InícioColuna SingularTranstornos alimentares: como diferenciar anorexia, bulimia e compulsão alimentar

Transtornos alimentares: como diferenciar anorexia, bulimia e compulsão alimentar

Mês passado, corrigindo um simulado com um aluno, a gente travou numa questão de psiquiatria. Paciente jovem, peso normal, episódios de comer escondido seguidos de vômito provocado. Ele marcou, sem pestanejar: transtorno de compulsão alimentar.

Errou. E o pior: errou com a convicção de quem tinha certeza.

Eu perguntei por que ele descartou bulimia. A resposta dizia tudo: “ah, o peso tava normal, achei que compulsão fazia mais sentido”. Pronto. Ele foi fisgado exatamente pela isca que a banca deixou ali — o “peso normal” — e esqueceu de olhar pra única coisa que decidia a questão: o que o paciente fazia depois de comer.

Deixa eu te mostrar como não cair nessa. Porque essa é, de longe, a pegadinha favorita da prova nesse tema.

Transtornos alimentares no Enamed: como a banca cobra anorexia, bulimia e compulsão alimentar

Se você acompanhou o post do panorama, já sabe: transtorno alimentar é a campeã de saúde mental no INEP. Anorexia nervosa sozinha caiu em 2022, 2023, 2024 e 2026. Quatro provas.

E quando um tema cai tanto, a banca precisa variar. O jeito preferido dela de aumentar a dificuldade não é cobrar um detalhe raríssimo — é pegar os três transtornos que todo mundo “sabe” e te obrigar a diferenciá-los sob pressão. Anorexia, bulimia e compulsão. É aí que a maioria escorrega.

A boa notícia? Você não precisa decorar três blocos gigantes de critério. Precisa de três perguntas.

Como diferenciar anorexia nervosa, bulimia nervosa e transtorno de compulsão alimentar

Esquece a decoreba por um segundo. Na frente da questão, faça estas perguntas — nesta ordem:

1. O paciente tem baixo peso?

Se tem, o nome mais provável é anorexia nervosa. Baixo peso é o ingrediente que só ela exige. E aqui mora um detalhe que a prova adora: a anorexia é egossintônica — o paciente não acha que tem doença, não quer tratar, defende o próprio comportamento. Não espere que ele peça ajuda.

2. Ele compensa?

Vomita, toma laxante ou diurético, faz jejum, se mata na academia pra “pagar” o que comeu? Se compensa — e o peso costuma estar normal —, você está diante de uma bulimia nervosa. Não importa o quanto ele coma nas crises. A marca da bulimia é o que vem depois da compulsão.

3. Tem compulsão, mas não compensa?

Come rápido, escondido, até passar mal, sente que perdeu o controle — e para por aí, sem vômito, sem laxante, sem punição? Isso é transtorno de compulsão alimentar (TCA), o mais comum dos três e o que mais vem disfarçado de “só uma ansiedadezinha pra comer”.

Quadro comparativo entre anorexia nervosa, bulimia nervosa e transtorno de compulsão alimentar (DSM-5)

O filtro acima resolve a maioria das questões. Mas quando a prova quiser descer aos detalhes — epidemiologia, exame físico, laboratório, tratamento —, você vai querer isto aqui do lado. É o mapa que eu montei pra fechar o tema de uma vez:

