
É impossível ter opinião forte sem que ela passe por algum viés cognitivo. Basta olhar para a polarização do Brasil nos últimos anos. Mas não é de política que eu vou falar hoje, e sim de prova de residência médica. (Que, pelo visto, virou um assunto tão inflamável quanto.)
Na semana passada a USP-SP divulgou o edital da residência 2027 e a internet pegou fogo. Um post de um colega cursinheiro sobre o tema passou de 400 comentários em quatro dias, e o tom variava de “muito justo” a “instituição preconceituosa”, passando pelo clássico “ninguém mandou fazer faculdade ruim, se vira aí”. Elmo em chamas, exatamente como o gif. Sim, adoro Vila Sésamo.

Vou explicar o que o edital diz de fato, porque metade da briga é com uma versão imaginária dele.
O que mudou no edital da USP-SP com o Enamed?
Antes de tudo, é importante deixar claro: essa regra está prevista no edital da USP-SP e se refere especificamente ao processo seletivo de residência médica da instituição. Ela não significa que a nota da faculdade no Enamed seja utilizada dessa mesma forma em todos os processos seletivos de residência médica.
Na avaliação curricular da USP-SP (a segunda fase, para as vagas de acesso direto), entrou um item novo: o item 14. A pontuação do seu currículo é multiplicada por um fator que depende da nota que a SUA FACULDADE tirou no Enamed de 2025.
| ITEM | TEMAS A SEREM AVALIADOS | NOTA MÁXIMA |
| 14. | Fator de valorização das instituições na pontuação total pela nota da Instituição, onde cursou a graduação, no ENAMED de 2025. | Fator multiplicador |
| Faculdade onde cursou a GRADUAÇÃO ter sido pontuada no ENAMED 2025 | ||
| a) Faculdade com pontuação 5 no ENAMED 2025 | × 1,20 | |
| b) Faculdade com pontuação 4 no ENAMED 2025 | × 1,10 | |
| c) Faculdade com pontuação 1, 2 e 3 no ENAMED 2025 | × 1,00 |
Repara em dois detalhes que quase ninguém está comentando.
Primeiro: ninguém é multiplicado por menos de 1. Não existe “desconto” formal. O que existe é bônus para uns e nada para os outros, o que, na prática de uma prova classificatória, dá no mesmo. Se o vizinho subiu e você ficou parado, você desceu.
Como calcular a nota de residência médica da USP-SP após mudança no edital
O multiplicador incide só sobre o currículo, e o currículo tem peso 1 contra peso 9 da prova objetiva. Aí vem o argumento de quem defende o edital: “é só o currículo, o efeito é mínimo”. Vamos fazer a conta de padaria. Um candidato com 80 pontos de currículo e faculdade conceito 5 vai para 96. São 16 pontos a mais na segunda fase, que viram 1,6 ponto na nota final.
Parece pouco? Quem já prestou USP-SP sabe que não é. A aprovação ali se decide por décimos. Um ponto e meio na nota final não é “uma ou duas questões”, é pular várias posições na lista, e em especialidade concorrida é a diferença entre a vaga e a fila de espera. Dois candidatos com a mesma prova e o mesmo currículo terminam em lugares diferentes da classificação só por causa do CNPJ do diploma.
E tem a segunda camada: o precedente. A Faculdade de Medicina de Jundiaí e a Santa Casa de São Carlos já usam o conceito da faculdade de origem nos seus editais. Se a USP-SP faz, o resto do país tende a copiar. Um caso recente foi o edital da Santa Casa de São Paulo (SCMSP) que também incluiu a nota do Enamed 2025 como critério de pontuação (até 2,5 pontos).
O meu viés, para começar
Sou rato nascido e criado na USP-SP. Fiz graduação, residência de clínica médica e residência de reumatologia lá. Então a minha opinião, como qualquer outra, tem os seus vieses. Deixo isso claro antes de tudo para você ler o resto sabendo de onde eu falo.
A crise da formação médica começa antes da prova de residência
Estamos vivendo um momento de sucateamento do ensino médico brasileiro, com inúmeras faculdades com déficits importantes na formação dos seus egressos. Isso não é achismo meu. O próprio Enamed de 2025 deu conceito 1 ou 2 para 107 dos 351 cursos avaliados. Quase um terço. E o MEC respondeu com corte de vagas e suspensão de Fies para dezenas deles.
Na outra ponta, o caso do menino de seis anos em Manaus que morreu depois de receber adrenalina endovenosa (quem não ficou sabendo não mora no Brasil) virou o símbolo de um medo coletivo: quem está formando esses médicos?
A verdade é que o ensino médico virou um negócio extremamente lucrativo. Segundo a Demografia Médica 2025 da FMUSP, o Brasil tem hoje 448 escolas médicas. Há dez anos eram 252. Das vagas abertas nesse período, 91,5% foram em faculdades privadas, que hoje concentram quase 80% das vagas de graduação do país. A mensalidade média de uma faculdade particular de medicina em 2025 foi de R$ 10.214. Um curso inteiro passa de R$ 600 mil. Tem faculdade em que a mensalidade beira R$ 16 mil.
Tudo isso vendendo o sonho de uma carreira sem chance de dar errado, com remuneração garantida e vida tranquila.
