Entenda o Diagnóstico Diferencial e Manejo do Escroto Agudo na Urgência

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Escroto agudo é um quando sindrômico caracterizado por dor intensa, de aparição brusca e irradiação ascendente na bolsa escrotal.
Escroto agudo é um quando sindrômico caracterizado por dor intensa, de aparição brusca e irradiação ascendente na bolsa escrotal.
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Definimos escroto agudo como o aumento súbito, ou em curto espaço de tempo, do volume escrotal acompanhado de dor. As principais etiologias são: Torção Testicular, Orquiepididimite, Torção de Apêndice Testicular e Tumor.

Anatomia Cirúrgica Relevante

Para entender a patologia, precisamos relembrar as camadas (de fora para dentro) que derivam da parede abdominal durante a descida do testículo:

  1. Pele.
  2. Dartos.
  3. Fáscia Espermática Externa (derivada do Oblíquo Externo).
  4. Músculo Cremaster (derivado do Oblíquo Interno).
  5. Fáscia Espermática Interna (derivada da Fáscia Transversalis).
  6. Túnica Vaginal (Parietal e Visceral – derivada do Peritônio).
  7. Túnica Albugínea (cápsula do testículo).
Fonte: Acervo de ilustrações do Grupo MedCof. 

Vascularização: A irrigação arterial vem da Artéria Testicular (aorta), Deferencial e Cremastérica. A drenagem venosa ocorre pelo plexo pampiniforme.

Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof. 

Torção Testicular: A Emergência Isquêmica

Ocorre o giro do cordão espermático sobre seu próprio eixo, bloqueando o fluxo sanguíneo e causando isquemia.

Epidemiologia

  • Pico de Incidência: Entre 12 e 15 anos.
  • Fator Predisponente: Bell Clapper (“Badalo de Sino”) – implantação alta da túnica vaginal, permitindo mobilidade excessiva e rotação do testículo.

Quadro Clínico

  • Dor: Início súbito, forte intensidade, frequentemente noturna.
  • Sintomas Associados: Náuseas e vômitos são comuns (reflexo vagal pela dor visceral).

Exame Físico (Sinais Clássicos)

  1. Sinal de Brunzel: Testículo acometido está mais elevado (encurtamento do cordão pela torção).
  2. Sinal de Angell: Testículo horizontalizado.
  3. Reflexo Cremastérico: ABOLIDO. Ao estimular a face interna da coxa, o testículo não sobe. A presença do reflexo sugere fortemente que não é torção.
  4. Sinal de Prehn: NEGATIVO. A elevação manual do testículo não alivia a dor (ou piora).
Fonte: Acervo de ilustrações do Grupo MedCof. 

Orquiepididimite: O Processo Infeccioso

É a causa mais comum de dor escrotal, caracterizada por inflamação.

Etiologia por Faixa Etária

  • Crianças: Geralmente viral.
  • Adulto Jovem: Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs).
  • Idosos: Infecção do trato urinário (bactérias entéricas, ex: E. coli), associado a hiperplasia prostática.

Quadro Clínico

  • Dor: Início subagudo, progressiva (leve a moderada), associada a sintomas urinários.
  • Sinais Sistêmicos: Febre é frequente.

Exame Físico

  • Sinal de Prehn: POSITIVO. A elevação do escroto alivia a dor (diminui a tensão no cordão inflamado).

O Diagnóstico Diferencial na Prática

CaracterísticaTorção TesticularOrquiepididimite
InícioSúbito (agudo)Insidioso (subagudo)
DorIntensa, NoturnaProgressiva
SintomasNáuseas/VômitosFebre/Disúria
Reflexo CremastéricoAbolidoPresente
Sinal de PrehnNegativoPositivo (alivia)
Posição TesticularElevado/HorizontalNormal/Edemaciado
Nota: O Sinal do Ponto Azul (Blue Dot Sign) indica torção de apêndice testicular (hidátide). A conduta é expectante (analgesia).
Blue dot sign: sinal de torção de apêndice testicular. Fonte:https://www.researchgate.net/figure/Blue-dot-sign-inpatients-with-a-left-torted-hydatid-or-Mor-gagni_fig1_234008295 

Exames de Imagem

O USG Doppler é o padrão-ouro, mas há uma regra de ouro:

Não pode atrasar a conduta cirúrgica. Se a suspeita clínica de torção for alta, indica-se exploração cirúrgica imediata, sem ultrassom.

  • Torção: Ausência de fluxo ao Doppler.
  • Orquite: Aumento importante do fluxo (hiperemia inflamatória).
Dois testículos avaliados, o testículo direito com fluxo e o esquerdo sem fluxo. Fonte:https://www.saem.org/about-saem/academies-interest-groups-affiliates2/cdem/for-students/online-education/m4-curriculum/groupm4-genitourinary/testicular-torsion USG Doppler. 

Tratamento

Manejo da Torção Testicular (“Tempo é Testículo”)

A cirurgia deve ser imediata (idealmente < 6 horas).

Passo a Passo Cirúrgico:

  1. Acesso: Escrototomia (ou inguinotomia se suspeita de tumor/necessidade de prótese).
  2. Manobra: Distorcer o cordão e aquecer o testículo (compressas mornas).
  3. Avaliação de Viabilidade:
    • Viável (ficou rosado): Orquidopexia (fixação no escroto).
    • Inviável (necrótico/preto): Orquiectomia.
  4. Obrigatório: Orquidopexia Contralateral (o defeito anatômico Bell Clapper costuma ser bilateral).

Fonte: Case courtesy of Assoc Prof Frank Gaillard, Radiopaedia.org, rID: 10977   

Manejo da Orquiepididimite

Tratamento clínico com antibióticos e suporte (suspensório escrotal, gelo, AINEs).

  • Sexualmente Ativos (foco em Gonococo/Clamídia):
    • Ceftriaxone 250mg IM (dose única) + Doxiciclina 100mg VO 12/12h por 10 dias.
  • Sexualmente Inativos/Idosos (foco em Enterobactérias):
    • Quinolona (ex: Ciprofloxacino ou Levofloxacino) por 10 dias.

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