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Diretrizes SBP 2026: Reanimação do Recém-Nascido ≥34 Semanas

Com foco total no "Minuto de Ouro" e nas novas condutas de ventilação, atualização da SBP redefine critérios de reanimação de prematuros

Diretrizes SBP 2026: Reanimação do Recém-Nascido ≥34 Semanas
Imagem de Canva

Na sexta-feira, 12 de junho, a Sociedade Brasileira de Pediatria publicou as novas diretrizes para “Reanimação do recém-nascido <34 semanas em sala de parto: Diretrizes 2026 da Sociedade Brasileira de Pediatria”. Confira as atualizações mais importantes para a sua prova de residência médica. 

O Brasil é o 7º país do mundo em número absoluto de prematuros. Dados de 2024 mostram que, no país, nasceram 2.389.325 crianças, das quais 295.468 (12,4%) apresentaram idade gestacional (IG) <37 semanas, sendo 38.844 entre 22-31 semanas e 34.886 com peso <1500g.  

A maioria dos recém-nascidos pré=termo (RNPT) precisa de ajuda para iniciar a respiração ao nascer. Dados internacionais apontam que 70% dos RNPT precisam de suporte respiratório ao nascimento. Desta forma, o treinamento de equipes em reanimação reduz a mortalidade neonatal precoce.

Preparo antes do nascimento

Antecipação de risco: A anamnese detalhada deve identificar fatores antenatais (diabetes, hipertensão, gestação múltipla, malformação fetal) e intraparto (líquido meconial, padrão anormal da FC fetal, parto cesáreo, uso de opioides).

Equipe: Pelo menos um profissional pediatra capaz de realizar os passos iniciais e ventilação com pressão positiva (VPP) com máscara deve estar em todo nascimento, com responsabilidade exclusiva pelo recém-nascido. Em situações de risco, são necessários 2–3 profissionais, sendo ao menos um médico apto a intubar.

Material: Todo equipamento deve ser testado antes de cada nascimento, com uso de lista de verificação padronizada. A temperatura da sala deve ser mantida entre 23–25°C.

Briefing: Reunião prévia obrigatória de toda a equipe perinatal para planejar ações, dividir funções, definir o líder e revisar o caso. Há evidências de que o briefing reduz erros e melhora os desfechos neonatais.

Prevenção de infecções: Higiene das mãos, uso de EPI (luvas, avental, máscara) em todos os nascimentos.

Avaliação ao nascimento — boa vitalidade x sem boa vitalidade

Com boa vitalidade (respira/chora + tônus em flexão, independentemente do líquido amniótico):

  • Clampeamento do cordão ≥60 segundos após o nascimento
  • Contato pele a pele imediato com a parturiente
  • Manutenção da normotermia (36,5–37,5°C)
  • Estímulo ao aleitamento materno na primeira hora
  • Aspiração de vias aéreas apenas se houver obstrução

Sem boa vitalidade (apneia, respiração irregular ou tônus flácido):

  • Estímulo tátil delicado no dorso (~15 segundos), preferencialmente antes do clampeamento do cordão
  • Se respirar após estímulo → clampeamento ≥60 segundos
  • Se não respirar → clampeamento imediato e encaminhamento à mesa de reanimação
Fonte: Reanimação do recém-nascido <34 semanas em sala de parto: Diretrizes 2026 da Sociedade Brasileira de Pediatria

Ordenha de cordão: Opção para prover transfusão placentária quando o RN não responde ao estímulo tátil. Comprimir ~20 cm do cordão da placenta em direção ao recém-nascido, 3 vezes, antes do clampeamento <60 segundos.

Passos iniciais (até 30 segundos)

Na mesa de reanimação sob calor radiante:

  • Posicionar o pescoço em leve extensão
  • Secar cabeça e corpo, desprezar campos úmidos, colocar touca
  • Aspiração não é rotina — somente se há suspeita de obstrução de vias aéreas
  • Líquido meconial: laringoscopia e aspiração traqueal de rotina não são recomendadas; VPP deve ser iniciada nos primeiros 60 segundos mesmo na presença de mecônio

Monitorização dos sinais vitais

Frequência cardíaca (FC), da respiração e da SpO₂: principal parâmetro de decisão.

