Infecções do Trato Urinário na Pediatria: Dados, tratamento e mais

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A Infecção do Trato Urinário (ITU) é a presença de germes patogênicos no trato urinário gerando um processo inflamatório sintomático. É a 2ª infecção bacteriana mais comum na pediatria e exige um manejo cuidadoso para evitar cicatrizes renais.

Etiologia e Epidemiologia

As ITUs podem ser definidas pela presença de germes patogênicos no sistema urinário juntamente a um processo inflamatório sintomático. Quando utilizamos o contexto da pediatria, podemos dizer que as ITUs estão entre as infecções bacterianas mais comuns em crianças e possuem um elevado risco de recorrência no primeiro ano após o evento. As crianças acometidas podem apresentar Bacteriúria assintomática, Cistite e Pielonefrite (que pode evoluir para casos mais graves de bacteremia). 

O agente etiológico varia conforme o sexo e a idade, mas a Escherichia coli reina absoluta, causando 80-90% dos casos.

  • Fatores de Risco: Refluxo Vesico-Ureteral (RVU – presente em 20% dos casos), fimose, constipação intestinal, bexiga neurogênica e disfunção miccional.
  • Meninas: Predomínio absoluto de E. coli.
  • Meninos: Atenção especial ao Proteus mirabilis (mais comum em meninos > 6 meses e relacionado à presença do prepúcio).

Quem está em risco?

No primeiro ano de vida, a incidência é igual entre meninos e meninas. Após esse período, o predomínio é feminino. Os grupos de maior atenção para ITU oculta são:

  1. Meninos não circuncidados < 1 ano.
  2. Meninas < 24 meses com febre sem sinais localizatórios (FSSL).

Durante a infância, há picos de incidência: lactante que usa fraldas, início do desfralde na segunda infância e quando há atividade sexual na adolescência. 

Atenção: Pontualmente, devemos acompanhar meninos não circuncidados menores de 1 ano (principalmente até os 3 meses de idade) com febre sem sinais localizatórios e meninas com a mesma febre (com diferencial de serem acompanhadas até os 4 anos). 

Dados Epidemiológicos

No primeiro ano de vida, as infecções afetam igualmente meninos e meninas, porém, depois, é mais prevalente em meninas! Durante a infância, há picos de incidência: lactante que usa fraldas, início do desfralde na segunda infância e quando há atividade sexual na adolescência. 

Atenção: Pontualmente, devemos acompanhar meninos não circuncidados menores de 1 ano (principalmente até os 3 meses de idade) com febre sem sinais localizatórios e meninas com a mesma febre (com diferencial de serem acompanhadas até os 4 anos). 

Em meninas saudáveis, a E. coli é o infectante mais comum, e em meninos é o Proteus mirabilis. Outros uropatógenos menos comuns são os Proteus mirabilis, Klebsiella sp. e Staphylococcus saprophyticus. 

Quadro Clínico: O Desafio dos Lactentes

A clínica depende da faixa etária:

  • Recém-nascidos e Lactentes: Quadro inespecífico. O sinal mais comum é a Febre Sem Sinais Localizatórios (febre alta > 39ºC). Pode haver baixo ganho de peso, vômitos, icterícia e irritabilidade.
  • Pré-escolares e Escolares: Sintomas clássicos aparecem (disúria, polaciúria, dor lombar, incontinência urinária de início recente).

Classificação Topográfica:

  • Cistite: Infecção baixa.
  • Pielonefrite: Infecção alta (acomete parênquima).
    • Importante: Em menores de 2 anos, tendemos a considerar e tratar como pielonefrite devido ao risco aumentado de sepse e cicatriz renal.
Recém-Nascido e LactantesPré-escolares EscolaresAdolescentes
Febre sem sinais localizatórios (normalmente >39º C) Urina fétida Sintomas miccionaisDisúria 
Vômitos Dor abdominalEnurese secundária Polaciúria 
Diarréia Disúria Dor lombarUrgência miccional
Ictericia persistentePolaciúria Febre (quando com pielonefrite)Dor lombar e febre (quando com pielonefrite) 
Inapetência Incontinência 
Irritabilidade Urgência miccional

Diagnóstico Laboratorial

O diagnóstico exige análise bioquímica (EAS) e, obrigatoriamente, a Urocultura.

A. Urina Tipo 1 (EAS/Fita)

  • Nitrito: Alta especificidade (se positivo, confirma a hipótese). Indica presença de Gram-negativos (que convertem nitrato em nitrito).
  • Esterase Leucocitária: Alta sensibilidade (se negativo, afasta bem a hipótese). Indica piúria (inflamação).

