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Anvisa recomenda vacina contra HPV para crianças vítimas de violência sexual

A medida amplia a proteção contra novas infecções pelo vírus, exigindo revacinação na idade-alvo para quem for vacinado antes dos 9 anos

O Ministério da Saúde, junta a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), publicou a Nota Técnica Nº96/2026, que recomenda a ampliação da vacinação contra Papilomavírus Humano (HPV) à crianças vítimas de violência sexual, a partir dos 2 anos de idade, no âmbito do Programa Nacional de Imunizações/PNI.

A atualização segue a revisão do Guia de Vacinas da Associação Pan-Americana de Infectologia (API), que recomenda a vacina contra HPV para vítimas de violência sexual entre 9 a 45 anos de idade, independente do sexo.

Vale frisar que a vacinação não é capaz de eliminar uma eventual infecção pelo HPV adquirida pelo abuso, seu papel é apenas proteger contra tipos de vírus que a criança ainda não foi exposta e reduzir o risco de infecções futuras.

Na nota, o Ministério da Saúde explica que estudos clínicos realizados com crianças entre 4 a 6 anos de idade, na América Latina, mostraram perfil favorável de segurança, imunogenicidade e persistência da resposta imune à vacinação contra o vírus do HPV — com acompanhamento de até 36 meses após a aplicação.

Como fica o esquema vacinal das vítimas?

Crianças que passam por situação de abuso sexual, a partir de 2 anos de idade, seguem o seguinte esquema vacinal:

  • A dose aplicada em crianças vítimas de abuso sexual com menos de 9 anos deve ser desconsiderada do esquema básico de vacinação, sendo assim, elas devem ser revacinadas quando chegarem a idade-alvo (9 a 14 anos);
  • Para vítimas com mais de 9 anos e que já tenham tomado a vacina anteriormente não há indicação de revacinação.

Os profissionais de saúde responsáveis pelo serviço de referência devem fazer avaliação do caso, registro da condição clínica, obter consentimento do responsável legal (quando aplicável), dar seguimento clínico e prosseguir com a notificação obrigatória de eventos adversos. Por fim, é preciso definir previamente a necessidade de dose adicional após 9 anos de idade.

O que motivou a nova recomendação?

De acordo com a nota técnica, estima-se que ocorram anualmente cerca de 604 mil novos casos de câncer do colo do útero e aproximadamente 280 mil óbitos relacionados à doença em todo o mundo, sendo a infecção persistente pelo HPV o principal fator etiológico associado.

Além disso, dados do Atlas de Violência de 2026 elaborado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) apontam achados preocupantes relacionados ao número de casos de violência sexual contra crianças e adolescentes:

  • Entre crianças de 0 a 4 anos, os registros passaram de 1.671, em 2014, para 7.845, em 2024;
  • Na faixa de 5 a 14 anos, o aumento foi de 6.594 para 29.135 notificações;
  • Entre adolescentes de 15 a 19 anos, os casos cresceram de 1.632 para 6.869.

O cenário alarmante do crescimento de casos de violência sexual contra crianças e do diagnóstico de câncer do colo de útero motivou a atualização das diretrizes de vacinação do HPV.

É importante ressaltar que o HPV não corresponde a um único vírus, mas sim diferentes tipos de papilomavírus que causam diversos cânceres e verrugas anogenitais. Atualmente a vacina disponível no SUS protege contra os tipos 6, 11, 16 e 18.

Confira a Nota Técnica Nº 96/2026-CGICI/DPNI/SVSA/MS:

Atualizações anteriores: vacina Gardasil

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou uma importante atualização na indicação terapêutica da vacina Gardasil 9, ampliando seu uso para prevenir cânceres de orofaringe, cabeça e pescoço associados ao papilomavírus humano (HPV).

O Ministério da Saúde (MS) também lançou uma nota técnica que propõe a inclusão de mulheres diagnosticadas com Neoplasia Intraepitelial Cervical de alto grau (NIC 2+ e Adenocarcinoma in situ – AIS), submetidas a procedimento excisional do colo do útero (LEEP/conização) como grupo prioritário para a vacinação.

O que muda com a nova indicação

Até agora, as autoridades de saúde já recomendavam amplamente a vacina contra o HPV para impedir o desenvolvimento de tumores como

  • Câncer do colo do útero;
  • Câncer de vulva, vagina e ânus;
  • Lesões pré-cancerosas;
  • Verrugas genitais causadas pelo vírus HPV.

Com a atualização aprovada pela Anvisa, a Gardasil 9 passa oficialmente a ter indicação também para a prevenção de cânceres que atingem a orofaringe — incluindo regiões como base da língua e amígdalas — além de outros tumores de cabeça e pescoço relacionados ao HPV.

Quem pode se vacinar

A nova indicação vale para pessoas de 9 a 45 anos, incluindo crianças, adolescentes, homens e mulheres. As autoridades de saúde orientam a vacinação antes do início da vida sexual, pois o objetivo do imunizante é prevenir a infecção persistente pelos tipos de HPV mais associados ao desenvolvimento de câncer — e não tratar infecções já existentes.

No caso de mulheres com Neoplasia Intraepitelial Cervical de alto grau (NIC 2+ e Adenocarcinoma in situ – AIS), a nova indicação vale para o ano em que elas realizaram o procedimento. O serviço de saúde pode aplicar a vacina no período perioperatório ou em até 12 meses após o tratamento. O esquema vacinal é de três doses, com periodicidade de 0, 2 e 6 meses, independente da idade.

Contexto geral e qual a importância

O HPV é um vírus comum e transmitido principalmente por contato sexual. Entre os mais de 150 tipos do vírus, alguns são classificados como de alto risco por seu potencial de causar câncer. Estudos mostram que a infecção persistente por esses tipos de HPV é um fator crucial no desenvolvimento de diversos tumores malignos ao longo dos anos.

Ao ampliar a indicação da vacina para incluir cânceres de orofaringe, cabeça e pescoço, a Anvisa reconhece o papel crescente do HPV no surgimento desses tumores e fortalece a prevenção primária, que é a forma mais eficaz de reduzir a incidência dessas doenças ao longo prazo.

Disponibilidade no Brasil

Atualmente, a vacina Gardasil 9 com essa indicação mais ampla está disponível no setor privado de saúde. Ainda não há uma data definida para a incorporação dessa versão da vacina ao Sistema Único de Saúde (SUS).

A vacina disponibilizada pelo SUS atualmente tem uma abrangência reduzida em comparação com a Gardasil 9. A longo prazo a incorporação da vacina nonavalente pelo Departamento do Programa Nacional de Imunizações (DPNI) beneficiaria os grupos de risco dessa doença.

Leia também: Entenda a nova Política Nacional de Enfrentamento da Infecção por HPV

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Autor

  • Nana Nóbrega é jornalista formada pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (UNESP) e estudante de letras português e linguística da Universidade de São Paulo (USP). Possui experiência em saúde, educação médica e acessibilidade. Na MedCof, atua na produção de conteúdos sobre residência médica, concursos médicos, atualizações e notícias da área da saúde.

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