Sangramento na segunda metade da gestação: protocolos avançados e manejo de crise das hemorragias

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sangramento gestação
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As hemorragias que ocorrem após a 20ª semana de gestação são responsáveis por altas taxas de morbimortalidade materna e perinatal. O diagnóstico diferencial imediato é a pedra angular do sucesso terapêutico.

Descolamento Prematuro de Placenta

O Descolamento Prematuro de Placenta é definido como a separação da placenta de sua inserção uterina antes do nascimento do feto, em gestações acima de 20 semanas.

Fisiopatologia 

A hemorragia ocorre na decídua basal, formando um hematoma retroplacentário que descola a placenta e comprime o espaço interviloso, anulando as trocas gasosas.

Descolamento prematuro de placenta com hemorragia oculta. Fonte: Zugaib, 2016. 
  • Sangramento (80%): Escuro, pois é sangue retido e antigo.
  • Hemoâmnio: Presença de sangue no líquido amniótico.
  • Hipertonia Uterina: O útero não relaxa entre as contrações, mantendo-se lenhoso e doloroso. Isso pode mascarar a palpação fetal.
  • Sinais Sistêmicos: A perda sanguínea pode ser subestimada (sangramento oculto retroplacentário), havendo desproporção entre o sangramento vaginal visível e o grau de choque materno.

Algoritmo de Decisão Terapêutica

A conduta depende do binômio Estabilidade Materna e Vitalidade Fetal.

  1. Amniotomia (Bolsa Rota): Deve ser feita sempre e precocemente.
    • Objetivos: Reduzir a pressão intrauterina (diminuindo a compressão da veia cava), reduzir o extravasamento de sangue para o miométrio (evitando útero de Couvelaire) e acelerar o parto.
  2. Via de Parto:
    • Feto Vivo + Mãe Estável: Cesárea é a regra, pois o sofrimento fetal é agudo.
      • Exceção: Se o parto for iminente (expulsivo), permite-se a via vaginal sob monitorização contínua.
    • Feto Morto + Mãe Estável: A escolha é o Parto Vaginal. A cesárea adiciona morbidade cirúrgica desnecessária a uma mãe que já perdeu sangue, sem benefício fetal.
    • Mãe Instável (Choque): Independente da vida fetal, a prioridade é salvar a mãe. Realiza-se cesárea de emergência se o parto vaginal não for imediato, visando hemostasia.
Fonte: Manual Gestação de Alto Risco. Ministério da Saúde. Brasília – DF, 2022. 

Complicação: Útero de Couvelaire

O sangue infiltra-se entre as fibras miometriais, dissociando-as e impedindo a contração pós-parto (atonia uterina). O útero apresenta aspecto “tigróide” ou vinhoso à laparotomia. O tratamento inicial é conservador (massagem, uterotônicos), mas pode exigir histerectomia em casos refratários.

Visualização do útero e placenta após extração fetal, dequitação completa e histerorrafia. A) Utero em visão anterior; B) Útero em visão lateral direita; C) Útero em visão posterior; D) Placenta – lado materno apresentando áreas de coágulos, correspondendo a descolamento prematuro em cerca de 50% da área total. Fonte: https://rmmg.org/artigo/detalhes/1786 

Placenta Prévia

Definida como placenta inserida no segmento inferior do útero após 28 semanas. Antes disso, o diagnóstico é apenas “placenta de inserção baixa”, pois a migração placentária ainda pode ocorrer.

