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Cessação do tabagismo no Enamed: 5 passos do PCDT para não errar na prova

Entenda a abordagem do tabagismo, a avaliação da dependência de nicotina, a indicação de farmacoterapia e o momento correto para iniciar o tratamento segundo o protocolo brasileiro.

tabagismo

“Professor, eu acertei o remédio e errei a questão.”

Essa foi a frase de um aluno meu, durante uma mentoria, depois de cair em uma questão de tabagismo. O caso parecia simples: homem de 52 anos, fumando 25 cigarros por dia, primeiro cigarro dez minutos depois de acordar e duas tentativas anteriores de parar. A pergunta era direta: qual a conduta?

Ele marcou “iniciar adesivo de nicotina 21 mg e orientar redução progressiva do número de cigarros até a cessação”.

A dose estava certa. Ele sabia que 25 cigarros por dia indicavam adesivo de 21 mg e que aquele paciente apresentava alta dependência de nicotina pelo teste de Fagerström. O erro estava em outro lugar: no momento de iniciar o tratamento.

A terapia de reposição de nicotina começa no dia da cessação, e o protocolo brasileiro trabalha com data marcada e parada abrupta, não com redução progressiva. Ele perdeu a questão por causa de um detalhe de timing.

E esse caso resume bem o que acontece com o tema tabagismo nas provas de residência e no Enamed. É um assunto que parece intuitivo: orientar a cessação, prescrever um adesivo, acompanhar. Justamente por isso, é fácil estudar de forma superficial.

Mas, quando a questão cobra o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Tabagismo, não basta saber qual medicamento usar. É preciso entender a sequência da decisão clínica.

É essa ordem — e as principais pegadinhas que aparecem no caminho — que vamos revisar aqui.

Como funciona a cessação do tabagismo no PCDT?

O tratamento do tabagismo no Brasil é orientado pelo Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Tabagismo, publicado por meio da Portaria Conjunta SCTIE/SAES/MS nº 10, de 16 de abril de 2020.

Um detalhe importante para a prova: não existe um “PCDT 2024” do tabagismo. A referência ao ano de 2024 encontrada em alguns materiais está relacionada à edição ou disponibilização do conteúdo, e não à publicação de um novo protocolo.

A lógica do PCDT pode ser organizada em cinco perguntas sucessivas.

1. O paciente está motivado para parar de fumar?

Antes de pensar em medicamento, é necessário avaliar o estágio motivacional do paciente.

A abordagem não começa pela prescrição. Começa pela identificação de quanto o paciente está preparado para interromper o tabagismo e pela construção de uma estratégia individualizada para a cessação.

2. Qual é o grau de dependência de nicotina?

A segunda etapa é quantificar a dependência, principalmente por meio do Teste de Fagerström para Dependência de Nicotina.

Aqui, duas informações costumam chamar atenção nas questões: o número de cigarros fumados por dia e, especialmente, quanto tempo depois de acordar o paciente fuma o primeiro cigarro.

3. Há indicação de farmacoterapia?

Nem todo fumante precisa obrigatoriamente de medicamento.

O PCDT estabelece situações em que o tratamento comportamental intensivo pode ser realizado isoladamente, especialmente quando a dependência é menor e não há sintomas importantes de abstinência.

4. Qual tratamento deve ser escolhido?

Quando existe indicação de farmacoterapia, é preciso conhecer as opções disponíveis no protocolo brasileiro, incluindo a terapia de reposição de nicotina e a bupropiona.

5. Quando o medicamento deve ser iniciado?

Essa é uma das maiores pegadinhas.

A TRN começa no dia em que o paciente para de fumar. Já a bupropiona pode ser iniciada enquanto o paciente ainda fuma, com a data de cessação programada posteriormente.

Cinco passos. Uma sequência simples.

Mas, em prova, inverter dois deles pode transformar uma prescrição aparentemente correta em uma resposta errada.

