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Você não desiste da residência porque é fraco

Imagem: Magnific

Toda vez que um aluno me conta que pensou em desistir, ele vem com a explicação já pronta: “acho que me falta disciplina”, “acho que eu sou fraco”.

Eu quase sempre discordo.

Você não desiste porque é fraco. Quem é fraco não acorda cedo, não abre o livro, não encara simulado, não aguenta meses de uma rotina dura. Você fez tudo isso. Isso é o contrário de fraqueza.

Vou te dizer o que eu penso: quando alguém desiste, na imensa maioria das vezes não é por falta de força. É porque a motivação que sustentava aquilo nunca foi dela. Era emprestada. E motivação emprestada tem prazo de validade.

Existem dois tipos de motivação

E a diferença entre elas decide quem continua.

A motivação extrínseca vem de fora. É a pressão da sua família. É o colega que passou antes de você. É a sociedade que trata “ser médico” como teto e “ser residente” como o próximo degrau obrigatório. É a promessa de um salário melhor. Tudo isso é real — e tudo isso funciona. Para te fazer começar.

O problema é o que vem depois.

A motivação extrínseca é excelente no primeiro dia. Ela te coloca na cadeira. Mas ela some exatamente no momento em que você mais precisa dela: na semana difícil, no simulado que veio péssimo, na noite em que você olha pro edital e tudo parece não valer a pena. Quando a tempestade chega, a motivação de fora vai embora. Ela não foi feita pra molhar.

A motivação intrínseca é de outra natureza. Ela vem de dentro: do propósito, da identidade, do porquê real. O que te move não é a recompensa lá na frente — é o fato de aquilo ser seu.

Uma fila, uma tempestade e um jogo

Deixa eu te contar uma história que parece não ter nada a ver. Tem tudo.

Quando eu era adolescente, saiu o lançamento de Pokémon HeartGold e SoulSilver. Eu fui pra fila. E a fila estava enorme — daquelas de dobrar o quarteirão. Aí começou a chover. Não uma garoa: tempestade.

Ninguém me obrigou a ficar. Não tinha prêmio por resistência, não tinha família cobrando, não tinha ninguém olhando. Eu podia ter ido embora, e ninguém saberia. Eu fiquei. Horas. Encharcado. E — esse é o ponto — em nenhum momento aquilo me pareceu sacrifício.

Porque ninguém precisou me convencer. Eu queria estar ali. Era meu.

Guarda essa sensação. Ela é o termômetro de tudo o que vem agora.

O diagnóstico que ninguém quer ouvir

Agora me responde com honestidade — não pra mim, pra você:

Você se imagina parado horas debaixo de chuva por causa dos seus estudos? Não “você faria porque precisa”. Você queria estar ali?

Se a resposta veio na hora, ótimo. Segura essa resposta — ela vai te salvar muitas vezes.

Se a resposta travou, não entra em pânico. A gente só encontrou o diagnóstico. E diagnóstico não é sentença — é o começo do tratamento.

Eu vejo esse diagnóstico o tempo todo. O aluno que some nas semanas difíceis, que reclama de tudo, que de repente “está repensando” — quase nunca é preguiça, quase nunca é falta de capacidade. É quase sempre a mesma coisa: a motivação dele está do lado de fora. E o que está do lado de fora não aguenta tempestade.

Calma — isso não é julgamento

Aqui eu preciso ser justo, porque essa conversa costuma virar julgamento. E não é.

Primeiro: motivação extrínseca não é vilã. Ela te trouxe até aqui. Querer um salário digno, querer deixar a sua família orgulhosa, querer estabilidade — nada disso é errado. Você não precisa expulsar essas razões. Você só não pode depender exclusivamente delas.

Segundo, e mais importante: se você leu até aqui e sentiu um frio na barriga porque a sua motivação parece toda emprestada — você não está condenado. Motivação intrínseca não é certidão de nascimento, não é “tem ou não tem”. Ela se descobre e se constrói. Dá pra ir atrás do seu porquê real do mesmo jeito que se vai atrás de qualquer coisa difícil: com tempo e com honestidade.

E terceiro: nem quem tem um porquê forte sente fogo todo dia. Eu não sinto. Vão existir terças-feiras cinzentas mesmo com o melhor motivo do mundo. A questão nunca foi sentir paixão o tempo inteiro. A questão é ter um porquê que continue de pé quando a paixão tira o dia de folga.

A residência é sua?

Então vai a pergunta que quase ninguém te fez. Sem pressa pra responder.

A residência é sua? Ou você está nessa fila porque alguém te colocou lá?

Se ela for sua, o nome disso é raiz. No meu livro Saindo do lugar-comum, eu organizo a preparação como uma árvore — e a motivação, o seu porquê, é a parte que fica embaixo da terra. Ninguém vê. Não rende foto bonita. Mas é ela que decide se a árvore cai ou fica de pé quando o vento aperta.

Motivação extrínseca te leva até a fila. Só a intrínseca te mantém nela durante a tempestade.

Descobre o seu porquê. Depois disso, “aguentar” deixa de ser a palavra certa — porque você para de aguentar e simplesmente passa a estar onde quer estar.

Mateus Cavarzan é médico reumatologista formado pela USP-SP e autor de "Saindo do lugar-comum: Resultados fantásticos na prova de residência". A motivação — o seu porquê — é a primeira das raízes do método que ele reúne no livro.

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