
Na primeira semana de junho ocorreu a sessão plenária da American Society of Clinical Oncology (ASCO), o congresso de oncologia clínica mais influente do mundo. Durante o evento foram apresentados os resultados do ensaio clínico randomizado de fase 3 do medicamento daraxonrasib, que promete revolucionar o tratamento de câncer de pâncreas.
O medicamento já havia chamado atenção algum tempo atrás. Ainda em abril de 2026, a empresa responsável pela pesquisa, a Revolution Medicines, divulgou os primeiros resultados que mostram o aumento da sobrevida dos pacientes com câncer de pâncreas metastático sem resposta à quimioterapia.
Porém, dados iniciais ainda não são suficientes para garantir a eficácia de um novo medicamento. O que assegurou a confiança de profissionais médicos no comprimido foi a realização do ensaio clínico de fase 3 – que segue padrões rigorosos da medicina.

Quais os resultados do ensaio clínico?
O ensaio clínico envolveu 500 pacientes, dos quais mais de 90% tinham mutações de KRAS G12. Os participantes foram divididos em dois grupos: aqueles que receberam daraxonrasib (248 pessoas) e os que receberam quimioterapia (252 pessoas).
De acordo com os resultados, os pacientes que usaram o medicamento tiveram uma sobrevida de 13,2 meses, enquanto os que fizeram quimioterapia tiveram sobrevida de 6,6 meses. O termo “sobrevida” se refere ao tempo que os pacientes viveram a mais.
Além disso, o tempo até a doença voltar dobrou: 7,3 meses para o daraxonrasib e 3,5 meses para a quimioterapia. Outro fator relevante é que mais de 31% dos tratados com o comprimido apresentaram uma redução considerável no tumor, contra 11,2% dos tratados com quimioterapia.
Por fim, apenas 1,2% dos participantes que tomaram o comprimido pararam o tratamento devido aos efeitos colaterais. Em contrapartida, a taxa de participantes da quimioterapia com efeitos adversos foi de 11,2%. Entre os efeitos mais comuns estão: erupção intensa na pele, estomatite, diarreia, náusea e vômitos.
O que esses resultados significam?
O câncer de pâncreas é considerado um dos mais difíceis de tratar. Afinal, a condição é assintomática por um longo período de tempo e os diagnósticos ocorrem quando o paciente já está em estado avançado ou metastático.
Dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca) mostram que, todos os anos no Brasil, 13 mil pessoas são diagnosticadas e cerca de 12 mil morrem. A sobrevida em cinco anos do câncer de pâncreas é uma das mais baixas, apenas 3% dos casos.
A dificuldade do tratamento acontece porque mais de 90% dos tumores pancreáticos são impulsionados por uma mutação genética na proteína KRAS. Ela funciona como um interruptor, que ativa e desativa o crescimento celular e consequentemente multiplica as células cancerígenas.
A dificuldade de encontrar um medicamento que desligue o mecanismo do KRAS impacta severamente o tratamento de pacientes com câncer de pâncreas. Isso porque a superfície da proteína é lisa e não possui cavidades moleculares que permitam que remédios tradicionais se conectem a ela.
Desta forma, os médicos apoiam-se completamente em drogas tóxicas e de impacto amplo para tratar os pacientes com câncer de pâncreas. Um exemplo é a quimioterapia que provoca danos em tecidos saudáveis e gerando efeitos colaterais graves, por controlar a doença destruindo células em larga escala.
É aí que entra o daraxonrasib, um medicamento administrado por via oral que se liga à molécula ciclofilina A, responsável por ajudar as proteínas a adquirirem a estrutura tridimensional final. Assim, o complexo proteico consegue se ligar ao KRAS ativo e bloquear sinais que estimulam a produção de células cancerígenas.
Quais os próximos passos para o daraxonrasib?
Agora que os resultados saíram e alguns profissionais acreditam no potencial do medicamento, o próximo passo é conseguir a aprovação formal do órgão regulamentador americano, a Food and Drug Administration (FDA).
O órgão deve fazer a análise regulatória do comprimido usando os dados publicados pelos estudos e determinar se o seu uso pode ser liberado em território nacional. Por ser um tratamento inovador para uma doença de alta mortalidade, o novo medicamento pode ter sua análise classificada como prioritária ou acelerada.
No Brasil ainda não há nenhuma previsão de liberação do daraxonrasib. Afinal, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) teria que realizar seu próprio processo de aprovação e a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) teria que publicar diretrizes para a aplicação do tratamento no setor privado.
No âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) existem obstáculos para além da aprovação: o orçamento. Visto que drogas oncológicas novas custam em média dez mil dólares por mês no mercado americano, o acesso gratuito no Brasil enfrentaria dificuldades para se concretizar.
Até o momento, não existe nenhuma previsão da chegada do daraxonrasib em território nacional.
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