
A gravidez impõe ao organismo materno um desafio fisiológico único. Por isso, dominar essas alterações não serve apenas para passar na prova, mas para distinguir, na prática clínica, o que é uma adaptação de sobrevivência de uma patologia real.
Sistema Circulatório e Hematológico
As adaptações hemodinâmicas são profundas e visam suprir a demanda de um útero em crescimento e proteger a mãe da hemorragia no parto. Essas mudanças iniciam-se na 6ª semana e se estabilizam no final do 2º trimestre.
Volemia e Constituição Sanguínea
Ocorre um aumento da volemia total em cerca de 30 a 50%. No entanto, a composição desse sangue muda drasticamente:
- Anemia Fisiológica (Hemodiluição): O volume plasmático aumenta desproporcionalmente (45 a 50%) em relação à massa eritrocitária (30%). Isso gera uma queda na concentração de hemoglobina, fenômeno esperado e não patológico.
- Série Branca (Leucocitose): A gravidez é um estado inflamatório controlado. Valores de leucócitos entre 5.000 e 14.000/mm³ são normais.
- Ponto de Atenção: Durante o trabalho de parto e puerpério imediato, devido ao estresse e atividade adrenal, os leucócitos podem atingir picos de até 29.000/mm³.
- Série Plaquetária: Ocorre uma tendência à redução (plaquetopenia dilucional + consumo no leito placentário + ação do Tromboxano A2). Contudo, níveis inferiores a 100.000/mm³ devem ser investigados.
Hemostasia: O Estado de Hipercoagulabilidade
Para evitar sangramentos excessivos no descolamento placentário pós-parto, o corpo materno prepara um “coquetel” pró-trombótico:
- Aumento do fibrinogênio e fatores pró-coagulantes.
- Redução da atividade fibrinolítica (elevação dos inibidores do ativador de plasminogênio).
Hemodinâmica Cardíaca
Lembre-se da fórmula da Pressão Arterial:
PA = Débito Cardíaco (DC) \ Resistência Vascular Periférica (RVP)

- Débito Cardíaco (DC): Aumenta até 50%. Esse aumento é fruto da elevação do Volume Sistólico (VS) e da Frequência Cardíaca (FC), que sobe cerca de 15 a 20 bpm (basal).
- Resistência Vascular Periférica (RVP): Apesar do aumento do DC, a PA não sobe (e costuma cair no segundo trimestre) porque a RVP diminui.
- Mecanismo: Ação da progesterona, aumento da prostaciclina e produção endotelial de óxido nítrico, gerando vasodilatação sistêmica.
- Exame Físico Cardiovascular:
- O coração é desviado para cima e para a esquerda.
- É comum a ausculta de um sopro sistólico fisiológico. Causa: Hipervolemia + aumento do débito cardíaco + redução da viscosidade sanguínea.

Metabolismo e Sistema Endócrino
O metabolismo da gestante é orquestrado para garantir glicose ao feto, dividindo-se em duas fases antagônicas:
- Fase Anabólica (1ª Metade): A mãe acumula reservas. Predomina a lipogênese (armazenamento de gordura) e glicogênese hepática.
- Fase Catabólica (2ª Metade): A mãe cede energia. Predomina a lipólise e a neoglicogênese.
- Mecanismo Diabetogênico: O hormônio lactogênio placentário (hPL) aumenta a resistência periférica à insulina materna, garantindo que a glicose sobre no sangue para ser transportada ao feto.
Demanda Calórica
A necessidade total estimada é de 80.000 kcal durante toda a gestação, distribuídas de forma crescente:
- 1º Trimestre: Acréscimo de 85 \ (kcal/dia)
- 2º Trimestre: Acréscimo de 285 \ (kcal/dia)
- 3º Trimestre: Acréscimo de 475 \ (kcal/dia)
Alterações Glandulares
- Hipófise: Sofre hipertrofia e hiperplasia (principalmente os lactotrofos para produção de prolactina).
- Tireoide: O hCG (fração alfa) mimetiza o TSH, estimulando a tireoide e podendo causar queda transitória do TSH materno. Há consumo periférico aumentado de iodo.
- Paratireóide e Cálcio: O feto consome cerca de 300 mg/dia de cálcio (principalmente no 3º trimestre). Para compensar a queda do cálcio sérico materno, aumenta-se o calcitriol para otimizar a absorção digestiva.
Sistema Respiratório
A gestante vive uma “fome de ar” fisiológica, mas sua eficiência respiratória é melhorada.
- Volumes Pulmonares: O diafragma se eleva, reduzindo o Volume Residual (VR) e a Capacidade Residual Funcional (CRF). No entanto, o Volume Corrente (Vc) aumenta para suprir a demanda de oxigênio da maior massa eritrocitária.
- Gasometria: A progesterona estimula o centro respiratório, levando à hiperventilação. Isso causa uma alcalose respiratória compensada (queda da PaCO2), o que facilita a passagem de CO2 do feto para a mãe.

