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Novo consenso sobre o tratamento de H. pylori

O V Consenso Brasileiro sobre Helicobacter pylori determina novos tratamentos para pacientes com resistência a antibióticos.

Novo consenso de tratamento de H. pylori
Fonte: Science Photo Library

As diretrizes do novo consenso sobre Helicobacter pylori, previamente apresentada na XXIV Semana Brasileira do Aparelho Digestivo (SBAD), foi oficialmente publicada em junho de 2026, na revista Arquivos de Gastroenterologia. Oito anos após a última edição (2018), o documento atualiza orientações essenciais para o manejo da infecção no Brasil, trazendo recomendações baseadas nas melhores evidências científicas e alinhadas aos desafios contemporâneos.

O grande destaque desta edição é a resposta ao aumento progressivo da resistência bacteriana aos antimicrobianos tradicionais. Como resultado, novos esquemas terapêuticos e agentes antissecretores mais potentes ganham protagonismo.

Abaixo, detalhamos as principais atualizações e mudanças para a prática clínica.

Por que o consenso foi atualizado?

A principal motivação do Núcleo Brasileiro para Estudo do H. pylori e Microbiota para esta atualização é o avanço contínuo e preocupante da resistência bacteriana, especialmente à claritromicina e ao levofloxacino.

Para contornar esse desafio, o V Consenso Brasileiro propõe ajustes definitivos no tratamento baseados em três frentes principais:

  1. Adição de bismuto: Amplia a eficácia contra cepas resistentes à claritromicina, levofloxacino e metronidazol.
  2. Maior inibição ácida: Com uso preferencial de bloqueadores competitivos de potássio (P-CABs), como a vonoprazana, ou aumento de dose e frequência dos Inibidores de Bomba de Prótons (IBPs).
  3. Padronização do tempo de tratamento: O uso de esquemas de 14 dias passa a ser a regra (abandonando os antigos esquemas de 7 a 10 dias), com exceção da terapia quádrupla em cápsula única (10 dias).

Novas Indicações de Tratamento

O novo consenso expandiu as indicações formais para a erradicação do H. pylori, oficializando condutas que já vinham sendo adotadas na prática baseadas em diretrizes internacionais recentes.

Tabela 1. Indicações para o Tratamento do H. pylori

StatusCondição Clínica
NovaDoença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE) com recomendação de uso periódico de IBPs ou P-CABs.
NovaCandidatos à cirurgia bariátrica.
NovaFamiliares de primeiro grau (pais, irmãos e filhos) de pacientes com câncer gástrico.
NovaDesejo expresso do paciente.
MantidaGastrite crônica.
MantidaDoença ulcerosa péptica (gástrica ou duodenal).
MantidaDispepsia funcional / Dispepsia associada ao H. pylori.
MantidaDispepsia não investigada em pacientes com 45 anos ou menos, sem sinais de alarme.
MantidaCondições ou lesões pré-neoplásicas associadas (atrofia, metaplasia intestinal e displasia).
MantidaLinfoma MALT gástrico.
MantidaPós-ressecção endoscópica ou cirúrgica de câncer gástrico inicial.
MantidaPlanejamento de uso prolongado de AINEs, incluindo aspirina.
MantidaAnemia ferropriva inexplicada ou púrpura trombocitopênica imune (PTI).
RetiradaA deficiência de vitamina B12 não consta mais nas indicações brasileiras.

Diretrizes de Tratamento (Linhas Terapêuticas)

1ª Linha de Tratamento

O Núcleo Brasileiro determina as seguintes opções para o tratamento empírico inicial:

  • Esquema quádruplo (Preferencial): Bismuto, metronidazol e tetraciclina, associados a IBP ou P-CAB (quando disponível) por 10 a 14 dias.
  • Terapia tríplice otimizada: Claritromicina e amoxicilina por 14 dias, associada ao bismuto e/ou substituição do IBP pelo P-CAB (duas vezes ao dia).
  • Terapia dupla em altas doses (Na indisponibilidade de bismuto): Amoxicilina 3 a 4 g/dia (em 3 ou 4 tomadas), associada ao IBP (em dose alta, 3 a 4 vezes ao dia) ou, preferencialmente, ao P-CAB (Vonoprazana 20 mg, duas vezes ao dia) por 14 dias.
  • Terapia concomitante: Claritromicina, amoxicilina, metronidazol associados a IBP ou P-CAB por 14 dias é uma opção alternativa.

