Uma revisão sistemática publicada em 2026 no Journal of the European Academy of Dermatology and Venereology (JEADV) apresenta novas evidências sobre o tratamento da leishmaniose cutânea.
O estudo reuniu 83 pesquisas e 4.603 pacientes para comparar a eficácia de diferentes medicamentos sistêmicos.
Entre os resultados, a anfotericina B lipossomal e a miltefosina apresentaram taxas agrupadas de cura de 77% e 75%, respectivamente. Já o antimoniato de meglumina, tradicionalmente utilizado contra a doença, alcançou 59%.
Entretanto, os pesquisadores alertam que as evidências ainda não permitem estabelecer um tratamento universalmente superior.

Quando o tratamento sistêmico da leishmaniose cutânea é indicado?
A leishmaniose cutânea é uma doença infecciosa causada por protozoários do gênero Leishmania, transmitidos pela picada de flebotomíneos infectados.
A infecção pode provocar úlceras, cicatrizes permanentes e comprometimento funcional.
Embora algumas lesões possam regredir espontaneamente ou responder a tratamentos locais, determinadas apresentações exigem terapia sistêmica.
Segundo os critérios descritos na revisão, essa indicação pode ocorrer em pacientes com quatro ou mais lesões, úlceras de pelo menos 5 cm, acometimento de áreas funcionalmente sensíveis, imunossupressão ou formas disseminadas e refratárias. Além disso, espécies associadas ao comprometimento mucoso exigem atenção especial.
Por isso, a escolha terapêutica deve considerar tanto as características clínicas quanto a espécie infectante.
Quais tratamentos apresentaram as maiores taxas de cura?
Os pesquisadores analisaram estudos publicados até fevereiro de 2026, incluindo sete medicamentos sistêmicos. A cura clínica foi avaliada entre dois e 7,5 meses após o início do tratamento.
Os resultados mostraram diferenças importantes entre as estimativas agrupadas:

A anfotericina B lipossomal apresentou a maior estimativa, seguida pela miltefosina e pelo itraconazol. Entretanto, a quantidade de estudos e a precisão das estimativas variaram entre os medicamentos.
Portanto, os percentuais não devem ser interpretados como uma comparação direta de superioridade terapêutica.
Miltefosina apresenta resultados consistentes
A miltefosina se destacou pela consistência dos resultados em diferentes regiões. O medicamento alcançou taxa agrupada de cura de 80% na leishmaniose cutânea do Velho Mundo e de 74% no Novo Mundo, que inclui as Américas.
Além disso, os pesquisadores observaram respostas favoráveis em infecções por Leishmania braziliensis, L. guyanensis e L. panamensis.
Apesar disso, sete ensaios clínicos que compararam diretamente a miltefosina ao antimoniato de meglumina não identificaram diferença estatisticamente significativa na análise principal (RR 1,17; IC 95%: 0,97–1,42).
Assim, embora a miltefosina represente uma alternativa importante, os resultados ainda não comprovam sua superioridade geral.
Anfotericina B lipossomal também demonstra potencial
Com taxa agrupada de cura de 77%, a anfotericina B lipossomal apresentou resultados promissores, especialmente contra L. braziliensis.
Entretanto, apenas cinco braços de tratamento contribuíram para essa estimativa. Além disso, a análise restrita a ensaios randomizados contou com somente um braço, cuja taxa de cura foi de 44%.
Dessa forma, os autores destacam a necessidade de novas pesquisas antes de estabelecer recomendações mais amplas.
A espécie de Leishmania influencia a resposta terapêutica?
A metanálise identificou diferenças relevantes conforme a espécie do parasita e a região geográfica.
O antimoniato de meglumina, por exemplo, apresentou taxa agrupada de cura de 43% no Velho Mundo, em comparação com 62% no Novo Mundo.
Esses achados reforçam que a resposta terapêutica não depende apenas do medicamento. Fatores relacionados à espécie infectante, ao hospedeiro e às características das lesões também podem influenciar os resultados.

Consequentemente, identificar a espécie infectante, sempre que possível, pode contribuir para uma abordagem terapêutica mais individualizada.
O que os resultados significam para a prática clínica no Brasil?
Os resultados apresentam relevância para o cenário brasileiro, onde espécies como L. braziliensis e L. guyanensis estão associadas à leishmaniose tegumentar.
O Sistema Único de Saúde (SUS) já incorporou a miltefosina para o tratamento da leishmaniose tegumentar. Entretanto, a escolha do medicamento deve seguir as recomendações nacionais e considerar características do paciente, contra indicações, toxicidade e disponibilidade terapêutica.
Além disso, a metanálise identificou limitações importantes, como diferenças metodológicas entre estudos, heterogeneidade dos resultados e escassez de comparações diretas de alta qualidade.
Portanto, os achados ampliam o conhecimento científico, mas não representam, isoladamente, uma mudança nos protocolos de tratamento.
Referência científica
Referência científica: Egg M, Wienand D, Harpain L, et al. Systemic treatment of cutaneous leishmaniasis: A systematic review and meta-analysis. JEADV, 2026.
