Raquianestesia e Peridural: Entenda o controle do NeuroEixo para as Anestesia 

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Raquianestesia e Peridural
Raquianestesia e Peridural

O bloqueio de neuroeixo é uma das competências fundamentais na prática anestésica e um tópico de alta frequência nas provas de residência de Cirurgia, Anestesiologia e Ginecologia/Obstetrícia. Compreender a anatomia, as diferenças técnicas e as implicações fisiológicas é crucial.

Conceitos de Dor e Opioides 

A anestesia regional é parte fundamental do manejo da dor.

  • Mecanismo da Dor: A dor viaja por quatro etapas: Transdução (estímulo nocivo na periferia), Condução (nervo periférico), Modulação (corno dorsal da medula) e Percepção (cérebro).

Mecanismo fisiológico da Dor. Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof. 

  • Tipos de Dor:
    • Nociceptiva: Ativação de nociceptores (Somática: fratura; Visceral: cólica).
    • Neuropática: Lesão do sistema nervoso (Central: AVC; Periférica: neuralgia pós-herpética, diabetes).
    • Nociplástica: Dor por alteração da nocicepção, sem lesão tecidual ou neural clara (Fibromialgia, Síndrome do Intestino Irritável).
  • Diagnóstico da Dor Neuropática: Suspeitar com descritores como “queimação”, “choque elétrico”, “formigamento”. Ferramentas como o questionário DN4 (score ≥ 4 sugere dor neuropática) são úteis.

 Dor nociceptiva: < 4 critérios preenchidos; Dor neuropática: ≥ 4 critérios preenchidos. Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof.

  • Escada Analgésica (OMS): O tratamento da dor é escalonado, associando analgésicos/AINES, opioides fracos, opioides fortes e drogas adjuvantes (anticonvulsivantes, antidepressivos) conforme a intensidade.
  • Riscos dos Opioides:
    • Epidemia e Risco de Abuso: Sempre avaliar o risco de transtorno de uso de opioides (verificar histórico familiar e pessoal de abuso, doença psicológica, etc.).
    • Efeitos Adversos: Constipação (mais comum), náuseas, sedação e o mais temido, depressão respiratória.
    • Atenção: Metadona: Risco elevado de morte por overdose, farmacocinética variável e risco de alargamento do intervalo QT.

Anatomia Essencial: Onde Punção é Segurança

O principal objetivo anatômico é evitar a medula espinhal.

  • Término da Medula (Cone Medular): No adulto, a medula espinhal termina, na maioria das vezes (60%), ao nível de L1. Em 30% dos casos, pode terminar em T12, e em 10%, em L3.
  • Marco de Segurança: Devido a essa variação, as punções lombares são consideradas mais seguras nos espaços L3-L4 e L4-L5.
  • Linha de Tuffier: Este é o seu marco anatômico de superfície. Trata-se da linha que conecta as cristas ilíacas postero-superiores, cruzando a coluna tipicamente ao nível do processo espinhoso de L4 ou do espaço intervertebral L4-L5.

A Punção: Raqui vs. Peridural

Embora ambas sejam anestesias regionais no neuroeixo, suas técnicas, locais e efeitos são distintos.

Raquianestesia (Anestesia Espinhal)

  • Espaço-Alvo: Espaço subaracnóideo. O anestésico é injetado diretamente no líquido cefalorraquidiano (LCR).
  • Nível de Punção: Sempre abaixo do cone medular (geralmente L3-L4 ou L4-L5).
  • Agulha: Fina (ex: 27G), classicamente com “ponta de lápis” (como a agulha de Whitacre), que divulsiona as fibras da dura-máter em vez de cortá-las, reduzindo o risco de cefaleia pós-punção.
  • Características:
    1. Latência: Curta (contato direto do anestésico com as raízes).
    2. Volume/Dose: Baixos (ex: < 4 mL).
    3. Baricidade: A densidade da solução (geralmente hiperbárica, com adição de glicose) influencia a dispersão do anestésico no LCR, que é afetada pela gravidade.
  • Estruturas Atravessadas (Via Mediana):
    1. Pele
    2. Subcutâneo
    3. Ligamento Supraespinhoso
    4. Ligamento Interespinhoso
    5. Ligamento Amarelo (perda súbita de resistência aqui indica o espaço peridural)
    6. Espaço Peridural
    7. Dura-máter
    8. Aracnoide (confirmação pela saída de líquor)

Anatomia da punção. Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof.

Anestesia Peridural (Epidural)

  • Espaço-Alvo: Espaço peridural (um espaço virtual entre o ligamento amarelo e a dura-máter).
  • Nível de Punção: Pode ser realizada em qualquer nível da coluna (torácico, lombar), permitindo um bloqueio “em faixa” (segmentar).
  • Técnica: Utiliza a “perda de resistência”. O anestesista avança a agulha com uma seringa contendo ar ou soro fisiológico; ao atravessar o denso ligamento amarelo e entrar no espaço peridural (que tem pressão negativa), há uma perda súbita da resistência ao êmbolo.
  • Agulha: Calibrosa (ex: 16-18G), como a agulha de Tuohy, permitindo a passagem de um cateter para infusão contínua ou analgesia controlada pelo paciente (PCA).
  • Características:
    • Latência: Maior (o anestésico precisa atravessar as meninges para atingir as raízes).
    • Volume/Dose: Altos.

Via Paramediana: Em idosos com ligamentos calcificados na linha média, a abordagem paramediana (lateral à linha média) atravessa a musculatura paravertebral e atinge diretamente o ligamento amarelo, sendo uma alternativa preferível.

Fisiologia do Bloqueio: Efeitos e Ordem

O bloqueio anestésico não é homogêneo; ele afeta diferentes tipos de fibras nervosas em momentos distintos.

Ordem do Bloqueio (Início)

O bloqueio segue uma ordem diferencial, das fibras mais sensíveis (finas e mielinizadas) para as menos sensíveis (grossas):

  1. Fibras B (Autonômicas Pré-ganglionares): Bloqueio simpático.
  2. Fibras A-delta e C (Dor e Temperatura): Analgesia.
  3. Fibras A-gama (Tônus muscular): Relaxamento.
  4. Fibras A-beta (Toque e Pressão).
  5. Fibras A-alfa (Motor e Propriocepção): Bloqueio motor.

A recuperação do bloqueio segue a ordem inversa (o motor retorna antes da sensibilidade e do simpático).

Tabela de classificação do tipo de fibra e suas características específicas. Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof.

Efeitos Sistêmicos (Principalmente na Raquianestesia)

A maioria dos efeitos sistêmicos deriva do bloqueio simpático (T1-L2):

  • Hipotensão: É o efeito mais comum, causado pela vasodilatação (bloqueio simpático).
  • Bradicardia: Ocorre se o bloqueio atinge os níveis T1-T5 (fibras cardioaceleradoras), levando à predominância vagal. Causa queda do débito cardíaco e frequência cardíaca.
  • Hipotermia: Devido à vasodilatação e redistribuição de calor.
  • Bexigoma (Retenção Urinária): Comum por bloqueio do plexo sacral (acima de S3), especialmente em homens > 50 anos.
  • Função Respiratória: O diafragma (C3-C5) não é afetado em bloqueios lombares. No entanto, pode ocorrer redução do Volume de Reserva Expiratório (VRE) e da Capacidade Vital Forçada (CVF) devido ao bloqueio dos músculos expiratórios (abdominais e intercostais).

Contraindicações ao Neuroeixo

  • Absolutas:
    • Recusa do paciente (a principal).
    • Infecção no local da punção.
    • Aumento da Pressão Intracraniana (PIC): Risco de herniação cerebral.
  • Relativas:
    • Coagulopatia ou anticoagulação plena.
    • Plaquetopenia (geralmente < 50.000 é considerado relativo, embora valores variem).
    • Choque ou hipovolemia grave (o bloqueio simpático agravará a hipotensão).
    • Estenose aórtica grave (pacientes com débito cardíaco fixo não toleram a queda na RVP).
    • Mielopatia ou esclerose múltipla (controversa).

Complicação Clássica: Cefaleia Pós-Punção da Dura-Máter (CPPD)

É o evento adverso mais frequente da raquianestesia (e da punção acidental na peridural).

  • Mecanismo: Fuga de LCR pelo orifício na dura-máter, causando hipotensão liquórica. Isso leva à tração de estruturas meníngeas sensíveis à dor e vasodilatação cerebral compensatória.
  • Fatores de Risco: Sexo feminino, idade (10-50 anos), gestação, desidratação, histórico de cefaleia e, o mais importante, tipo e calibre da agulha (agulhas calibrosas e cortantes aumentam o risco).
  • Quadro Clínico: A característica cardeal é a cefaleia posicional. É uma dor fronto-temporo-occipital que piora drasticamente na posição ereta (sentada ou em pé) e melhora significativamente com o decúbito. Geralmente surge 24-48h após a punção.
  • Tratamento:
    • Leve: Tratamento conservador com repouso, hidratação vigorosa, analgésicos e cafeína (causa vasoconstrição cerebral).

Grave/Incapacitante:Blood Patch. Injeta-se sangue autólogo (aprox. 20 mL) do paciente no espaço peridural, no mesmo nível ou abaixo da punção. O sangue forma um “tampão” que estanca o vazamento de LCR.

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