Atualização do Guia de tratamento da malária no Brasil

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Guia de tratamento da malária no Brasil
Imagem: Canva
Guia de tratamento da malária no Brasil

O Ministério da Saúde lançou a 3ª edição do Guia de Tratamento da Malária no Brasil (2026). Este novo documento substitui a edição de 2021, documento amplamente usado como fonte de questões em provas de residência, consolidando mudanças estruturais que vão desde o diagnóstico laboratorial até o acompanhamento pós-tratamento. 

Guia de tratamento da malária no Brasil
Fonte: Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Doenças Transmissíveis. Guia de tratamento da malária no Brasil [recurso eletrônico] / Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, Departamento de Doenças Transmissíveis. – 3. ed. – Brasília : Ministério da Saúde, 2026. 

A Nova Era do Tratamento: Tafenoquina e Testagem de G6PD

A mudança técnica mais expressiva é a incorporação da Tafenoquina como terapia de dose única para a cura radical do Plasmodium vivax. Ao contrário da Primaquina, que exige múltiplos dias de tratamento, a Tafenoquina em dose única visa resolver o problema histórico da baixa adesão terapêutica.

Entretanto, sua administração exige a testagem obrigatória da atividade da enzima G6PD para todos os pacientes com mais de 2 anos e peso superior a 10 kg. A 3ª edição inova ao estabelecer limiares de atividade enzimática (em UI/gHb) para definir o esquema terapêutico:

Atividade de G6PDConduta Terapêutica
>= 6,1 UI/gHb (Alta)Cloroquina (3 dias) + Tafenoquina (Dose Única).
4,1 a 6,0 (Intermediária)Cloroquina (3 dias) + Primaquina (7 dias).
<= 4,0 (Baixa)Cloroquina (3 dias) + Primaquina Semanal (8 semanas).

Na 2ª edição, a testagem era realizada apenas “se disponível” e não apresentava esses níveis técnicos tão detalhados de UI/gHb.

Fonte: Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Doenças Transmissíveis. Guia de tratamento da malária no Brasil [recurso eletrônico] / Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, Departamento de Doenças Transmissíveis. – 3. ed. – Brasília : Ministério da Saúde, 2026. 

Mudança no Monitoramento: LVC do D3 para o D5

Uma alteração crítica para a rotina de vigilância é o novo cronograma da Lâmina de Verificação de Cura (LVC). Enquanto a edição anterior preconizava o primeiro controle no D3, a nova diretriz desloca esse marco para o D5.

Em regiões de moderada e alta transmissão, o acompanhamento agora prioriza os dias D5 e D28 para todas as espécies. Para áreas de baixa transmissão, o seguimento é estendido até o D43 (falciparum) ou D64 (vivax).

Novos Parâmetros para Recorrências: O Limite dos 60 Dias

A classificação das recorrências tornou-se mais rigorosa. A 3ª edição estabelece critérios temporais claros para diferenciar o reaparecimento de parasitos:

  1. Recrudescência: Ocorre até o 28º dia (falha no tratamento das formas sanguíneas).
  2. Recaída: Entre o 29º e o 60º dia (reativação de hipnozoítos hepáticos).
  3. Reinfecção: Após o 60º dia (nova infecção por picada).

Em casos de recorrência em até 60 dias, a Tafenoquina é contraindicada. O esquema deve ser substituído por ACT por 3 dias + Primaquina por 14 dias (esquema estendido anti-hipnozoítos).

Bloqueio de Transmissão: Primaquina no D1 para P. falciparum

Para o tratamento da malária por P. falciparum, a 3ª edição reforça o uso de terapias combinadas com artemisinina (ACT), mantendo as opções de ASMQ ou AL. A grande atualização técnica é a recomendação do uso de Primaquina em dose única no primeiro dia (D1). Essa conduta visa a eliminação imediata de gametócitos maduros para bloquear a transmissão vetorial, sendo segura mesmo sem o teste prévio de G6PD devido à baixa dosagem.

Manejo da Malária Grave: Artesunato como Padrão-Ouro

A malária grave permanece como uma emergência médica, exigindo internação imediata. O Artesunato injetável (IV ou IM) é a droga de escolha absoluta para todos os pacientes, inclusive gestantes e lactantes. A dosagem foi estratificada de forma mais precisa pelo peso:

  • < 20 kg: 3,0 mg/kg por dose.
  • >= 20 kg: 2,4 mg/kg por dose.

O tratamento parenteral deve durar pelo menos 24 horas, com transição para via oral (ACT) assim que houver tolerância.

Fonte: Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Doenças Transmissíveis. Guia de tratamento da malária no Brasil [recurso eletrônico] / Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, Departamento de Doenças Transmissíveis. – 3. ed. – Brasília : Ministério da Saúde, 2026. 

Atualização Epidemiológica: Áreas Indígenas no Foco

Um dado epidemiológico novo e alarmante desde 2023 é que o volume de casos em áreas indígenas superou as áreas rurais, tornando-se o principal desafio demográfico para a eliminação da doença no Brasil. Além disso, a incidência de P. falciparum representa hoje cerca de 16% do total de casos. O guia também alerta para casos de P. simium na Mata Atlântica (Rio de Janeiro), que utilizam macacos como reservatório e mimetizam morfologicamente o P. vivax.

Fonte: Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Doenças Transmissíveis. Guia de tratamento da malária no Brasil [recurso eletrônico] / Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, Departamento de Doenças Transmissíveis. – 3. ed. – Brasília : Ministério da Saúde, 2026. 

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Autor

  • Hideky Dolci

    Sou estudante do 10º período de Medicina, criador de conteúdo e com fortes interesses em saúde acessível, mas com abordagem crítica e medicina baseada em evidências. Estou sempre praticando algum esporte.