B. Urocultura: O Padrão-Ouro

A interpretação depende do método de coleta. Em crianças sem controle esfincteriano, deve-se evitar o saco coletor para diagnóstico definitivo devido à alta taxa de contaminação.

Método de ColetaContagem de Colônias (UFC/ml) para Diagnóstico
Punção SuprapúbicaQualquer crescimento
Cateterismo Vesical50.000
Jato Médio100.000 (Protocolo SBP)

Fluxograma de Coleta (Menores de 2 anos com Febre):

  • < 3 meses: Sempre coleta invasiva (cateterismo ou punção).
  • > 3 meses: Pode-se triar com saco coletor. Se vier alterado (leucocitúria/nitrito), deve-se confirmar com coleta invasiva antes de iniciar antibiótico.
Coleta de urocultura: SEMPRE por método invasivo em menores de 3 meses. Em maiores de 3 meses, coleta invasiva se criança com comprometimento do estado geral e sem controle esfincteriano OU se urina 1 alterada por método não invasivo. Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof. 

Como tratar a Infecção Urinária?

O objetivo é erradicar a infecção aguda e prevenir cicatrizes renais.

Critérios de Internação

Menores de 2-3 meses, urosepse, imunossupressão, vômitos incoercíveis ou má adesão/falha do tratamento oral.

Escolha do Antibiótico (SBP 2023)

A escolha do antibiótico pode ser empírica (como a maioria e por E. coli, podemos avaliar o gram, considerar a oscilação do nível de resistência e verificar com a regularidade a sensibilidade bacteriana local), parental (com cefuroxima ou ceftriaxona por exemplo) e orais (como cefaclor e amoxicilina-clavulanato). O tempo de tratamento depende da técnica utilizada, mas pode durar até 14 dias. 

  • Cistite (Baixa): Nitrofurantoína, Cefalexina ou Sulfametoxazol-Trimetoprima.
  • Pielonefrite (Alta/Febril):
    • Oral: Cefuroxima, Amoxicilina+Clavulanato ou Ciprofloxacino (uso restrito).
    • Nota: A Nitrofurantoína não penetra no parênquima renal, portanto não deve ser usada em pielonefrites.
    • Parenteral: Ceftriaxona, Cefuroxima, Aminoglicosídeos (Amicacina/Gentamicina).
  • Neonatos: Ampicilina + Gentamicina (para cobrir E. coli, GBS e Enterococo).

Duração: Pielonefrite/ITU febril deve ser tratada por 10 dias segundo a SBP.

Podemos, por fim, avaliar a melhora do paciente em casos de melhora clínica em 24h para cistites e 48-96h para pielonefrites. O tratamento deve ser avaliado em 48 a 72 ,avaliando resultado do antibiograma para possibilidade de deslocamento antibiótico. 

Investigação por Imagem

Após o tratamento da fase aguda, é fundamental investigar malformações do trato urinário (CAKUT).

  1. Ultrassonografia (USG) de Rins e Vias Urinárias:
    • Indicada para TODAS as crianças < 2 anos com ITU febril.
  2. Uretrocistografia Miccional (UCM):
    • Avalia a presença de Refluxo Vesico-Ureteral e a anatomia da uretra/bexiga.
    • Indicada se o USG for alterado ou em casos de ITU recorrente.
  3. Cintilografia (DMSA):
    • Padrão-ouro para detecção de cicatriz renal. Deve ser realizada > 4 meses após a infecção aguda (fase tardia).
Fluxograma de investigação complementar após episódio de ITU em menores de 2 anos de idade. Solicitar USG de rins e vias urinárias para todas as crianças abaixo de 2 anos de idade, após primeiro episódio de pielonefrite, conforme a SBP. Se alterado, próximo passo é a uretrocistografia miccional para avaliar presença de mal formação do trato urinário. Sempre investigar disfunção vesico-intestinal, nas crianças com controle miccional presente, diante de um quadro de ITU. Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof. 

Quando indicar Profilaxia?

A profilaxia antibiótica não é para todos. O uso indiscriminado aumenta resistência bacteriana sem reduzir cicatrizes em casos leves.

Indicações Formais (SBP 2023):

  • RVU graus IV e V (alto grau).
  • Uropatias obstrutivas.
  • ITU recorrente (2 ou mais pielonefrites; ou 1 pielonefrite + 1 cistite; ou 3 ou mais cistites).
  • Crianças com USG alterado aguardando investigação completa.

Drogas Profiláticas: Nitrofurantoína, Sulfametoxazol-Trimetoprima ou Cefalexina (esta última é a escolha para < 6 semanas de vida). A dose utilizada é 1/3 a 1/2 da dose terapêutica, administrada uma vez ao dia, preferencialmente à noite.

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