Teste de Fagerström: como avaliar a dependência de nicotina

O Teste de Fagerström é utilizado para avaliar o grau de dependência de nicotina.

São seis perguntas, com pontuação total que varia de 0 a 10.

Para o Enamed, vale especialmente memorizar os dois elementos que aparecem com frequência nas questões:

  • Tempo entre acordar e fumar o primeiro cigarro;
  • Número de cigarros fumados por dia.

Quanto mais cedo o primeiro cigarro é consumido após o despertar, maior a sugestão de dependência.

Da mesma forma, um número maior de cigarros por dia contribui para uma pontuação mais elevada.

O ponto de corte importante é Fagerström ≥ 5, que indica dependência relevante e favorece a indicação de tratamento farmacológico, desde que não haja contraindicações.

Mas existe uma pegadinha interessante: o Fagerström não deve ser interpretado isoladamente.

A indicação de farmacoterapia também considera características clínicas, presença de sintomas de abstinência, padrão de consumo, motivação e as condições específicas estabelecidas pelo protocolo.

Portanto, não transforme o teste em uma decisão automática.

Use-o como parte do raciocínio.

Quando indicar farmacoterapia para cessação do tabagismo?

Essa é uma das mudanças mais importantes na lógica do PCDT de 2020.

A farmacoterapia não é obrigatória para todo paciente que fuma.

O protocolo prioriza o tratamento comportamental intensivo isolado em pacientes que apresentam menor grau de dependência, especialmente quando estão presentes as seguintes características:

  • Ausência de sintomas de abstinência;
  • Consumo de até 5 cigarros por dia;
  • Primeiro cigarro pelo menos 1 hora após acordar;
  • Escore de Fagerström ≤ 4.

Além disso, o tratamento medicamentoso não deve ser utilizado quando houver contraindicação ou quando o próprio paciente não desejar utilizá-lo.

A ideia central é simples: o medicamento é uma ferramenta dentro do tratamento, e não o tratamento inteiro.

Esse detalhe é importante porque questões de prova podem apresentar um paciente com baixo consumo, primeiro cigarro muito tempo após acordar e ausência de abstinência e, em seguida, oferecer um medicamento como resposta.

Antes de escolher a droga, pergunte:

Esse paciente realmente tem indicação de farmacoterapia?

Essa pergunta elimina muitas alternativas.

Tratamento do tabagismo: TRN, bupropiona e medicamentos disponíveis no SUS

Quando a farmacoterapia está indicada, é hora de escolher o tratamento.

No PCDT brasileiro, a opção preferencial é a terapia de reposição de nicotina combinada, associando:

  • Adesivo transdérmico de nicotina;
  • Goma de mascar ou pastilha de nicotina.

O adesivo pode ser utilizado nas apresentações de 7 mg, 14 mg e 21 mg, enquanto goma e pastilha são disponibilizadas na dose de 2 mg.

A associação permite manter uma oferta basal de nicotina pelo adesivo e utilizar a forma de ação mais rápida para controlar sintomas de abstinência e fissura.

E a bupropiona?

A bupropiona é outra opção farmacológica prevista no tratamento.

No esquema apresentado pelo protocolo, utiliza-se bupropiona de liberação prolongada 150 mg.

A administração começa com:

  • Dias 1 a 3: 150 mg pela manhã;
  • A partir do 4º dia: 150 mg pela manhã + 150 mg aproximadamente 8 horas depois;
  • A segunda dose não deve ser tomada após as 16 horas.

Em pessoas com mais de 65 anos ou com alterações renal ou hepática, o esquema pode exigir redução para 150 mg ao dia.

O comprimido deve ser engolido inteiro.

Quais são as contraindicações da bupropiona?

Esse é um ponto que merece atenção em questões clínicas.