  • Avaliação inicial: ausculta precordial 6 segundos x 10
  • Quando VPP indicada: obrigatório monitor cardíaco de 3 derivações (mais acurado que ausculta e oximetria)
  • FC adequada ≥100 bpm; bradicardia <100 bpm

Respiração: Avaliada pela inspeção da expansão torácica ou choro. Gasping e apneia indicam ventilação imediata.

Saturação de oxigênio (SpO₂): Sensor no pulso radial direito (pré-ductal). Alvos progressivos:

Minutos após nascimentoSpO₂ alvo pré-ductal
2 min65–70%
3 min70–75%
4 min75–80%
5 min80–85%
10 min85–95%

Boletim de Apgar: Não orienta condutas em tempo real, mas documenta a resposta às manobras. Se <7 no 5º minuto, repetir a cada 5 minutos até 20 minutos.

Ventilação com Pressão Positiva (VPP) — O passo mais importante

Indicação: Apneia ou respiração irregular e/ou FC <100 bpm após os passos iniciais.

“Minuto de Ouro”: VPP deve ser iniciada nos primeiros 60 segundos. O risco de morte/morbidade aumenta 16% a cada 30 segundos de atraso.

Concentração inicial de O₂: Ar ambiente (21%) para RN ≥34 semanas. Nunca iniciar com O₂ a 100%. Ajuste guiado pela SpO₂ alvo, aumentando ou diminuindo 20% a cada 30 segundos.

Equipamentos:

  • Balão autoinflável (240 mL): Baixo custo, não precisa de gás comprimido. Desvantagens: não fornece PEEP consistente, não permite CPAP, concentração de O₂ não é titulável. Deve estar sempre disponível.
  • VMM-Peça-T: Preferível. Fornece pressão inspiratória consistente, PEEP (5 cmH₂O) e CPAP. Requer fonte de gás e blender. Parâmetros: fluxo ~10 L/min, pressão inspiratória 20–30 cmH₂O, pressão máxima do circuito 40 cmH₂O.

Frequência: 30–60 movimentos por minuto (“aperta/solta/solta” ou “ocluuui/solta/solta”).

Interfaces:

Máscara facial: Interface de primeira escolha. Técnica em “C” e “E” com os dedos. Riscos: escape de gás (até 70%), reflexo trigeminal-cardíaco (apneia em ~10% das aplicações). O treinamento contínuo é essencial.

Máscara laríngea: Alternativa quando a máscara facial falha ou a intubação não é possível. Para RN ≥2000 g. Reduz falha de VPP em 76% e intubação em 66% versus máscara facial. Inserção em ~15 segundos após treinamento breve. Não indicada durante massagem cardíaca.

Cânula traqueal (intubação): Indicada quando VPP com máscara não é efetiva, VPP prolongada ou massagem cardíaca. Ato médico exclusivo. Tamanhos por IG:

  • 28–34 sem → 3,0 mm | Lâmina 0
  • 35–38 sem → 3,5 mm | Lâmina 1
  • 38 sem → 3,5 ou 4,0 mm | Lâmina 1

Profundidade no lábio superior calculada por IG/peso (ex: 38–40 sem → 8,5 cm). Confirmação de posição com detector colorimétrico de CO₂ exalado (mais rápido que avaliação clínica). Videolaringoscópio aumenta o sucesso especialmente para médicos menos experientes.

Ações corretivas na VPP com máscara facial: Readaptar máscara → reposicionar cabeça → aspirar secreções → ventilar com boca aberta → aumentar pressão (até 40 cmH₂O).

CPAP

Para RN ≥34 semanas com FC ≥100 bpm e respiração espontânea, mas com desconforto respiratório e SpO₂ abaixo do alvo. Usar com cautela: estudos observacionais mostram risco de pneumotórax 5,5× maior com CPAP em RN ≥35 semanas. Se SpO₂ dentro do alvo → conduta conservadora. Administrado com VMM-Peça-T e máscara facial, pressão de 5–6 cmH₂O.

Massagem cardíaca

Indicação: FC <60 bpm após 30 segundos de VPP com cânula traqueal e técnica adequada.

Técnica: Dois polegares no terço inferior do esterno, compressão de 1/3 do diâmetro anteroposterior do tórax. Relação 3:1 com a ventilação → 90 compressões + 30 ventilações/minuto (120 eventos/min). VPP com O₂ a 100%.

