Desnutrição energético-proteica e avitaminoses: a problemática na Puericultura

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Neste artigo, você vai dominar a desnutrição e as avitaminoses na pediatria com um enfoque prático para as provas. Revisamos desde as classificações clássicas (Gomez e Waterlow) até o passo a passo do tratamento hospitalar e as principais carências vitamínicas.

Desnutrição: Definição e Etiologia

A desnutrição é uma condição patológica decorrente, primariamente, da baixa oferta alimentar, apresentando forte correlação com determinantes socioeconômicos.

  • Impacto: Além da elevada mortalidade, gera morbidade significativa, incluindo piora do desenvolvimento neuropsicomotor (DNPM) e défice cognitivo.
  • Causas Secundárias: Infecções de repetição, neoplasias e síndromes de má absorção.

Avaliação Antropométrica e Classificações

O diagnóstico nutricional depende da faixa etária e do parâmetro avaliado.

Classificação de Gomez (Modificada por Bengoa)

Utilizada para crianças hospitalizadas menores de 2 anos, onde o peso é o indicador mais sensível.

  • Cálculo: (Peso da criança / Peso do p50 para a idade) X 100.
  • Estratificação:
    • Eutrófico: 91 a 110%.
    • Leve (Grau I): 76 a 90%.
    • Moderada (Grau II): 61 a 75%.
    • Grave (Grau III): 60% ou presença de edema.

Classificação de Waterlow

Utilizada para crianças entre 2 e 10 anos, permitindo diferenciar processos agudos de crónicos. Avalia dois índices: Altura/Idade (E/I) e Peso/Estatura (P/E).

Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof.

Classificação da OMS

Utiliza o Z-score. Define-se Desnutrição Grave se Z-score < -3.

Exemplo de representação do Z-score. Fonte: https://docs.oracle.com/cloud/help/pt_BR/pbcs_common/PFUSU/insights_metrics_Z-Score.htm 

Formas Clínicas da Desnutrição Grave

A desnutrição grave caracteriza-se por circunferência braquial < 115 mm, Z-score < -3 ou presença de edema bilateral.

Marasmo (Deficiência Calórica Global)

  • Fisiopatologia: Adaptação metabólica à fome crônica.
  • Clínica: Emagrecimento extremo (perda de tecido adiposo e muscular), fácies senil (“cabeça grande para o corpo”), pele seca e fina, hipotonia e irritabilidade. O apetite costuma estar preservado.
  • Sinais de Gravidade: Bradicardia, hipotensão e hipotermia severos. Ausência de edema.

Kwashiorkor (Deficiência Proteica Predominante)

  • Fisiopatologia: Ingesta calórica adequada, mas proteica insuficiente. O edema decorre de hipoalbuminemia, estresse oxidativo e alteração do microbioma.
  • Clínica: Edema (pode evoluir para anasarca), hepatomegalia (esteatose), alterações de cabelo (fino, hipopigmentado/sinal da bandeira), dermatose (hiperqueratose/hiperpigmentação) e apatia intensa.
Criança com Kwashiorkor. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Kwashiorkor#/media/Ficheiro:Starved_girl.jpg

Complicações Sistêmicas

A desnutrição afeta múltiplos órgãos, muitas vezes mascarando quadros infecciosos graves:

  • Imunológico: Disfunção imune. Infecções (pneumonia, ITU, sepse) podem ocorrer sem febre, taquicardia ou taquipneia.
  • Gastrointestinal: Atrofia da mucosa, insuficiência pancreática exócrina.
  • Hepático: Esteatose, hipoalbuminemia, risco de hipoglicemia.
  • Cardiovascular: Risco de insuficiência cardíaca e desidratação.

Protocolo de Manejo Hospitalar

Critérios de Internação

  • < 6 meses: Edema bilateral, Z-score < -3 ou falha de ganho de peso ambulatorial.
  • > 6 meses: Anorexia, complicações médicas (choque, desidratação, infecção grave, anemia grave), hipotermia ou edema grave.

Os 10 Passos do Tratamento (OMS)

O tratamento divide-se em três fases cronológicas:

Fase I: Estabilização (Semana 1)

O objetivo é restaurar funções celulares, não ganhar peso.