Entre as contraindicações e situações de cautela destacadas pelo protocolo e pelos materiais oficiais estão:

  • Epilepsia;
  • História de convulsão febril na infância;
  • Tumor do sistema nervoso central;
  • Traumatismo cranioencefálico prévio;
  • Alterações eletroencefalográficas;
  • Uso de inibidores da monoaminoxidase (IMAOs), respeitando o intervalo recomendado;
  • Anorexia ou bulimia;
  • Situações de abstinência de álcool ou benzodiazepínicos.

Em caso de dúvida, a história clínica importa tanto quanto o diagnóstico principal apresentado no enunciado.

E a vareniclina?

A vareniclina não faz parte das opções disponibilizadas pelo SUS no protocolo brasileiro citado. Por isso, uma questão que pergunte especificamente sobre o tratamento disponibilizado no SUS exige atenção ao contexto.

Não basta saber qual medicamento existe na literatura internacional. É preciso saber qual medicamento faz parte do protocolo brasileiro.

Quando iniciar a terapia de reposição de nicotina e a bupropiona?

Agora chegamos ao ponto que derrubou meu aluno.

O raciocínio fica muito mais fácil se você separar os dois medicamentos.

Terapia de reposição de nicotina

A TRN deve ser iniciada no dia em que o paciente parar de fumar.

Ou seja:

fumando → define a data de cessação → para de fumar → inicia a TRN.

A terapia de reposição de nicotina não deve ser utilizada concomitantemente ao consumo de cigarros ou outros produtos de tabaco dentro da estratégia apresentada pelo protocolo.

Por isso, se o enunciado disser que o paciente ainda está fumando e perguntar quando iniciar o adesivo, a resposta está na própria sequência do tratamento.

Não é para começar o adesivo enquanto ele continua fumando.

Bupropiona

Com a bupropiona, a lógica é diferente.

Ela pode ser iniciada enquanto o paciente ainda está fumando.

O paciente começa o medicamento e estabelece uma data para parar de fumar, geralmente no 8º dia, conforme a orientação apresentada pelo INCA.

É justamente essa diferença que costuma aparecer em questões:

TratamentoQuando iniciar?
TRNNo dia em que parar de fumar
BupropionaAntes da cessação, enquanto ainda fuma

Uma forma simples de memorizar:

TRN acompanha o dia da parada. Bupropiona vem antes.

E atenção a outro detalhe: o intervalo de 8 a 14 dias encontrado em algumas fontes está relacionado às informações de bula da bupropiona. Para a lógica cobrada no PCDT e nos materiais do INCA, o marco utilizado é o 8º dia.

Cessação do tabagismo em gestantes, adolescentes e pacientes cardiopatas

Alguns grupos exigem atenção especial porque a conduta pode mudar.

Tabagismo na gestação: qual a conduta segundo o PCDT?

Em gestantes e lactantes, a orientação do PCDT é priorizar a tentativa de cessação sem medicamentos.

A abordagem comportamental deve ser valorizada, considerando os riscos do tabagismo e a avaliação individual da paciente.

Tratamento do tabagismo em menores de 18 anos

Para menores de 18 anos, a abordagem deve ser predominantemente comportamental.

O tratamento farmacológico não é indicado de rotina nessa população dentro da abordagem apresentada pelo protocolo.

Terapia de reposição de nicotina em pacientes cardiopatas

Doença cardiovascular estável não significa contraindicação automática à terapia de reposição de nicotina.

A avaliação deve considerar o quadro clínico.

Por outro lado, recomenda-se evitar a utilização da TRN nas primeiras duas semanas após um evento cardiovascular agudo.

A pegadinha aqui é transformar “cardiopatia” em contraindicação absoluta.

Não é.

Tratamento do tabagismo em pacientes com transtornos psiquiátricos

Pacientes com transtornos psiquiátricos também devem receber tratamento para cessação do tabagismo.

A presença de um transtorno psiquiátrico não é motivo para simplesmente excluir o paciente do tratamento.

