
O diabetes mellitus tipo 1 (DM1) é a doença autoimune crônica mais prevalente na infância. Em julho de 2026, o Departamento Científico de Endocrinologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) publicou um documento científico dedicado à detecção precoce do DM1 na população pediátrica, com recomendações práticas de triagem. Reunimos aqui os pontos que todo pediatra e endocrinologista pediátrico precisam dominar.
Por que rastrear o DM1 antes dos sintomas?
O grande argumento a favor do rastreamento é a possibilidade de identificar a doença ainda na fase pré-clínica, antes que a criança abra o quadro com cetoacidose diabética (CAD).
Alguns números que ajudam a dimensionar o problema:
- Mais de 1 milhão de crianças (0 a 14 anos) vivem com DM1 no mundo, com cerca de 98.200 novos casos por ano nessa faixa.
- Entre 2000 e 2022, a incidência global em menores de 20 anos foi de 14,07 por 100.000 pessoas-ano, com destaque para países de alta renda como Finlândia (56,8/100.000) e Estados Unidos (28,8/100.000).
- O Brasil ocupa o 4º lugar mundial, com estimativa de 517.290 pessoas vivendo com DM1 em 2025, sendo 100.889 crianças e adolescentes com menos de 20 anos.
- Nos últimos 30 anos, a incidência de DM1 aumentou em média 3,1% ao ano em crianças de até 14 anos no país.
Cerca de 90% dos casos diagnosticados não têm histórico familiar de DM1 — o que reforça a importância da triagem em nível populacional, e não apenas em grupos de risco conhecido.
O rastreamento reduz a incidência de CAD (que atinge de 25% a 70% dos casos não rastreados) e abre acesso a terapias modificadoras da doença, como o teplizumabe, capaz de retardar a progressão para o DM1 clínico.

Etiologia: a soma de genética e ambiente
O DM1 resulta da interação entre suscetibilidade genética e fatores ambientais que desencadeiam a destruição autoimune das células beta pancreáticas.
- Genética: papel central das variantes do antígeno leucocitário humano (HLA) e de genes imunológicos como CTLA4 e IL2RA.
- Ambiente: infecções virais (caxumba, enterovírus, rotavírus), desmame precoce, deficiência de vitamina D, exposição a toxinas ou certos medicamentos e estresse físico.
Os estágios do Diabetes Mellitus 1
A classificação em estágios é essencial para definir conduta:
| Estágio | Glicemia | Autoanticorpos | Quadro clínico |
|---|---|---|---|
| Pré-estágio 1 | Normoglicemia | Risco genético / 1 autoanticorpo (ou 1 temporário) | Assintomático |
| Estágio 1 | Normoglicemia | ≥ 2 autoanticorpos | Assintomático |
| Estágio 2 | Disglicemia | ≥ 2 autoanticorpos | Assintomático / pré-sintomático |
| Estágio 3 | Hiperglicemia recente | 1 ou 2 autoanticorpos | Sintomático — diagnóstico clínico |
| Estágio 4 | Hiperglicemia de longa duração | 1 ou 2 autoanticorpos | DM1 de longa duração — requer insulina |
Critérios glicêmicos-chave (Estágio 3/4): GJ ≥ 126 mg/dL, pós-2h no TTOG ≥ 200 mg/dL, glicemia ao acaso ≥ 200 mg/dL com sintomas e HbA1c > 6,5%. No Estágio 2, a disglicemia aparece com glicemia de jejum entre 100–125 mg/dL, HbA1c entre 5,7% e < 6,5% (ou aumento ≥ 10% em 3–12 meses) e tempo acima de 140 mg/dL ≥ 10% no CGM.
Quais autoanticorpos pesquisar?
A triagem pré-sintomática busca autoanticorpos contra células beta pancreáticas. Os quatro principais são:
- Anti-GAD (anti-descarboxilase do ácido glutâmico)
- Anti-IA2 (anti-tirosina fosfatase)
- IAA (anti-insulina)
- Anti-ZnT8 (anti-zinco transportador)
A presença de dois ou mais autoanticorpos, confirmada por uma segunda amostra, indica alto risco de progressão para o DM1 clínico (estágio 3). Crianças com IAcs positivos têm risco estimado de 70% de progredir aos 10 anos e 84% aos 15 anos, independentemente do histórico familiar.
Em que idade fazer a triagem?
Os autoanticorpos costumam surgir antes dos 6 anos, mesmo em quem desenvolve diabetes clínico mais tarde. As diretrizes sugerem repetir a triagem em janelas etárias estratégicas:
- Entre 2 e 6 anos (maior positividade entre 2 e 5 anos)
- Entre 10 e 12 anos
- Entre 15 e 18 anos
A recomendação-resumo da SBP (Tabela 2) é iniciar entre 2 e 4 anos, repetir dos 6 aos 8 anos e novamente aos 10 a 15 anos, se os resultados anteriores forem negativos.
Como fazer a triagem no Brasil?
Como muitos centros têm acesso restrito ao anti-ZnT8, a diretriz da SBD oferece duas opções:
- Medição inicial dos 4 autoanticorpos; ou
- Iniciar com 3 anticorpos (anti-GAD, anti-IA2 e IAA) e solicitar o anti-ZnT8 apenas quando houver 1 IAc positivo.
