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Consenso brasileiro reúne recomendações para o tratamento da dor associada à endometriose

A Associação Brasileira de Endometriose e Ginecologia Minimamente Invasiva (SBE), em conjunto com a Comissão Nacional Especializada em Endometriose da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), elaborou um consenso com recomendações baseadas em evidências científicas para o tratamento da dor pélvica associada à endometriose. O documento de 2026 reúne orientações sobre abordagens farmacológicas e complementares não farmacológicas.

A dimensão da doença reforça a importância dessas recomendações. Estima-se que cerca de 7 milhões de brasileiras tenham endometriose, segundo estimativas apresentadas pela SBE. O subdiagnóstico e a dificuldade de identificação da doença, no entanto, representam desafios para dimensionar sua prevalência no país. Saiba mais sobre as estimativas de endometriose no Brasil.

O material aborda desde o uso de terapias hormonais e medicamentos analgésicos até intervenções como fisioterapia pélvica, acupuntura, atividade física e acompanhamento psicológico. A proposta é contribuir para uma assistência individualizada e multidisciplinar, considerando os sintomas, os objetivos reprodutivos e as particularidades de cada paciente.

Como foi elaborado o consenso sobre endometriose?

As recomendações foram desenvolvidas a partir de uma revisão da literatura científica conduzida por especialistas da SBE e da Comissão Nacional Especializada em Endometriose da FEBRASGO.

Para a elaboração dos documentos, foram consultadas bases de dados como PubMed/MEDLINE, Cochrane Library, Embase e SciELO. A seleção priorizou ensaios clínicos randomizados, revisões sistemáticas e metanálises, sem excluir outros estudos relevantes para a discussão.

As recomendações preliminares foram debatidas durante uma reunião de especialistas realizada no Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia (CBGO), em Minas Gerais, em maio de 2026. Após as discussões, os textos foram revisados até que houvesse consenso entre os participantes.

A publicação foi dividida em dois capítulos: tratamento clínico farmacológico e tratamento clínico complementar não farmacológico da dor pélvica associada à endometriose.

Tratamento farmacológico da dor associada à endometriose

O consenso estabelece que o tratamento hormonal é a principal abordagem farmacológica para o controle da dor relacionada à endometriose, especialmente em mulheres sem desejo reprodutivo imediato.

Entre as opções de primeira linha estão os contraceptivos hormonais combinados e os progestagênios isolados. A escolha deve considerar o perfil clínico, a tolerabilidade, a segurança, as preferências da paciente e os objetivos reprodutivos.

Contraceptivos hormonais e progestagênios

Os contraceptivos hormonais combinados podem contribuir para a redução da dor pélvica, da dismenorreia e da dispareunia. O consenso considera o uso contínuo preferencial, embora o esquema cíclico, com pausas, também seja uma alternativa aceitável.

Os progestagênios isolados também são recomendados como primeira linha. Entre as opções discutidas está o dienogeste, que apresenta evidências de melhora da dismenorreia, da dor pélvica não relacionada ao ciclo menstrual e da dispareunia.

O documento ressalta, entretanto, que não há evidências suficientes para afirmar que uma alternativa hormonal específica seja superior às demais no controle da dor.

Agonistas e antagonistas de GnRH

Os agonistas do hormônio liberador de gonadotrofinas (GnRH), como goserelina, triptorrelina e leuprorrelina, são considerados opções de segunda linha, especialmente em pacientes que não apresentam resposta satisfatória às alternativas iniciais.

Esses medicamentos promovem redução da produção hormonal ovariana e podem provocar efeitos relacionados ao hipoestrogenismo, como alterações na massa óssea e sintomas vasomotores.

Por esse motivo, o consenso recomenda associar os agonistas de GnRH à chamada terapia add-back, que consiste na administração concomitante de hormônios para reduzir os efeitos da privação estrogênica.

Os antagonistas orais de GnRH, como elagolix, linzagolix e relugolix, também são apresentados como alternativas terapêuticas. Seu uso deve ser considerado em situações específicas, especialmente em pacientes refratárias a outras abordagens.

Os inibidores de aromatase também podem ser considerados em casos selecionados, mas não são recomendados como tratamento de primeira escolha.

Medicamentos analgésicos e anti-inflamatórios

Além do tratamento hormonal, o controle da dor pode envolver medicamentos não hormonais.