A avaliação deve ser individualizada, considerando o quadro clínico, as medicações utilizadas e as contraindicações específicas de cada opção terapêutica.

Cigarro eletrônico ajuda a parar de fumar?

Aqui é preciso separar duas coisas: evidência científica internacional e conduta dentro do contexto brasileiro.

No Brasil, os dispositivos eletrônicos para fumar permanecem proibidos pela Anvisa, conforme a regulamentação vigente.

Além disso, dentro da lógica do PCDT brasileiro, o cigarro eletrônico não é apresentado como método de cessação do tabagismo.

Portanto, em uma questão que cobre o protocolo brasileiro, não transforme automaticamente resultados de estudos internacionais em recomendação terapêutica nacional.

Essa é uma diferença importante entre conhecer a literatura e saber responder uma questão de prova.

Recaída, lapso e duração do tratamento do tabagismo

Parar de fumar não significa que o tratamento terminou.

É importante diferenciar lapso de recaída.

O lapso corresponde a um episódio isolado de consumo de cigarro depois da tentativa de cessação.

A recaída, por outro lado, representa o retorno ao padrão anterior de consumo.

Essa diferença não é apenas semântica.

Um lapso não significa que todo o tratamento fracassou. Ele deve ser abordado como uma oportunidade para identificar os fatores que levaram ao consumo e reforçar as estratégias de prevenção de recaída.

Outro ponto que aparece em questões é a duração do tratamento farmacológico.

Em geral, o tratamento medicamentoso é realizado por aproximadamente 12 semanas, associado ao acompanhamento clínico.

E existe ainda uma consequência frequentemente esquecida: o ganho de peso.

Após a cessação, o ganho médio de peso pode ficar em torno de 4 a 5 kg ao longo de 12 meses.

Isso não deve ser utilizado como argumento para adiar a cessação.

O acompanhamento é parte essencial do processo.

Como resolver uma questão de tabagismo no Enamed?

Voltemos à questão do meu aluno.

  • Homem de 52 anos.
  • 25 cigarros por dia.
  • Primeiro cigarro 10 minutos depois de acordar.
  • Duas tentativas anteriores.
  • Ele apresenta forte evidência de dependência de nicotina.

Então, vamos seguir os cinco degraus.

1. Motivação:
Ele já tentou parar anteriormente, portanto é necessário avaliar seu estágio motivacional e trabalhar a estratégia de cessação.

2. Dependência:
O consumo elevado e o primeiro cigarro poucos minutos após acordar apontam para dependência importante.

3. Farmacoterapia:
Há indicação de tratamento farmacológico, desde que não existam contraindicações.

4. Escolha do tratamento:
Uma das principais opções é a TRN combinada, com adesivo associado à goma ou pastilha de nicotina. A bupropiona também é uma alternativa.

5. Momento de iniciar:
Se a escolha for TRN, ela começa no dia em que o paciente parar de fumar.

Foi aqui que meu aluno errou.

Ele acertou o remédio.

Errou o tempo.

E é exatamente esse tipo de detalhe que transforma uma questão aparentemente simples em uma questão de protocolo.

A grande lição não é decorar que “adesivo de nicotina é 21 mg”.

É saber construir o caminho:

dependência → indicação → tratamento → data de cessação → início do medicamento.

Cinco degraus.

Nenhum deles exige que você seja brilhante. Todos exigem que você seja ordenado.

Continue saindo do lugar-comum.

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Escrita pelo Dr. Mateus Cavarzan, é o espaço onde a gente discute o que realmente impacta o seu plantão e o seu edital — sem enrolação e direto ao ponto.

Autor

  • Sou Mateus Cavarzan, médico reumatologista formado pela USP-SP — apaixonado por lúpus e mentor para a prova de residência. Você me acompanha também no Instagram (@mateuscavarzan) e no TikTok (@mateuscavarzan).

    CRM: 199884 | RQE Clínica Médica: 109195 | RQE Reumatologia: 109196

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