Sistema Renal e Urinário
O sistema renal trabalha em sobrecarga fisiológica.
- Filtração: A vasodilatação e o aumento do fluxo plasmático elevam a Taxa de Filtração Glomerular (TFG).
- Bioquímica: Como a filtração aumenta, os níveis séricos de ureia e creatinina caem.
- Dica de Prova: Uma creatinina de 0,9 \ mg/dL, normal para não grávidas, pode indicar disfunção renal na gestante.
- Anatomia: Ocorre dilatação ureteral (hidronefrose fisiológica), mais comum à direita, devido à compressão uterina e relaxamento muscular pela progesterona.
Sistema Digestório
A palavra-chave aqui é Progesterona, que relaxa a musculatura lisa de todo o trato gastrointestinal.
- Estômago/Esôfago: Relaxamento do esfíncter esofágico inferior leva à pirose (refluxo) frequente.
- Intestino: Redução do peristaltismo causa constipação e, consequentemente, hemorroidas.
- Vesícula biliar: A hipomotilidade gera estase biliar, aumentando o risco de formação de cálculos (litíase biliar).
- Boca: Pode ocorrer hipertrofia e hipervascularização gengival.
Pele e Sistema Esquelético
Dermatologia
O aumento do hormônio melanotrófico (estimulado pela progesterona) causa hiperpigmentação.
- Melasma/Cloasma: Manchas na face (podem regredir no pós-parto, mas exigem proteção solar).
- Linha Nigra: Pigmentação da linha alba abdominal.

Ortopedia
A embebição gravídica torna as articulações da pelve mais elásticas (sínfise púbica e sacroilíacas) para facilitar o parto.
- Postura: O centro de gravidade muda, gerando hiperlordose lombar e hipercifose cérvico-torácica compensatória.
- Marcha Anserina: A gestante alarga a base de sustentação e diminui a amplitude dos passos (“andar de pato”) para manter o equilíbrio.
Semiologia: Sinais de Probabilidade
Para lembrar dos sinais mais importantes, confira a tabela abaixo com os clássicos de prova relacionados à anatomia local.
| Estrutura | Sinal | Descrição Clínica |
| Útero | Hegar | Amolecimento do istmo, permitindo flexão do corpo uterino sobre o colo. |
| Piskacek | Assimetria uterina com abaulamento no local da nidação. | |
| Nobile-Budin | Preenchimento dos fundos de saco laterais da vagina pelo útero globoso. | |
| Vulva/Vagina | Kluge | Coloração violácea da mucosa vaginal (congestão venosa). |
| Jacquemier-Chadwick | Coloração violácea da mucosa vulvar/vestíbulo. | |
| Osiander | Percepção do pulso da artéria vaginal nos fundos de saco. | |
| Mamas | Hunter | Aréola secundária (pigmentação esfumaçada ao redor da aréola). |
| Tubérculos de Montgomery | Hipertrofia das glândulas sebáceas na aréola (bolinhas visíveis). |

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