Oncopediatria no Plantão: decifrando sinais de alerta

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A oncologia pediátrica é um campo de alta complexidade, responsável por cerca de 2,5% de todos os casos de câncer no Brasil. Embora a sobrevida em centros desenvolvidos ultrapasse os 70%, a média nacional ainda é mais baixa, tornando a suspeita precoce e o encaminhamento rápido fatores cruciais.

Muitas vezes, o primeiro contato com essa criança será no pronto-socorro ou no ambulatório, com queixas aparentemente comuns.

Quando Suspeitar?

Diferente do adulto, os sinais e sintomas em pediatria são frequentemente inespecíficos. Fique atento a padrões que fogem do comum:

  • Febre: Especialmente se prolongada e sem foco infeccioso claro (pode indicar Leucemias, Linfomas, Neuroblastoma, Ewing).
  • Dor Óssea: Um sinal de alerta maior. Dor que é incapacitante, não deixa a criança brincar, causa irritabilidade ou a acorda à noite (Leucemias, Neuroblastoma, Tumores Ósseos).
  • Perda de Peso: Principalmente em Linfomas e Neuroblastoma.
  • Palidez e Fadiga: Sugere infiltração medular (Leucemias, Linfomas, Neuroblastoma, Ewing, Rabdomiossarcoma, Wilms).
  • Sangramentos Anormais: Petéquias e equimoses desproporcionais (Leucemias, tumores infiltrando medula óssea).
  • Linfadenopatia: Especialmente se não melhora com antibioticoterapia.
  • Cefaleia e Vômitos: Sinais clássicos de hipertensão intracraniana (Tumores de SNC).
Distribuição das Neoplasias na faixa etária Pediátrica. Fonte: inca.gov 

Tumores de Sistema Nervoso Central (SNC)

Os tumores de SNC são as neoplasias sólidas mais comuns na infância, com 50-60% localizados na fossa posterior (infratentoriais). Os sintomas variam drasticamente com a localização:

  • Tumores Infratentoriais (Fossa Posterior):
    • Sintoma clássico: Hidrocefalia obstrutiva. Isso se traduz em cefaleia crônica e progressiva, irritabilidade e, classicamente, vômitos matinais.
    • Ataxia: Ocorre por afetação do cerebelo.
    • Em lactentes: Os sintomas de HIC podem ser mascarados pelo aumento do perímetro cefálico (PC) e abaulamento de fontanela.
  • Tumores Supratentoriais:
    • Sinal clássico: Crises epilépticas de início abrupto.
    • Podem apresentar déficits motores/sensitivos focais ou alterações comportamentais.
  • Tumores de Tronco Encefálico:
    • Apresentam-se com déficits de nervos cranianos (ex: estrabismo, perda auditiva) e déficits motores.

O diagnóstico é feito por TC ou RNM de crânio e confirmado por biópsia.

Neoplasias Hematológicas

Leucemia Linfóide Aguda (LLA)

A LLA é a neoplasia mais comum da infância (30% dos cânceres em < 15 anos), com pico de incidência entre 3 e 5 anos.

  • Quadro Clínico: Geralmente agudo (dias a semanas). Apresenta-se com os “3 P’s” da falência medular: Palidez (anemia), Petéquias/Púrpuras (plaquetopenia) e Propensão a infecções (neutropenia).
  • Sinais Específicos: Dor óssea intensa, hepatoesplenomegalia, adenomegalias e aumento testicular indolor. A invasão do SNC pode causar paralisia facial.
  • Diagnóstico: A confirmação é feita pelo Mielograma, que deve mostrar $\ge 25\%$ de linfoblastos.
  • Pior Prognóstico: Idade (< 1 ano ou > 10 anos), Leucometria inicial > 100.000, e a translocação t(9;22) (Cromossomo Philadelphia).
Linfonodomegalia cervical. Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof.
Imagem 2: Radiografia de paciente com LLA. Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof.

Leucemia Mieloide Aguda (LMA)

Representa 15-20% das leucemias em < 15 anos.