2ª Linha de Tratamento

Para retratamentos, é fundamental não repetir os esquemas indicados na 1ª linha (evitando reexposição a antibióticos como claritromicina). As opções são:

  • Esquema quádruplo: Bismuto, metronidazol e tetraciclina com IBP ou P-CAB por 10 a 14 dias (caso não tenha sido a primeira escolha).
  • Esquema tríplice com levofloxacino: Amoxicilina, levofloxacino e bismuto associados a IBP ou P-CAB por 14 dias.
  • Terapia dupla em altas doses: Amoxicilina 3 a 4 g/dia (em 3 ou 4 tomadas) associada a IBP (alta dose) ou P-CAB (Vonoprazana 20 mg, 2x/dia) por 14 dias (na indisponibilidade de bismuto).

Terapia de Resgate (3ª Linha ou mais)

A terapia de resgate deve ser aplicada quando as alternativas anteriores falharem, sem repetir antibióticos chaves (como levofloxacino e claritromicina):

  • Esquema quádruplo clássico: Bismuto, metronidazol e tetraciclina com IBP ou P-CAB por 10 a 14 dias.
  • Terapia tríplice com rifabutina: Rifabutina e amoxicilina associadas a IBP ou P-CAB por 14 dias (especialmente se a terapia quádrupla já foi utilizada ou não estiver disponível).
  • Terapia dupla em altas doses: Novamente, amoxicilina 3 a 4 g/dia e IBP/P-CAB por 14 dias (na ausência de bismuto e rifabutina).

Pacientes com Alergia à Penicilina

A alergia à penicilina exige a exclusão da amoxicilina, tornando o cenário mais restrito:

  • 1ª Linha: Esquema quádruplo (bismuto, metronidazol, tetraciclina e IBP/P-CAB por 10 a 14 dias) ou terapia dupla com tetraciclina e P-CAB por 14 dias.
  • 2ª Linha: Qualquer opção não utilizada anteriormente, ou terapia tríplice com quinolona (levofloxacino) e claritromicina por 14 dias.

Testes de Sensibilidade Antibiótica

O consenso determina que testes de suscetibilidade (cultura ou genotipagem) devem ser solicitados idealmente após três falhas terapêuticas, caso disponíveis. Nesses cenários, terapias guiadas (como IBP-Amoxicilina-Claritromicina ou IBP-Amoxicilina-Levofloxacino) podem ser empregadas com segurança

Referência

COELHO, LGZ. V Consenso Brasileiro sobre a infecção por H. pylori. Apresentado em: XXIV Semana Brasileira do Aparelho Digestivo (SBAD); 2025; São Paulo, Brasil. 

COELHO LGV, Sanches BSF, Maguilnik I, et al. Vth Brazilian Consensus Conference on Helicobacter pylori infection. Arq Gastroenterol. 2026;63:e26043.

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Autor e Revisor

  • Médico pela Universidade Federal do Piauí | CRM: 159155
    Residência de Gastroenterologia (RQE: 68669) e Endoscopia Digestiva (RQE: 686691) pelo Hospital das Clínicas - FMUSP.
    Doutor em Gastroenterologia pela FMUSP.
  • Médico - Universidade Estadual de Maringá (UEM) | CRM: 211408
    Clínica Médica - Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP (HCFMRP-USP) | RQE: 124368
    Reumatologia - Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) | RQE: 124369
    Preceptoria de Reumatologia 2024-25 (HC-FMUSP)
    Especialização em Curso de Formação de Preceptores pelo Centro de Desenvolvimento de Educação Médica (CEDEM-FMUSP)

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