O consenso apresenta uma abordagem analgésica escalonada, com paracetamol, dipirona e anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) entre as opções de primeira linha.

Os AINEs atuam principalmente pela inibição das enzimas ciclooxigenases, reduzindo a produção de prostaglandinas envolvidas nos processos inflamatórios e dolorosos.

Já os opioides devem ter utilização restrita a situações de dor intensa e refratária, não sendo recomendados como tratamento de rotina.

O documento também destaca que não existem evidências científicas robustas que sustentem a recomendação do canabidiol para o tratamento da dor associada à endometriose.

Tratamento hormonal e objetivos reprodutivos

Outro ponto importante do consenso é a relação entre o tratamento hormonal e o desejo de gestação.

As terapias hormonais são direcionadas principalmente ao controle dos sintomas em mulheres que não desejam engravidar imediatamente. O documento ressalta que não há benefício comprovado dessas intervenções para aumentar as chances de gestação.

Também não há indicação universal de tratamento hormonal para todas as pacientes assintomáticas. Quando a endometriose é identificada incidentalmente, a decisão deve considerar fatores como a presença de endometrioma ovariano e a extensão da doença.

Para pacientes submetidas à cirurgia que não desejam engravidar imediatamente, o consenso recomenda considerar o tratamento hormonal no pós-operatório, com o objetivo de melhorar o controle da dor e reduzir o risco de recorrência dos sintomas e da doença.

Tratamentos complementares não farmacológicos para endometriose

O segundo capítulo do consenso aborda intervenções complementares que podem contribuir para o controle da dor e a melhora da qualidade de vida.

A proposta considera que a endometriose envolve mecanismos que vão além das alterações hormonais e inflamatórias, exigindo uma abordagem que também contemple aspectos musculoesqueléticos, psicológicos e nutricionais.

As intervenções são organizadas em três grupos: terapias físicas, nutricionais e psicológicas.

Fisioterapia pélvica e acupuntura

A fisioterapia pélvica, tanto manual quanto com estimulação elétrica, e a acupuntura estão entre as intervenções complementares com evidências mais consistentes para a redução da dor associada à endometriose.

A fisioterapia pode atuar em alterações musculares do assoalho pélvico, como hipertonia e contraturas, além de contribuir para o tratamento de pontos-gatilho miofasciais, aderências pós-cirúrgicas e dispareunia.

Entre as técnicas utilizadas estão terapia manual, biofeedback, exercícios de relaxamento muscular e estimulação elétrica nervosa transcutânea (TENS).

Já a acupuntura pode contribuir para a modulação das vias de dor por meio de mecanismos neuroquímicos e da regulação de mediadores inflamatórios.

Uma metanálise em rede citada no consenso identificou benefícios da fisioterapia, da acupuntura e da psicoterapia na redução da dor geral. A fisioterapia apresentou o maior efeito nesse desfecho, enquanto a acupuntura demonstrou resultados mais expressivos para dor pélvica e a fisioterapia para dismenorreia.

Atividade física e ioga

A prática de atividade física também é abordada como parte do cuidado complementar.

O consenso aponta possíveis benefícios dos exercícios para o bem-estar geral, o sono, o humor, a fadiga e a qualidade de vida. Entretanto, os estudos disponíveis apresentam diferenças importantes nos métodos e nas intervenções avaliadas, o que limita conclusões definitivas sobre sua eficácia direta no controle da dor.

A recomendação é considerar a atividade física sempre que possível, respeitando as condições e as particularidades de cada paciente.

A ioga também aparece entre as intervenções estudadas. Os resultados apontam possíveis benefícios para a qualidade de vida, o relaxamento e a redução do estresse, embora ainda sejam necessários estudos de melhor qualidade para estabelecer conclusões mais robustas.

Alimentação e suplementação

O consenso também avalia intervenções nutricionais, incluindo dietas e suplementos utilizados com o objetivo de auxiliar no controle dos sintomas da endometriose.

A dieta mediterrânea, também abordada sob a perspectiva anti-inflamatória, e a dieta com baixo teor de FODMAP apresentam resultados potencialmente positivos, especialmente na melhora de sintomas gastrointestinais associados. Entretanto, as evidências sobre seus efeitos diretos na dor da endometriose ainda são limitadas e heterogêneas.

Em relação aos suplementos, o documento diferencia os antioxidantes dos produtos com suposta ação anti-inflamatória.