Classificação Topográfica

  • Placenta Prévia: Cobre total ou parcialmente o Orifício Interno do Colo (OIC).
  • Placenta de Inserção Baixa: A borda placentária está a menos de 2 cm do OIC, sem cobri-lo.
 Sagital T2 FSE colo. PP centrada na região do OCI (seta sólida), recobrindo-o totalmente. Cordão umbilical inserido no terço médio placentário (seta tracejada). B: Sagital T2 FSE. Placenta corporal anterior com inserção marginal do cordão umbilical, distando menos de 0,5 cm da margem placentária (seta). C: Axial T2 FSE. Vasa previa com finos vasos cruzando o OCI (seta). Fonte: https://www.scielo.br/j/rb/a/Y9hQcxn5tx5XpCk5h63wQjh/?lang=pt 

Diagnóstico e Manejo Específico

  • Quadro Clínico: Sangramento “sentinela” (pequeno volume inicial), vermelho-vivo, indolor, espontâneo e recorrente. O útero permanece com tônus normal (diferente do DPP).
  • Proibição: O toque vaginal é proscrito até que a localização da placenta seja conhecida, pois pode desencadear hemorragia cataclísmica.
  • Conduta na Prematuridade: Se o sangramento cessar e a mãe estiver estável, adota-se conduta expectante com corticoterapia para maturação pulmonar. O parto é agendado (eletivo) por volta de 36-37 semanas.
  • Via de Parto:
    • Placenta Prévia Total/Parcial: Cesárea obrigatória.
    • Inserção Baixa: Pode-se tentar parto vaginal, monitorando o sangramento.

O Espectro do Acretismo Placentário

Em pacientes com Cesárea Anterior + Placenta Prévia, o risco de acretismo (invasão do miométrio pela placenta) é altíssimo.

Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof. 
  • Diagnóstico: USG com Doppler ou Ressonância Magnética (principalmente para placenta posterior).
  • Preparo Cirúrgico: É uma cirurgia de guerra. Requer reserva de sangue, UTI, equipe experiente e consentimento para Histerectomia Puerperal (muitas vezes necessária, podendo ser feita com a placenta in situ para reduzir sangramento).
Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof.

Rotura Uterina

É a separação completa da parede uterina, comunicando a cavidade uterina com a abdominal. Geralmente ocorre durante o trabalho de parto em úteros cicatriciais (cesárea prévia ou miomectomia).

Sinais Clínicos Evolutivos

  1. Iminência de Rotura (Síndrome de Bandl-Frommel):
    • Sinal de Bandl: Anel de constrição visível infraumbilical (útero em ampulheta) separando o corpo (que contrai) do segmento (que distende).
  • Sinal de Frommel: Ligamentos redondos retesados e dolorosos à palpação (como cordas de violão).
  1. Rotura Consumada:
    • Dor lancinante seguida de alívio súbito (a “calmaria enganosa” pela parada das contrações).
    • Subida da apresentação fetal (Sinal de Reasens): O feto “foge” para a cavidade abdominal e não é mais tocado vaginalmente.
    • Sinal de Clark: Enfisema subcutâneo (crepitação) na parede abdominal (raro).
    • Sinais de Hemoperitônio: Sinal de Laffont (dor no ombro por irritação frênica) e Sinal de Cullen (equimose periumbilical – tardio).

Conduta

Laparotomia exploradora imediata. O objetivo é salvar a mãe. Pode-se tentar a histerorrafia (sutura) se a lesão for limpa e a paciente desejar fertilidade, mas frequentemente a histerectomia é necessária para controle do sangramento.

Vasa Prévia e Rotura de Seio Marginal

  • Rotura de Vasa Prévia: Ocorre quando vasos umbilicais desprotegidos (inserção velamentosa) rompem-se no momento da amniorrexe.
Ultrassom com dopplerfluxometria. Fonte: BRUNS, D. R. O que é Vasa Prévia? Disponível em: . Acesso em: 13 nov. 2023.
  • Clínica: Sangramento vaginal imediato após ruptura da bolsa + Bradicardia fetal aguda. O sangue é fetal! O feto entra em choque rapidamente.
  • Conduta: Cesárea de emergência absoluta. A mortalidade fetal é >50%.
  • Rotura de Seio Marginal: É um sangramento materno, indolor, periparto, similar à Placenta Prévia, mas com placenta topicamente inserida. O diagnóstico é de exclusão e confirmado apenas pela histopatologia pós-parto. A conduta é expectante com vigilância da vitalidade fetal.

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