Mas o sonho acabou, meus amores. E já acabou há algum tempo. A mesma Demografia mostra que a renda média do médico em 2022 foi menor do que em 2012, corrigida pela inflação, e que só um terço dos médicos têm vínculo formal de emprego.
Em 2024, faltaram mais de 16 mil vagas de residência de acesso direto para o número de formandos do ano anterior. E o país vai começar a formar mais de 42 mil médicos por ano. Basta conversar com qualquer recém-formado sobre a dificuldade de pegar plantão em lugar decente.
Então, sinceramente, a discussão de quem é o culpado, se é que existe um, é muito mais profunda e não pode ser reduzida a aplaudir um edital ou tacar pedra nele.
Quais pontos eu discordo
De maneira pessoal, e sim, estou aberto a julgamentos e falhas aqui, não acho adequado punir um aluno eternamente pelo lugar onde ele se formou. Ele não é a faculdade. Ele é um indivíduo com sonhos e aspirações próprias.
E tem um detalhe cruel nesse edital: o aluno que está se formando agora escolheu a faculdade dele há seis anos, quando o Enamed nem existia. Ele está sendo pontuado por uma regra que não existia quando ele fez a única escolha que estava na mão dele.
Ao mesmo tempo, não dá para negar a dificuldade de entrada nas universidades públicas. Quem teve base escolar e acesso a recursos passa mais fácil, isso é fato. Por isso também não concordo com o “era só ter feito uma faculdade melhor” que eu vi por aí. Para muita gente, a faculdade “melhor” nunca esteve na mesa.
E, para completar, o multiplicador nem separa público de privado como a internet acha. Tem faculdade particular com conceito 5 que vai ganhar os 20%. Tem pública sem bônus. O critério é o conceito da instituição, não a mensalidade.
Por que eu também não taco pedra
Porque o problema que o edital tenta resolver existe. A nota da prova, sozinha, não conta a história de um internato sem hospital-escola, sem enfermaria, sem preceptor. E o argumento de que “o contexto de formação não é irrelevante” tem o seu mérito. Não é maldade da USP. É uma instituição tentando se proteger de um sistema que ela não controla.
Só que ela está usando a ferramenta errada para isso. Se precisamos punir alguém, não é o aluno, e sim o sistema educacional que deixou essas faculdades continuarem funcionando. E a ferramenta para isso já existe e está sendo usada: o MEC corta vaga, suspende Fies, proíbe expansão. O multiplicador do edital não pune a faculdade em nada. A faculdade continua vendendo a mensalidade de R$ 15 mil. Quem paga o preço é o aluno que já pagou.
Pensando a longo prazo, precisamos rever seriamente a educação médica no Brasil. Mas isso é história para outra conversa.
O que eu acho que seria mais justo, a curto prazo
Obrigar todo candidato que quer prestar residência de acesso direto, independentemente do tempo de formado, a fazer o Enamed. E aí, sim, usar essa nota individual para nivelar e pontuar como esse edital propôs.
Aliás, a resolução da CNRM deste ano já abriu a porta para as instituições usarem o resultado individual do Enamed como etapa da seleção. O caminho existe. A USP escolheu o atalho.
Agora, até isso tem falha, né, meus amores, porque é uma única prova, com os vieses dela também. Um dia ruim, uma banca que gosta de certo tipo de questão, um tema que não caiu. Mas é uma prova que mede VOCÊ, e não o CNPJ que emitiu o seu diploma. Pelo menos melhor do que está agora.
Podem tacar pedra se não concordarem comigo. Não tem problema. Só não esqueçam que tacar pedra, em mim ou no edital, não resolve o nosso problema atual e crescente da educação médica neste país.
O Elmo continua no meio do fogo. A gente só está discutindo de quem é a culpa pelo incêndio.
E agora, quais são as próximas provas?
As regras dos processos seletivos mudam, os editais trazem novos critérios e cada instituição pode adotar formas diferentes de avaliação. Por isso, acompanhar as datas e os principais processos seletivos é parte importante da preparação para a residência médica.
Consulte o Calendário de Provas de Residência Médica da MedCof e acompanhe as principais datas, editais e provas do ciclo.

Perguntas frequentes
A nota da faculdade no Enamed é considerada no edital da USP-SP?
No edital da residência médica 2027 da USP-SP, a nota obtida pela instituição de graduação do candidato no Enamed 2025 é utilizada como fator multiplicador na avaliação curricular das vagas de acesso direto.
Como funciona o fator da nota da faculdade no Enamed na USP-SP?
O edital estabelece fator de 1,20 para instituições com conceito 5, 1,10 para conceito 4 e 1,00 para instituições com conceitos 1, 2 ou 3. O multiplicador incide sobre a pontuação do currículo.
A nota da faculdade no Enamed vale para todos os processos seletivos de residência?
Não é possível generalizar a regra da USP-SP para todos os processos seletivos. No artigo, é feita a ressalva de que esse critério está previsto especificamente no edital da USP-SP. Entretanto, outros processos seletivos já adotaram esse fator de multiplicação.
A nota do Enamed é a mesma coisa que a nota individual do candidato?
Não. O critério discutido no edital da USP-SP considera a nota da instituição onde o candidato cursou a graduação, e não a nota individual do candidato no Enamed.