As vitaminas C e E e a melatonina apresentaram efeitos moderados sobre a dor em alguns estudos, mas os resultados ainda são heterogêneos. Por isso, podem ser considerados como recursos complementares em situações individualizadas.

Por outro lado, faltam evidências suficientes para demonstrar que suplementos anti-inflamatórios promovam melhora da dor relacionada à endometriose.

O consenso também ressalta que não há respaldo científico suficiente para recomendar dietas sem glúten exclusivamente para mulheres com endometriose, nem para afirmar que a exclusão de laticínios contribui para reduzir a dor.

Acompanhamento psicológico e saúde mental

O impacto da endometriose não se limita às manifestações físicas. A dor crônica pode estar associada a ansiedade, depressão, estresse e prejuízos à qualidade de vida.

Nesse contexto, o consenso destaca a importância de intervenções psicológicas validadas, especialmente a terapia cognitivo-comportamental (TCC) e o mindfulness.

Uma revisão sistemática com sete ensaios clínicos randomizados, envolvendo 757 participantes, identificou efeitos positivos moderados das intervenções psicológicas sobre a dispareunia e a disquesia, além de benefícios moderados a expressivos sobre ansiedade e depressão.

Os resultados também apontaram melhora em diferentes dimensões da qualidade de vida, incluindo saúde física e mental.

Dessa forma, o acompanhamento psicológico é apresentado como parte importante de uma abordagem multidisciplinar, contribuindo para o manejo da dor e das repercussões emocionais da doença.

Consenso reforça a importância do tratamento individualizado da endometriose

As recomendações da SBE e da FEBRASGO reforçam que o tratamento da endometriose deve considerar diferentes dimensões da saúde da paciente, integrando o controle hormonal e medicamentoso da dor às intervenções complementares quando indicadas.

Embora algumas abordagens não farmacológicas apresentem resultados positivos, elas não devem ser consideradas substitutas dos tratamentos hormonais ou cirúrgicos estabelecidos.

O documento também reconhece que a qualidade das evidências varia entre as intervenções, destacando a necessidade de novas pesquisas para esclarecer os benefícios de estratégias que ainda apresentam resultados limitados.

A proposta é fortalecer uma assistência baseada em evidências, com decisões compartilhadas entre profissionais de saúde e pacientes e atenção aos sintomas, às necessidades e aos objetivos individuais.

Entenda as abordagens para o tratamento da endometriose

O tratamento da endometriose envolve diferentes estratégias, que podem ser combinadas de acordo com os sintomas, os objetivos reprodutivos e as necessidades de cada paciente. Para aprofundar seus conhecimentos sobre o tema, acompanhe os conteúdos de Ginecologia e Obstetrícia do Blog MedCof.

Referências bibliográficas

TRONCON, Júlia Kefalás et al. Tratamento clínico farmacológico da dor pélvica associada à endometriose. In: Consenso da Associação Brasileira de Endometriose e Ginecologia Minimamente Invasiva: recomendações baseadas em evidências para o tratamento da endometriose. São Paulo: Associação Brasileira de Endometriose e Ginecologia Minimamente Invasiva; Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, 2026. Cap. 1, p. 1-37.

BENETTI-PINTO, Cristina Laguna et al. Tratamento clínico complementar (não farmacológico) da dor pélvica associada à endometriose. In: Consenso da Associação Brasileira de Endometriose e Ginecologia Minimamente Invasiva: recomendações baseadas em evidências para o tratamento da endometriose. São Paulo: Associação Brasileira de Endometriose e Ginecologia Minimamente Invasiva; Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, 2026. Cap. 2, p. 1-27.

Autor e Revisor

  • Leila Menzel

    Leila Menzel é estudante de Jornalismo na Anhanguera e atua na produção de conteúdo jornalístico sobre saúde e educação médica. Na MedCof, produz e atualiza conteúdos relacionados à residência médica, processos seletivos, editais e especialidades médicas, acompanhando notícias e informações relevantes para estudantes e médicos em preparação para provas e processos seletivos.

  • Médica pela Faculdade de Medicina da USP | CRM: 215891 Ginecologista e Obstetra pelo HC-FMUSP | RQE: 124930Preceptora da Disciplina de Ginecologia do HC-FMUSP em 2024Título de Especialista em Ginecologia e Obstetrícia pela FEBRASGO (TEGO)Título de especialista em Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia pela ABPTGIC

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