Profissional: Posicionado atrás da cabeça do RN para facilitar acesso umbilical. Revezamento a cada 2–5 minutos.

Avaliação: Após 60 segundos, reavaliar FC. Se >60 bpm, interromper massagem.

Medicações

Necessárias em apenas 1–3 RN por 1.000 nascidos vivos quando VPP e massagem são aplicadas corretamente.

Adrenalina: Indicada quando FC <60 bpm após VPP com cânula + O₂ 100% + massagem por ≥60 segundos.

  • Via de escolha: Intravascular (cateter venoso umbilical). Dose: 0,01–0,03 mg/kg (prática: 0,02 mg/kg = 0,2 mL/kg da solução 0,1 mg/mL).
  • Via traqueal: Uso único enquanto cateter é inserido. Dose: 0,05–0,10 mg/kg (prática: 0,1 mg/kg = 1,0 mL/kg). Absorção lenta e imprevisível.
  • Diluição: 1 mL da ampola (1 mg/mL) em 9 mL de SF → 0,1 mg/mL.
  • Repetir a cada 3–5 minutos se não houver resposta.
  • Doses >0,1 mg/kg são contraindicadas.

Cateter venoso umbilical: Procedimento de eleição para acesso vascular de emergência. Cateter 3,5F ou 5F, lúmen único. Inserir ~3–4 cm após o ânulo. Via intraóssea é alternativa quando cateterismo não é factível.

Expansor de volume (SF 0,9%): Indicado na suspeita de hipovolemia (palidez, pulsos fracos, sem resposta à reanimação, história de hemorragia). Dose: 10 mL/kg em 5–10 minutos. Cautela: volume excessivo pode causar edema pulmonar e hemorragia intraventricular.

Não recomendados: Bicarbonato de sódio, naloxone, atropina, albumina, vasopressores.

Aspectos éticos

Quando não iniciar: Somente diante de anomalias congênitas letais confirmadas, com discussão prévia com a família. Na dúvida, a reanimação deve ser iniciada.

Quando interromper: Após ~20 minutos de reanimação avançada sem resposta, sugere-se discussão entre equipe e família. Revisão sistemática do ILCOR mostra que sobrevida sem lesão neurológica grave é possível mesmo após 20 minutos de reanimação.

Presença da família: Razoável, desde que haja condições institucionais e desejo familiar.

Transporte para a unidade neonatal

  • Nunca transportar com FC <100 bpm
  • Incubadora de transporte pré-aquecida (34–35°C)
  • Manter normotermia, vias aéreas pérvias e monitorização contínua de FC e SpO₂
  • Suporte respiratório conforme condição clínica (sem suporte, CPAP ou ventilação mecânica)
  • Documentar todos os procedimentos no prontuário

Debriefing e qualidade

Debriefing: Discussão estruturada pós-atendimento, “quente” (imediato) ou “frio” (posterior). Melhora habilidades técnicas, adesão às diretrizes e desfechos dos pacientes.

Indicadores de qualidade sugeridos (estratégia SMART): Taxa de profissionais treinados, clampeamento oportuno, VPP iniciada no Minuto de Ouro, leitura de FC no monitor cardíaco, intubação com sucesso na 1ª tentativa, normotermia à admissão, debriefing realizado, entre outros.

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As diretrizes da SBP 2026 trouxeram mudanças relevantes para a reanimação neonatal — e esse é exatamente o tipo de conteúdo que aparece nas provas de residência médica. Na MedCof, você estuda as novidades das principais sociedades com questões comentadas e casos clínicos alinhados ao que as bancas cobram. Não deixe a atualização de lado: torne-se Medcofer e chegue à prova com o conteúdo mais recente na ponta da língua.

Autor e Revisor

  • Jornalista pela UNESP. Linguista pela USP. Jornalista da área da saúde e meio ambiente, faço cobertura de atualizações médicas e concursos públicos. Especialista em braille e acessibilidade para pessoas cegas ou com baixa visão.

  • Amira Saleh

    Graduação em Medicina - Faculdade de Medicina de Marília (Famema)
    Residência em Pediatria - Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
    Especialização em Neonatologia - Universidade de São Paulo (USP)
    Título de Especialista em Pediatria - Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP)

    CRM: 198459 | RQE: 112361

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