadoElevado
OftalmopatiaAusentePode estar presente

Manejo

SituaçãoRecomendaçãoForça
Hipertireoidismo subclínico ou TGTNão tratar com DAT; propranolol para sintomasForte/Moderada
Hipertireoidismo manifesto por Doença de Graves ou nódulo autônomoTratar com DAT, alvo FT4 no terço superior do intervalo de referênciaCondicional/Moderada
Hiperemese gravídica sem outros sinais de hipertireoidismoNão solicitar função tireoidianaGPS
Cintilografia isotópicaContraindicada na gestaçãoGPS

Drogas antitireoidianas (DAT) na gestação

Escolha do Medicamento

PTU é preferível ao metimazol (MMI) no 1º trimestre, pois:

  • MMI está associado a malformações mais graves (aplasia cutis, onfalocele — 7 sistemas orgânicos afetados)
  • PTU associa-se a malformações mais leves (face/pescoço e trato urinário)
  • Dose de conversão: MMI 1 mg = PTU 20 mg
SituaçãoRecomendaçãoForça
Mulher tomando MMI e planejando gestaçãoTrocar para PTUForte/Moderada
PTU no 1º trimestre de gestaçãoPreferívelCondicional
Após 16 semanasNão há evidência clara de qual DAT preferir
PTU indisponívelContinuar MMI na menor dose eficaz pelo menor tempoCondicional

Risco de malformações (dados populacionais):

  • Sem DAT: 5,7–5,9%
  • PTU: 7,0–8,0%
  • MMI/carbimazol: 8,1–9,1%
  • Ambas: 8,0–10,1%

Suspensão das DAT na Gestação

Considerar a suspensão se, ao confirmar a gestação, a paciente estiver:

  • Em dose baixa (MMI < 5–10 mg/dia ou PTU < 100–200 mg/dia)
  • Em uso por mais de 6 meses
  • Com TSH normal

Após a suspensão: monitoramento a cada 1-2 semanas no 1º trimestre e a cada 24 semanas nos demais.

Monitoramento fetal na doença de graves

  • TRAb e/ou TSI devem ser medidos no 1º trimestre em toda gestante com história de Doença de Graves;
  • Se TRAb/TSI > 3x o limite superior normal: repetir com 18–22 e 30–34 semanas + ultrassonografia fetal mensal a partir de 18–20 semanas
  • Se TRAb/TSI < 3x o limite superior normal e mãe eutireoidiana: suspender monitoramento fetal

Cirurgia tireoidiana na gestação

O que é novo: Novas recomendações de anestesiologia confirmam que cirurgia com anestesia geral pode ser realizada com segurança em qualquer trimestre, quando urgente. Porém, o 2º trimestre ainda é preferível:

  • 1º trimestre: abortos podem ser incorretamente atribuídos à cirurgia;
  • 3º trimestre: necessidade de monitoramento fetal e risco de parto prematuro urgente.

Nódulos e câncer de tireoide na gestação

Principais Mudanças

  • Para a maioria dos cânceres diferenciados (DTC) de baixo risco, o tratamento pode ser adiado para o pós-parto sem impacto no prognóstico;
  • A gestação não piora o prognóstico do DTC previamente tratado;
  • Biópsia por PAAF pode ser realizada na gestação após decisão compartilhada;
  • Testes de marcadores moleculares em nódulos indeterminados não foram validados para uso na gestação;
  • O radioiodo é absolutamente contraindicado na gestação.

Tireoidite Pós-Parto (TPP)

  • Prevalência estimada: 8%;
  • Principal fator de risco: TPOAb positiva (risco de 33–50%);
  • Risco de recorrência em gestação futura: 70%;
  • Risco de hipotireoidismo permanente a longo prazo: 10–50%.

Tratamento

FaseTratamentoForça
Fase tireotóxicaBeta-bloqueador (propranolol ou metoprolol — seguros na lactação)Forte/Alta
Fase tireotóxicaNão usar DAT (mecanismo é destrutivo, não produtivo)
Fase hipotireoidianaLT4 se sintomática, amamentando ou planejando nova gestação em 6 mesesCondicional
Após normalizaçãoChecar TSH após 1 ano ou com sintomasGPS

O que é novo: Maior ênfase no papel do paciente em reconhecer sintomas e no curso natural da doença.

Uso de radiofármacos na lactação

AgenteConduta
Iodo-123 (¹²³I)Suspender amamentação por 3–4 dias; ordenhar e descartar o leite
Pertecnetato de Tc-99mSuspender por 36 horas
Iodo-131 (¹³¹I)Não administrar durante a lactação; suspender amamentação por pelo menos 3 meses antes

Resumo das Principais Mudanças em Relação às Diretrizes de 2017

TemaDiretriz 2017Diretriz 2026
Hipotireoidismo subclínico tardioConsiderar tratarNão tratar após o 1º trimestre (evidência alta)
TPOAb+ eutireoidianaLT4 era consideradaNão oferecer LT4 (3 ensaios negativos)
Guia para LT4 em SCHypoTSH + TPOAbApenas timing do diagnóstico
Hipotireoidismo leve (TSH < 6)Tratar imediatamentePode confirmar em 3 semanas antes
Fatores de risco para rastreioIMC, paridade, idade incluídosEsses fatores foram removidos
Cirurgia na gestaçãoPreferir 2º trimestreQualquer trimestre se urgente
Câncer de tireoideCirurgia mais precoceAdiar para o pós-parto na maioria dos casos

As diretrizes reforçam que as recomendações são orientações gerais e devem ser adaptadas à situação individual de cada paciente, considerando recursos locais e decisão compartilhada.

Fonte:

KOREVAAR, Tim I.M. et al. American Thyroid Association 2026 Guidelines for Thyroid Disease in Preconception, Pregnancy, and Postpartum. Thyroid, [S.l.], v. 36, n. 5, p. 481–544, 2026. DOI: 10.1177/10507256261445624.

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Autor

  • Jornalista e linguista. Especialista em acessibilidade para pessoas cegas e com baixa visão.

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