  1. Hipoglicemia: Prevenir/tratar (< 54 mg/dL).
  2. Hipotermia: Prevenir/tratar (< 35ºC).
  3. Desidratação: Preferir TRO. Hidratação EV apenas se choque.
  4. Eletrólitos: Corrigir K+, Mg+, P. Não dar Ferro nesta fase (aumenta estresse oxidativo e risco de infecção).
  5. Infecção: Antibioticoterapia empírica de amplo espectro para todos.
  6. Micronutrientes: Iniciar suplementação (exceto ferro).
  7. Dieta: Início cauteloso.

Fase II: Reabilitação (Semanas 2-7)

  1. Catch-up: Dieta hiperproteica e hipercalórica para recuperação de peso.
    • Marco: Retorno do apetite e redução do edema.
    • Ferro: Iniciar suplementação nesta fase.

Fase III: Acompanhamento

  1. Estimulação do DNPM e suporte emocional.
  2. Preparação para alta e seguimento.

Alerta: A Síndrome de Realimentação ocorre na 1ª semana, caracterizada por retenção hídrica, arritmias e rabdomiólise. O principal marcador é a hipofosfatemia.

Vitaminas e Micronutrientes

Vitaminas Hidrossolúveis (Complexo B e C)

Não são armazenadas (exceto B12).

  • B1 (Tiamina): Beribéri (ICC/neurite) e Encefalopatia de Wernicke.
Manifestação do Beribéri. Fonte: https://biblioteca.cofen.gov.br/guia-de-consulta-para-vigilancia-epidemiologica-assistencia-e-atencao-nutricional-dos-casos-de-beriberi/ 
  • B2 (Riboflavina): Queilite, glossite, fotofobia.
Glossite Geográfica. Fonte: https://drauziovarella.uol.com.br/doencas-e-sintomas/lingua-geografica-glossite-migratoria-benigna-ou-eritema-migratorio/ 
  • B3 (Niacina): Pelagra (Dermatite em áreas expostas, Diarreia, Demência).
Manifestação da Pelagra. Fonte: https://sergiofranco.com.br/saude/pelagra 
  • B6 (Piridoxina): Convulsões neonatais, anemia microcítica.
  • B12 (Cobalamina) e B9 (Folato): Anemia megaloblástica. A deficiência de B12 (comum em vegetarianos/veganos) causa sintomas neurológicos (ataxia, parestesias, regressão do DNPM).
  • Vitamina C: Escorbuto (dor óssea, pseudoparalisia, hemorragias).
Manifestação bucal do escorbuto. Fonte: https://eapgoias.com.br/o-que-e-escorbuto/ 

Vitaminas Lipossolúveis (K-E-D-A)

Possuem depósito corporal e risco de intoxicação.

Vitamina A (Retinol)

  • Deficiência: Cegueira noturna (sinal precoce), xerostomia, Manchas de Bitot, queratomalácia.
Mancha de Bitot em conjuntiva temporal. Fonte: https://www.analesdepediatria.org/es-manchas-bitot-por-dficit-vitamina-articulo-S1695403309005943 
  • Profilaxia (Megadose):
    • 6 a 11 meses: 100.000 UI.
    • 12 a 59 meses: 200.000 UI (a cada 6 meses).
  • Toxicidade: Hipertensão intracraniana (abaulamento de fontanela), vômitos, pele seca.

Vitamina D (Calcitriol)

  • Deficiência (Raquitismo): Falha na mineralização óssea.
    • Sinais: Craniotabes, rosário raquítico, alargamento de epífises (punhos), arqueamento de ossos longos, atraso na dentição.
Criança com raquitismo infantil por desnutrição. Fonte: https://celsorizzi.blogspot.com/2011/06/raquitismo-nutricional.html 
  • Profilaxia Universal:
    • < 1 ano: 400 UI/dia.
    • 1 ano: 600 UI/dia (até 2 anos).

Vitamina K

  • Função: Cofator de coagulação (II, VII, IX, X).
  • Deficiência: Doença hemorrágica do RN (TP e TTPa alargados). Requer profilaxia ao nascer.

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