  • Quadro Clínico: Semelhante à LLA (febre, sangramentos).
  • Sinal Diferencial: É mais comum ocorrer infiltração de outros sítios, formando o Cloroma (acúmulo extramedular de blastos), frequentemente em face, órbita ou crânio.
  • Atenção: O subtipo M3 frequentemente cursa com fenômenos hemorrágicos graves, como CIVD.
  • Diagnóstico: Mielograma com 20-25% de blastos mielóides.
Tomografia de Cloromas em Crânio. Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof. 
Cloromas em face. Acervo de aulas do Grupo MedCof. 

Linfomas

  • Linfoma de Hodgkin (LH): O quadro clássico é uma massa tumoral de crescimento progressivo e contíguo, 60% em região cervical ou supraclavicular. 2/3 dos pacientes apresentam alargamento do mediastino. A presença de Sintomas B (febre, perda de peso > 10% em 6 meses, sudorese noturna) é fundamental.
 PET-CT. Fonte: acervo de aulas do Grupo MedCof. 

  • Linfoma Não-Hodgkin (LNH): É o 3º câncer mais frequente. A principal característica é o crescimento rápido, e muitos pacientes já se apresentam ao diagnóstico com sinais de falência medular. O Linfoma de Burkitt é um subtipo comum.

O diferencial das Massas Abdominais

Este é um dos cenários mais clássicos da oncopediatria. As três neoplasias abdominais mais frequentes são Neuroblastoma, Tumor de Wilms e Hepatoblastoma.

CaracterísticaNeuroblastomaTumor de Wilms (Nefroblastoma)Hepatoblastoma
Idade Pico< 2 anos (média 22 meses)3 – 4 anos6 meses – 3 anos
ApresentaçãoSistêmico: Criança em mau estado geral, febre, dor óssea, perda de peso.Localizado: Criança geralmente assintomática, bom estado geral.Geralmente massa assintomática.
Massa AbdominalUltrapassa a linha média.Não ultrapassa a linha média.Massa hepática.
Sinais ClássicosEquimose periorbitária (olhos de guaxinim), nódulos subcutâneos (blueberry muffins).Tríade: Massa abdominal, Hematúria (25%), HAS (25%).Anorexia, perda de peso.
MarcadorAumento de catecolaminas urinárias (VMA e Ácido Homovanílico).Nenhum específico.Elevação de Alfafetoproteína (AFP).
RadiologiaCalcificações são frequentes.Calcificações são raras.Massa hepática.
PrognósticoPior prognóstico, metástases frequentes ao diagnóstico.Bom prognóstico, metástases raras.Depende da ressecção.

Tumores Ósseos: o grande dilema da dor

A dor óssea é o sintoma central. O diferencial clássico se dá entre os dois tumores ósseos malignos mais comuns:

Osteossarcoma

  • Perfil: É o mais comum (60% dos tumores ósseos). O pico ocorre na segunda década, durante o estirão da puberdade.
  • Localização: Metáfise de ossos longos, principalmente fêmur distal e tíbia proximal (região do joelho).
  • Clínica: Apresentação localizada. Dor persistente e progressiva, aumento de volume e sinais flogísticos locais (calor e eritema).
  • Diagnóstico: RX ósseo com imagem característica de “raios de sol” (sunburst). O principal sítio de metástase é o pulmão.
  • Tratamento: Quimioterapia (QT) neoadjuvante + Cirurgia + QT adjuvante.
 Sinal de raios de sol. Fonte: Radiopaedia.org 

Sarcoma de Ewing

  • Perfil: Tumor raro, também com pico na $2^{a}$ década. 50% ocorrem no esqueleto axial.
  • Clínica: Apresentação sistêmica. Além da dor localizada, cursa com emagrecimento, febre e anemia.
  • Diagnóstico: RX ósseo com achado típico de “casca de cebola” (onion skin). Requer estadiamento completo, incluindo mielograma/biópsia de medula óssea.
  • Tratamento: QT + Cirurgia ou Radioterapia (RTX) + QT.
Sinal da casca de cebola. Fonte: Radiopaedia.org 

O diagnóstico precoce em oncopediatria muda drasticamente o prognóstico. A suspeita clínica correta e o encaminhamento ágil são nossas ferramentas mais importantes.

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