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Revisão do NEJM Atualiza o Manejo da Fibromialgia: Veja os Destaques 

Da revisão prática do New England Journal sobre definições de dor nociplástica aos critérios diagnósticos atualizados

Nova revisão do NEJM sobre Fibromialgia

O manejo da fibromialgia voltou ao centro do debate clínico com uma revisão prática publicada no New England Journal of Medicine. O ponto central é: essa patologia é cada vez mais entendida como uma fonte de dor nociplástica, condição na qual o sistema nervoso central (SNC) torna-se hipersensível a estímulos sensoriais, porém não há dano tecidual detectável. Reunimos abaixo os pontos de maior rendimento para você fixar antes da prova.

O conceito que você precisa dominar: dor nociplástica

Fisiopatologicamente, podemos classificar as condições dolorosas de acordo com três mecanismos:

  • Nociceptiva — lesão tecidual (ex.: trauma, artrose).
  • