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IA na medicina: casos recentes de erros expõem o desafio de atender pacientes que já chegam “pré-diagnosticados”

Nas últimas semanas, uma série de episódios reacendeu o debate sobre o uso de inteligência artificial (IA) na produção e no consumo de informação — inclusive em saúde. Os casos têm um ponto em comum: mostram que essas ferramentas podem errar e até fabricar dados que parecem confiáveis.

No início de julho de 2026, um artigo sobre saúde foi publicado com embasamento em fontes inexistentes, criadas por inteligência artificial. A matéria citava supostos especialistas — como um “nutricionista clínico imaginário” e uma “gastroenterologista fictícia” — que não existem. O conteúdo foi retirado do ar e o portal publicou uma nota de esclarecimento e um pedido de desculpas reconhecendo o erro cometido. 

Para a Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj), o episódio reforça a urgência de se regulamentar o uso de IA no jornalismo.

Na mesma semana, uma reportagem da BBC Brasil expôs uma indústria global de “médicos” falsos gerados por IA, que usam o medo para viralizar entre idosos, inclusive no Brasil. Um dos vídeos, narrado por um avatar que se passava por médico e prometia “proteger a visão” com o consumo de frutas, alcançou quase 300 mil visualizações no YouTube. Entre os comentários, uma idosa de 82 anos relatou ter desistido de uma cirurgia de catarata recomendada por seu oftalmologista para seguir a orientação do suposto profissional, que não existe. Segundo a reportagem, o modelo é replicado há pelo menos um ano por criadores de vários países, que enxergam no público da terceira idade um nicho lucrativo.

Episódios como esses não ficam restritos às redações. Essa mesma informação, às vezes correta, às vezes fabricada, hoje entra no consultório antes mesmo de a consulta começar. É sobre esse novo cenário, e sobre como o médico pode se posicionar diante dele, que trata o texto a seguir.

O que muda quando a informação chega antes do paciente

Com o avanço das IAs, os pacientes chegam ao consultório com diagnósticos prontos ou cheios de informação, nem sempre correta. Afinal, estamos falando de uma população leiga diante de um conhecimento técnico, complexo e, muitas vezes, probabilístico. O grande desafio, nesse cenário, não é disputar espaço com a inteligência artificial, mas compreender qual passa a ser o papel do médico quando a informação já entrou na consulta antes mesmo de ela começar.

Isso exige uma mudança de postura. A comunicação clínica já aponta nessa direção ao reforçar que a entrevista deve considerar a perspectiva do paciente, suas expectativas e sentimentos, garantindo sua participação no cuidado.

Adaptabilidade: a principal competência

Nesse contexto, a principal competência a ser desenvolvida é, talvez, a adaptabilidade. O médico precisa ser capaz de ajustar sua comunicação ao tipo de paciente que encontra:

  • Aquele que chega assustado com uma hipótese grave sugerida pela IA;
  • Aquele que se sente empoderado e quer confirmar uma decisão;
  • Aquele que desconfia do médico porque “pesquisou antes”;
  • Ou aquele que usa a IA como forma de tentar nomear um sofrimento ainda pouco elaborado.

Adaptar-se não significa ceder a qualquer demanda, mas reconhecer o ponto de partida do paciente e construir, a partir dele, uma conversa clinicamente segura.

Para isso, é essencial começar pela escuta. Antes de responder “isso está errado”, o médico pode perguntar:

  • “O que você leu?”
  • “O que te preocupou?”
  • “O que você acha que pode estar acontecendo?”
  • “O que você espera que a gente investigue hoje?”

O risco do médico despreparado é reagir de forma defensiva: ironizar a busca do paciente, invalidar sua preocupação, usar linguagem técnica excessiva ou transformar a consulta em uma disputa entre “o que a IA disse” e “o que o médico sabe”. Isso fragiliza o vínculo e pode aumentar a desconfiança.

O médico também precisa dominar as ferramentas

Também é indispensável que o médico se aproprie das ferramentas existentes. O uso responsável da IA exige a mesma adaptabilidade: entender seus limites, reconhecer suas possibilidades e utilizá-la como suporte, nunca como substituto.

Nesse sentido, a IA é uma aliada para o médico se manter atualizado, revisar informações, organizar hipóteses e acessar evidências. Se os pacientes estão usando IA para tentar compreender seus sintomas, seus exames e seus medos, os médicos também precisam saber usar essas ferramentas para qualificar a conversa.

O ponto central é conectar esses dois fatos em favor do cuidado: o paciente chega com informações provenientes da IA; o médico, por sua vez, pode usar a IA de forma crítica para auxiliar na consulta.

IA como aliada, não protagonista

Os casos recentes deixam uma lição clara: a IA já faz parte da forma como as pessoas buscam e produzem informação, e nem sempre acerta. Essa mesma tecnologia, com suas potências e suas falhas, agora entra no consultório junto com o paciente.

A resposta não é rejeitar a ferramenta nem competir com ela, mas desenvolver adaptabilidade em duas frentes: na escuta de quem chega “pré-diagnosticado” e no uso crítico e responsável da própria IA como apoio à prática clínica. O médico que se prepara para esse cenário não perde espaço para a tecnologia, ele qualifica o cuidado justamente onde a máquina não chega: no vínculo, no julgamento clínico e na relação com o paciente.

Referências

BBC NEWS BRASIL. Fibras em excesso: especialistas alertam para efeitos colaterais de tendência das redes sociais. 2 jul. 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cz0j8lp5xmvo. Acesso em: 6 jul. 2026.

FÉLIX, Victor. Portal reconhece erro de parceiro que publicou texto com fontes criadas por IA. Portal dos Jornalistas, 2 jul. 2026. Disponível em: https://www.portaldosjornalistas.com.br/terra-reconhece-erro-de-parceiro-que-publicou-texto-com-fontes-criadas-por-ia/. Acesso em: 6 jul. 2026.

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Autor

  • Médica pela Faculdade de Ciências Médicas de Santos |CRM SP 236078
    Residente em Medicina de Família e Comunidade no Hospital Israelita Albert Einstein
    Pós graduada em Transtornos Alimentares pelo HCFMUSP
    Pós-graduanda em preceptoria médica pela UFMG

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