
O Comitê de Consenso Clínico em Ginecologia do American College of Obstetricians & Gynecologists publicou Committee Statement nº 28 do ACOG, em julho de 2026.
O documento endossa (com ressalvas importantes) as diretrizes atualizadas da Women’s Preventive Services Initiative (WPSI) e consolida uma mudança que já vinha sendo desenhada nos últimos anos: o teste primário de HPV de alto risco deixou de ser “mais uma opção” e passou a ser o método preferencial para a maioria das pacientes.
Vamos destrinchar o que muda, por quê, e o que isso significa para quem está estudando para a residência médica ou quer se atualizar.

Pesquisa de DNA-HPV primário como Método Preferencial
Até então, o ACOG tratava três estratégias como praticamente equivalentes para a faixa dos 30 aos 65 anos: teste de HPV primário, co-teste (DNA-HPV + citologia) e citologia isolada. Essa equivalência acabou.
Com base nas evidências que sustentam as recomendações da WPSI e na revisão preliminar da USPSTF, o ACOG agora estabelece uma hierarquia clara. O teste primário de DNA- HPV coletado pelo profissional, a cada 5 anos, é o método preferencial.
O motivo é: a citologia isolada tem sensibilidade menor que o HPV primário e que o co-teste. Em rastreamento, sensibilidade é o que evita o diagnóstico perdido.
Isso não significa abandonar as outras estratégias. O co-teste segue como alternativa aceitável, e o ACOG faz questão de mantê-lo justamente porque a infraestrutura laboratorial para HPV primário e a cobertura de testes aprovados pela FDA ainda não estão disponíveis de forma universal.
Guardando as devidas proporções, esse é um ponto que vale ter no radar também na realidade brasileira: a recomendação ideal e a disponibilidade real nem sempre andam juntas.
As recomendações por faixa etária
Organizando de forma prática, para pacientes de risco médio:
| Faixa etária | Recomendação |
| 21–29 anos | Citologia cervical isolada a cada 3 anos (sem mudanças) |
| 30–65 anos | Preferencial: pesquisa de HPV primário (coleta por profissional) a cada 5 anos. Aceitável: co-teste a cada 5 anos, ou autocoleta de DNA-HPV a cada 3 anos, quando o método preferencial não está disponível ou por escolha da paciente após aconselhamento. Última opção: citologia isolada a cada 3 anos, apenas se as demais não estiverem disponíveis |
| > 65 anos | Rastreamento de rotina não indicado se houve rastreamento prévio adequado |
| Pós-histerectomia (com retirada do colo) | Sem rastreamento de rotina, desde que não haja histórico de câncer cervical ou lesão precursora de alto grau |
A novidade que merece atenção: a autocoleta
Pela primeira vez, a autocoleta do teste de HPV (patient-collected) entra nas recomendações da ACOG. É uma mudança com grande potencial de ampliar o acesso, mas o ACOG alerta cuidados que valem a leitura atenta:
- Intervalo de 3 anos, não 5: faltam dados que sustentem o intervalo de 5 anos para a autocoleta, então o ACOG recomenda manter 3 anos até que haja evidência suficiente.
- Kit aprovado pela FDA e ordenado pelo profissional: os testes de autocoleta hoje aprovados exigem prescrição ou aprovação médica, para pacientes de 25 a 65 anos. Não é um exame de balcão.
- Processos de retaguarda são inegociáveis: a autocoleta só deve ser oferecida quando já existirem sistemas de documentação, notificação e seguimento. Sem isso, o risco é justamente o oposto do que se pretende: um resultado que não gera conduta, agravado pelo intervalo longo até o próximo exame.
- Cuidado com o overscreening: testes feitos fora do intervalo ou da faixa etária recomendada geram interpretações fora de qualquer protocolo estabelecido — por isso o ACOG reforça que a autocoleta deve ocorrer sob processo guiado pelo profissional.
Para quem essas recomendações NÃO valem
Estas diretrizes se aplicam a pacientes de risco médio e não incluem:
- Pacientes com HIV;
- Pacientes imunocomprometidas sem HIV;
- Pacientes com exposição intrauterina ao dietilestilbestrol (DES).
Acesso é o que salva vidas
Por trás de toda a discussão técnica, o ACOG deixa uma mensagem que atravessa qualquer estratégia escolhida: o subrastreamento, ou a ausência total de rastreamento, é o maior contribuinte para o desenvolvimento do câncer de colo do útero. Populações sub-atendidas têm menor acesso ao exame e, não por acaso, maior incidência e mortalidade.
A autocoleta pode ajudar a alcançar quem hoje fica de fora, mas não pode virar uma opção “de segunda classe” que aprofunde disparidades. O objetivo maior, sempre, é maximizar a oportunidade de rastreamento para todas as pacientes elegíveis, com aconselhamento e seguimento adequados.
Isso vai cair na minha prova de residência?
Essas são recomendações formais do Colégio Americano de Ginecologia e Obstetrícia e o que, tradicionalmente, observamos, é que as provas de residência são muito pautadas nas diretrizes do Ministério da Saúde.
Diante disso, é importante ressaltar que a probabilidade dessas especificações estarem em sua prova é baixa (mas a cabeça do autor da questão é sempre um mistério).
Fique à frente das mudanças em Ginecologia e Obstetrícia — e chegue mais preparado na sua prova
Diretriz nova sai toda hora: o ACOG atualiza, a WPSI revisa, a USPSTF ainda está em discussão. Mas na hora da prova, o que importa é saber ler o cenário — o que é vanguarda internacional e o que o Ministério da Saúde realmente cobra no rastreamento do câncer de colo.
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