Critério🔴 Anorexia Nervosa🟡 Bulimia Nervosa🟢 Compulsão Alimentar (TCA)
Epidemiologia & riscoPrevalência ~0,5–1%⭐ F:M ≈ 10:1Início 13–18 anos
FR: perfeccionismo, história familiar, pressão estética, esportes estéticos (ginástica, ballet)
Prevalência ~1–3%F:M ≈ 10:1Início 16–22 anos (mais tardio)
FR: impulsividade, história de abuso, dieta restritiva prévia, AN prévia
⭐ O mais comum dos três (~2–3,5%)F:M ≈ 3:2Início 20–30 anos
FR: obesidade, depressão, histórico de dietas
Clínica típica⭐ Restrição intensa + distorção da imagem corporalBaixo peso (IMC < 17,5 no ensino clássico; o DSM-5 fala em “peso significativamente baixo”, sem corte fixo)Amenorreia (não é mais critério do DSM)Nega a doença
⚠️ Egossintônico
Compulsão → compensação: purgativa (vômito, laxante, diurético) ou não purgativa (jejum, exercício)≥ 1x/semana por 3 mesesPeso normal ou pouco alterado
⚠️ Egodistônico (vergonha e culpa)
Compulsão SEM compensaçãoCome rápido, sem fome, até o desconfortoPerda de controle≥ 1x/semana por 3 mesesSobrepeso/obesidade
Egodistônico
Exame físicoBaixo peso acentuado⭐ Lanugo (pelos finos)Bradicardia, hipotensãoPele seca, queda de cabelo
Acrocianose, atrofia muscular
⭐ Sinal de Russell (calo no dorso da mão)Hipertrofia de parótida (face “chipmunk”)Erosão dentária (perimólise)
⚠️ Peso quase sempre NORMAL
Sobrepeso/obesidadeSem sinais patognomônicosSinais metabólicos (HAS, acanthosis nigricans)
Sem Russell, sem erosão dentária
Exames⭐ ECG: bradicardia, QT longo↓K, ↓Na, ↓glicose, anemia, leucopenia↓LH/FSH/estrogênio (amenorreia hipogonadotrófica)↓T3
Osteopenia/osteoporose
⭐ Alcalose metabólica hipoclorêmica e hipocalêmica (vômito)Amilase elevada (parotidite)⚠️ Acidose se predomínio de laxante
ECG: onda U, arritmias (hipocalemia)
Sem exame específicoRastreio: glicemia, lipidograma, HbA1c
Diagnóstico é clínico (DSM-5)
Prognóstico⚠️ Uma das maiores mortalidades da psiquiatria (~5–10%) — a maior entre os transtornos alimentaresCausas: arritmia, suicídio, falência orgânica
Remissão completa ~50%
Melhor que a anorexiaRemissão ~50–70% em 5–10 anosRecaída comum
IntermediárioRemissão espontânea possível
Ligado a síndrome metabólica, DM2, doença cardiovascular
Tratamento⭐ Multidisciplinar + reganho de pesoInternar se IMC < 13, instabilidade ou recusa alimentar total⚠️ Realimentação gradual (risco de síndrome de realimentação: ↓P, Mg, K)TCC; terapia familiar (adolescente)Olanzapina p/ peso/ansiedade
Fluoxetina NÃO funciona na fase aguda
⭐ TCC (1ª linha) + fluoxetina 60 mg/dia (única aprovada pela FDA para bulimia)Estruturação alimentar
⚠️ Bupropiona contraindicada (rebaixa limiar convulsivo)
⭐ TCC (1ª linha)Fluoxetina/sertralina; lisdexanfetamina (única aprovada pela FDA para TCA)Topiramato: reduz compulsão (mas teratogênico)
Tratar comorbidades

Principais diferenças entre anorexia, bulimia e compulsão alimentar nas provas de residência médica

Se a banca vai te derrubar nesse tema, vai ser em um destes pontos. Marca a caneta:

Peso normal com purgação NÃO é compulsão — é bulimia. (Sim, a mesma pegadinha do meu aluno.) E se o paciente purga e tem baixo peso, aí sobe pra anorexia, subtipo purgativo. O peso manda no diagnóstico.

Fluoxetina 60mg é a estrela da bulimia. Repara no número: 60, não os 20 da depressão. É a única aprovada pela FDA para bulimia. E o contraponto que cai junto: bupropiona é contraindicada — rebaixa o limiar convulsivo, um prato cheio em quem já vive com distúrbio eletrolítico.

Na anorexia, remédio não é o herói. O que salva é reganho de peso + psicoterapia (terapia familiar no adolescente). Fluoxetina não tem eficácia comprovada na fase aguda da anorexia — quem marca “fluoxetina pra anorexia” caiu no laço.

Realimentou rápido demais? Síndrome de realimentação: despencam fósforo, magnésio e potássio, e o coração paga a conta. Por isso a renutrição é gradual e monitorada.

O dado que impressiona: a anorexia tem uma das maiores mortalidades de toda a psiquiatria — e a maior entre os transtornos alimentares (~5–10%). Morte por arritmia e por suicídio. Não é “frescura de adolescente” — é um dos quadros que mais matam na psiquiatria.

Resumo: como identificar transtornos alimentares em questões de prova

Volta lá no meu aluno do começo. Ele sabia a definição de compulsão de cor. Sabia a de bulimia também. O que faltou não foi conteúdo — foi o filtro pra escolher entre as duas na hora certa, com o relógio correndo e uma isca de “peso normal” piscando na tela.

É isso que a prova mede. Não quem decorou mais linha de livro, e sim quem, na frente da questão, faz as três perguntas certas na ordem certa.

Salva a tabela, cola no seu resumo, e da próxima vez que um transtorno alimentar aparecer na sua frente, você não vai adivinhar. Vai diferenciar.

Continue saindo do lugar-comum.

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Autor

  • Sou Mateus Cavarzan, médico reumatologista formado pela USP-SP — apaixonado por lúpus e mentor para a prova de residência. Você me acompanha também no Instagram (@mateuscavarzan) e no TikTok (@mateuscavarzan).

    CRM: 199884 | RQE Clínica Médica: 109195 | RQE Reumatologia: 109196

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