InícioDoenças ÓsseasNovas diretrizes brasileiras para osteoporose no diabetes mellitus

Novas diretrizes brasileiras para osteoporose no diabetes mellitus

osteoporose

Em abril de 2026, a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) publicaram as primeiras diretrizes brasileiras para manejo da osteoporose no diabetes mellitus. O documento reúne recomendações importantes sobre rastreamento, diagnóstico e tratamento, com foco especial no diabetes tipo 2 (DM2).

A seguir, resumimos os principais pontos que têm maior potencial de cobrança no TEEM.

O paradoxo da fragilidade óssea no DM2

Um dos conceitos centrais da diretriz é o chamado “paradoxo da fragilidade óssea” no diabetes tipo 2: apesar de muitos pacientes apresentarem densidade mineral óssea (DMO) preservada — ou até aumentada — o risco de fraturas continua elevado.

Isso acontece porque o problema não está apenas na quantidade de osso, mas também na sua qualidade microestrutural. Entre os mecanismos envolvidos estão:

  • acúmulo de produtos de glicação avançada (AGEs);
  • aumento da esclerostina;
  • maior porosidade cortical.

Na prática, isso faz com que ferramentas tradicionais de avaliação de risco, como o FRAX clássico, subestimem o risco de fratura nesses pacientes.

Risco de fratura no diabetes

Outro conceito importante é a chamada “curva em J” entre HbA1c e risco de fratura. Tanto a hiperglicemia quanto a hipoglicemia aumentam o risco.

  • Hiperglicemia: relacionada ao dano ósseo direto;
  • Hipoglicemia: aumenta o risco de quedas.

Além disso, complicações microvasculares também contribuem para maior fragilidade óssea e maior chance de quedas.

Diagnóstico e rastreamento: principais mudanças

As diretrizes reforçam que pacientes com DM2 e idade ≥ 50 anos devem ter o FRAX ajustado obrigatoriamente. O documento orienta que apenas uma estratégia de correção seja utilizada.

Outro ponto relevante é a adaptação do critério de T-score:

  • população geral: osteoporose com T-score ≤ −2,5;
  • no DM2: considerar tratamento já com T-score ≤ −2,0.

O TBS (Trabecular Bone Score) também ganha destaque nas recomendações. Quando disponível, ele deve ser combinado ao FRAX, já que melhora a avaliação da microarquitetura óssea.

Além disso, a diretriz reforça que:

  • fratura por baixo impacto;
  • ou fratura vertebral morfométrica em pacientes com diabetes

já configuram diagnóstico de osteoporose independentemente da DMO.

Tratamento da osteoporose no diabetes

Medidas não farmacológicas

As recomendações incluem:

  • ingestão preferencial de cálcio pela dieta (1–1,2 g/dia);
  • manutenção de níveis adequados de vitamina D;
  • prevenção de quedas como estratégia central do manejo.

A suplementação isolada de cálcio merece cautela, já que foi associada a maior risco cardiovascular em pacientes diabéticos. Já a vitamina D, isoladamente, não demonstrou redução de fraturas.

Tratamento farmacológico

A diretriz organiza o tratamento em sequência prática:

CenárioConduta
Primeira linhaBisfosfonatos (alendronato, zoledronato)
Intolerância ou progressãoDenosumabe
Muito alto riscoRomosozumabe ou teriparatida

Um detalhe importante para provas: o romosozumabe é contraindicado em pacientes com AVC ou IAM no último ano.

Outro ponto destacado é que os antirreabsortivos não apresentam impacto clinicamente relevante sobre a glicemia.

Impacto dos antidiabéticos no osso

A diretriz também resume os efeitos das principais classes de antidiabéticos sobre o metabolismo ósseo:

Classe/medicamentoImpacto ósseo
MetforminaFavorável
iDPP-4Favorável
aGLP-1Favorável/neutro
CanagliflozinaCautela
Sulfonilureias e insulinaCautela
Pioglitazona (TZD)Evitar
SemaglutidaDados ainda ausentes

A pioglitazona merece atenção especial pelo aumento importante do risco de fraturas. Segundo a diretriz, pacientes com fratura em uso de TZD devem ter a medicação substituída e iniciar terapia óssea.

Principais pontos para memorizar para o TEEM

  • DM2 aumenta risco de fratura mesmo com DMO preservada;
  • FRAX clássico subestima risco no diabetes;
  • No DM2, tratar osteoporose já com T-score ≤ −2,0;
  • Hiperglicemia e hipoglicemia aumentam risco de fratura;
  • TBS associado ao FRAX melhora avaliação;
  • Bisfosfonatos seguem como primeira linha;
  • Pioglitazona aumenta significativamente risco de fraturas.

Autor

  • Áurea Magalhães

    Graduação em medicina pela UFRR
    Residência médica em clínica médica pelo Hospital Moinhos Vento
    Residência médica em endocrinologia e metabologia pelo HCFMUSP
    Preceptora dos residentes de endocrinologia do HCFMUSP em 2021

POSTS RELACIONADOS