
O Ministério da Saúde lançou a 3ª edição do Guia de Tratamento da Malária no Brasil (2026). Este novo documento substitui a edição de 2021, documento amplamente usado como fonte de questões em provas de residência, consolidando mudanças estruturais que vão desde o diagnóstico laboratorial até o acompanhamento pós-tratamento.

A Nova Era do Tratamento: Tafenoquina e Testagem de G6PD
A mudança técnica mais expressiva é a incorporação da Tafenoquina como terapia de dose única para a cura radical do Plasmodium vivax. Ao contrário da Primaquina, que exige múltiplos dias de tratamento, a Tafenoquina em dose única visa resolver o problema histórico da baixa adesão terapêutica.
Entretanto, sua administração exige a testagem obrigatória da atividade da enzima G6PD para todos os pacientes com mais de 2 anos e peso superior a 10 kg. A 3ª edição inova ao estabelecer limiares de atividade enzimática (em UI/gHb) para definir o esquema terapêutico:
| Atividade de G6PD | Conduta Terapêutica |
| >= 6,1 UI/gHb (Alta) | Cloroquina (3 dias) + Tafenoquina (Dose Única). |
| 4,1 a 6,0 (Intermediária) | Cloroquina (3 dias) + Primaquina (7 dias). |
| <= 4,0 (Baixa) | Cloroquina (3 dias) + Primaquina Semanal (8 semanas). |
Na 2ª edição, a testagem era realizada apenas “se disponível” e não apresentava esses níveis técnicos tão detalhados de UI/gHb.

Mudança no Monitoramento: LVC do D3 para o D5
Uma alteração crítica para a rotina de vigilância é o novo cronograma da Lâmina de Verificação de Cura (LVC). Enquanto a edição anterior preconizava o primeiro controle no D3, a nova diretriz desloca esse marco para o D5.
Em regiões de moderada e alta transmissão, o acompanhamento agora prioriza os dias D5 e D28 para todas as espécies. Para áreas de baixa transmissão, o seguimento é estendido até o D43 (falciparum) ou D64 (vivax).
Novos Parâmetros para Recorrências: O Limite dos 60 Dias
A classificação das recorrências tornou-se mais rigorosa. A 3ª edição estabelece critérios temporais claros para diferenciar o reaparecimento de parasitos:
- Recrudescência: Ocorre até o 28º dia (falha no tratamento das formas sanguíneas).
- Recaída: Entre o 29º e o 60º dia (reativação de hipnozoítos hepáticos).
- Reinfecção: Após o 60º dia (nova infecção por picada).
Em casos de recorrência em até 60 dias, a Tafenoquina é contraindicada. O esquema deve ser substituído por ACT por 3 dias + Primaquina por 14 dias (esquema estendido anti-hipnozoítos).
Bloqueio de Transmissão: Primaquina no D1 para P. falciparum
Para o tratamento da malária por P. falciparum, a 3ª edição reforça o uso de terapias combinadas com artemisinina (ACT), mantendo as opções de ASMQ ou AL. A grande atualização técnica é a recomendação do uso de Primaquina em dose única no primeiro dia (D1). Essa conduta visa a eliminação imediata de gametócitos maduros para bloquear a transmissão vetorial, sendo segura mesmo sem o teste prévio de G6PD devido à baixa dosagem.
Manejo da Malária Grave: Artesunato como Padrão-Ouro
A malária grave permanece como uma emergência médica, exigindo internação imediata. O Artesunato injetável (IV ou IM) é a droga de escolha absoluta para todos os pacientes, inclusive gestantes e lactantes. A dosagem foi estratificada de forma mais precisa pelo peso:
- < 20 kg: 3,0 mg/kg por dose.
- >= 20 kg: 2,4 mg/kg por dose.
O tratamento parenteral deve durar pelo menos 24 horas, com transição para via oral (ACT) assim que houver tolerância.


Atualização Epidemiológica: Áreas Indígenas no Foco
Um dado epidemiológico novo e alarmante desde 2023 é que o volume de casos em áreas indígenas superou as áreas rurais, tornando-se o principal desafio demográfico para a eliminação da doença no Brasil. Além disso, a incidência de P. falciparum representa hoje cerca de 16% do total de casos. O guia também alerta para casos de P. simium na Mata Atlântica (Rio de Janeiro), que utilizam macacos como reservatório e mimetizam morfologicamente o P. vivax.

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