A SBP recomenda priorizar grupos de maior risco, sobretudo parentes de primeiro grau de pessoas com DM1 (estágios 3 ou 4), com foco em crianças e adolescentes entre 2 e 15 anos e na presença de histórico pessoal ou familiar de doenças autoimunes.
Importante para o contexto brasileiro: a infraestrutura ainda não permite rastreamento universal rotineiro. Entre as barreiras estão o alto custo dos testes, a capacidade laboratorial padronizada limitada e o fato de a terapia imunomoduladora aprovada pela ANVISA ainda não estar disponível pelo SUS.
Conduta por estágio
- Estágio 1: triagem regular para monitorar a progressão.
- Estágio 2: encaminhar ao endocrinologista; considerar terapia aprovada que possa atrasar o desenvolvimento do diabetes clínico.
- Estágio 3: iniciar insulinoterapia, educação e manejo usuais do DM1. (3A: assintomático, pode não precisar de insulina imediatamente; 3B: sintomático, iniciar insulina de imediato.)
Toda criança com diagnóstico pré-clínico e sua família devem receber educação estruturada sobre diabetes e apoio psicossocial, incluindo reconhecimento de sintomas, prevenção da CAD e orientação sobre quando buscar emergência.
Novidade terapêutica: teplizumabe
O documento destaca a recente aprovação do teplizumabe pela ANVISA para o DM1 em estágio 2, além de protocolos de pesquisa em andamento com diversos imunomoduladores. É uma terapia modificadora da doença que retarda a progressão para o estágio clínico em indivíduos com múltiplos autoanticorpos e hiperglicemia.

Resumo das recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria
| RECOMENDAÇÕES | |
| Populações prioritárias para triagem DM1 em pediatria | O rastreamento deve ser considerado em crianças e adolescentes parentes de primeiro grau de indivíduos com DM1. |
| Método de triagem | A triagem para DM1 pré-sintomático deve ser realizada medindo os quatro principais autoanticorpos pancreáticos, incluindo IAA, GAD, IA-2 e ZnT8. Em caso de limitações para o ZnT8, ele pode ser reservado para aqueles com positividade para apenas 1 autoanticorpo. |
| Confirmação do teste positivo | Qualquer resultado positivo para autoanticorpos deve ser confirmado com uma segunda amostra de sangue independente para evitar classificação incorreta da positividade transitória como DM1 pré-sintomático.A repetição dos testes é recomendada em aproximadamente três meses, preferencialmente em um laboratório que atenda aos padrões de desempenho do Programa de padronização de autoanticorpos contra células beta pancreáticas. |
| Quando fazer a triagem para DM1 | A recomendação é começar a triagem entre dois e quatro anos, com testes repetidos dos seis aos oito anos e novamente aos 10 a 15 anos se os resultados anteriores forem negativos. |
| Acompanhamento para crianças após a triagem | Recomenda-se que crianças com diagnóstico pré-clínico de DM1 façam acompanhamento com um especialista.Para crianças menores de três anos com dois ou mais anticorpos positivos, repetir avaliação glicêmica básica a cada três meses durante três anos, depois anualmente por mais três anos, interrompendo se não houver progressão.Para crianças com três anos ou mais até os nove anos, a cada seis meses; e acima de nove anos até os 18 anos, anualmente, para ver a mudança de estágio 1 para estágio 2. Não há necessidade de repetição periódica de IAcs. |
| Acompanhamento para crianças com dois ou mais IAcs | Para definir o estadiamento de DM1, avaliar parâmetros glicêmicos.Encaminhar a um centro especializado para avaliação adicional e/ou consideração de um estudo clínico ou terapia aprovada, que possivelmente atrase o desenvolvimento do DM1 clínico. |
| Educação e apoio psicossocial | Crianças com DM1 pré-sintomático e suas famílias devem receber educação estruturada sobre diabetes e apoio psicossocial. Os componentes educacionais incluem reconhecimento de sintomas, prevenção de cetoacidose diabética, compreensão do estadiamento do DM1 e orientações sobre quando buscar atendimento de emergência.O apoio psicológico deve abordar ansiedade, percepção de risco, estratégias de enfrentamento e estresse familiar, e idealmente deve ser oferecido por profissionais treinados em manejo do diabetes. |
No Brasil, a maioria das crianças ainda é diagnosticada durante um episódio de cetoacidose diabética — condição grave e associada a complicações. O avanço no conhecimento da história natural do DM1 permite hoje identificar o risco de progressão e agir antes disso, com ganhos concretos para as famílias. Como reforça a SBP, o pediatra costuma ser o primeiro médico a ter contato com essas famílias — o que torna o domínio dessas recomendações ainda mais estratégico.
Fonte: Sociedade Brasileira de Pediatria — Departamento Científico de Endocrinologia. Documento Científico nº 55, 23 de julho de 2026: “A importância da detecção precoce do diabetes mellitus tipo 1 na população pediátrica: recomendações e triagem”.
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