Diarreia Crônica: fisiopatologia, diagnóstico diferencial e investigação avançada

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A diarreia crônica é uma condição frequente na prática clínica e representa um desafio diagnóstico relevante, especialmente no contexto ambulatorial e hospitalar. Diferentemente da diarreia aguda, geralmente autolimitada, a diarreia crônica — definida como aquela com duração superior a quatro semanas — exige uma abordagem sistematizada, com avaliação detalhada dos mecanismos fisiopatológicos e amplo diagnóstico diferencial, que inclui desde distúrbios funcionais até doenças inflamatórias e neoplasias raras Diarreia Crônica.

O que é diarreia crônica?

Define-se diarreia crônica como a presença de fezes amolecidas ou líquidas por período superior a 4 semanas. A avaliação inicial deve considerar não apenas a duração, mas também volume, frequência, características das fezes e sintomas associados, elementos fundamentais para orientar a investigação etiológica.

Fisiopatologia da diarreia crônica

A compreensão da fisiopatologia é o primeiro passo para um raciocínio diagnóstico eficiente. A diarreia crônica pode ser classificada de acordo com a topografia intestinal e o mecanismo fisiopatológico predominante.

Classificação topográfica

Diarreia alta (intestino delgado)

  • Volume: elevado;
  • Frequência: menor;
  • Características: presença de restos alimentares (lienteria), ausência de tenesmo;
  • Mecanismo predominante: disabsortivo ou osmótico.

Diarreia baixa (intestino grosso)

  • Volume: pequeno;
  • Frequência: aumentada;
  • Características: tenesmo, muco e/ou sangue;
  • Mecanismo predominante: inflamatório.

Classificação fisiopatológica

  • Diarreia osmótica: cessa com o jejum; associada a solutos não absorvidos no lúmen (ex.: intolerância à lactose, uso de magnésio ou adoçantes). Gap osmolar fecal elevado (>125 mOsm/kg).
  • Diarreia secretória: persiste mesmo em jejum; grande volume fecal; associada a estímulos de secreção intestinal (ex.: síndrome carcinoide, ácidos biliares). Gap osmolar baixo (<50 mOsm/kg).
  • Diarreia disabsortiva: caracterizada por esteatorreia; causas incluem insuficiência pancreática, doença celíaca e supercrescimento bacteriano.
  • Diarreia inflamatória: presença de sangue, muco ou leucócitos nas fezes; associada a DII, colite actínica e neoplasias.
  • Diarreia por dismotilidade: relacionada a alterações do trânsito intestinal (ex.: diabetes, hipertireoidismo, pós-vagotomia).

Investigação laboratorial na diarreia crônica

Além dos exames básicos, a investigação deve ser direcionada conforme suspeita clínica.

Avaliação inflamatória

  • Calprotectina fecal:
    • < 50 µg/g: sugere síndrome do intestino irritável;
    • 150 µg/g: indica inflamação intestinal ativa.

Avaliação de má absorção

  • SUDAM: pesquisa qualitativa de gordura fecal.
  • Elastase fecal: avaliação da função pancreática exócrina.
  • Vitaminas B12 e ácido fólico: úteis na suspeita de SIBO.

Marcadores específicos

  • Gastrina e VIP: suspeita de gastrinoma ou VIPoma;
  • Triptase sérica: mastocitose sistêmica;
  • 5-HIAA urinário (24h): síndrome carcinoide.

Doença celíaca: aspectos diagnósticos relevantes

A biópsia duodenal é o padrão-ouro, porém a sorologia orienta a indicação do procedimento.

  • Sorologia inicial: Anti-transglutaminase tecidual (Anti-TTG IgA) + IgA total;
  • Deficiência de IgA: solicitar Anti-TTG IgG ou anti-gliadina deaminada IgG;
  • HLA DQ2/DQ8: alto valor preditivo negativo; útil em casos duvidosos ou pacientes já em dieta sem glúten;
  • Achados histológicos: atrofia vilositária, hiperplasia de criptas e linfocitose intraepitelial.

A persistência de sintomas após 12 meses de dieta rigorosa caracteriza doença celíaca refratária, sendo obrigatória a exclusão de linfoma intestinal.

Endoscopia de intestino normal. Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof.  
Endoscopia de intestino na doença celíaca. Fonte: Acervo de Aulas do Grupo MedCof. 

Intolerância à lactose

É fundamental diferenciar deficiência de lactase de alergia à proteína do leite.

Principais métodos diagnósticos:

  • Teste genético (MCM6): genótipo C/C indica hipolactasia primária;
  • Teste respiratório com hidrogênio: aumento do H₂ após ingestão de lactose;
  • Teste de tolerância oral à lactose: ausência de elevação glicêmica significativa.

Supercrescimento bacteriano do intestino delgado (SIBO)

Caracteriza-se pela migração de bactérias do cólon para o intestino delgado.

  • Perfil laboratorial típico:
    • Vitamina B12 reduzida
    • Ácido fólico elevado
  • Diagnóstico: teste respiratório com lactulose ou glicose
    • Positivo se aumento de H₂ > 20 ppm em até 90 minutos
  • Tratamento: rifaximina ou antibióticos sistêmicos (ciprofloxacino, metronidazol)
Fluxograma do desenvolvimento e diagnóstico do SIBO. Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof. 

Doença de Whipple

Infecção sistêmica rara causada por Tropheryma whipplei.

  • Tríade clássica: diarreia crônica, perda ponderal e artralgia migratória;
  • Achados neurológicos: miorritmia oculomastigatória (patognomônica);
  • Diagnóstico: biópsia duodenal com macrófagos PAS positivos;
  • Tratamento: antibióticoterapia bifásica (indução IV seguida de manutenção oral prolongada).
Fonte: https://www.researchgate.net/figure/llustrative-image-of-PAS-positive-Tropheryma-whipplei-bacteria-in-human-macrophages_fig4_338013390 

Colite microscópica

Caracteriza-se por diarreia aquosa crônica, principalmente em mulheres idosas, com colonoscopia macroscopicamente normal.

  • Associação medicamentosa: AINEs, IBPs, sertralina.
  • Subtipos histológicos:
    • Colite linfocítica
    • Colite colagenosa
  • Tratamento: suspensão da droga causal, loperamida ou budesonida.

Síndrome do Intestino Irritável

Diagnóstico de exclusão, baseado nos critérios de Roma IV.

Fluxograma de interpretação dos critérios de Roma IV. Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof. 
  • Subtipos (Escala de Bristol):
    • SII-C, SII-D e SII-M.
  • Tratamento:
    • Antiespasmódicos;
    • Loperamida ou laxantes;
    • Antidepressivos como moduladores da dor visceral.
Subtipos conforme escala de Bristol. Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof. 

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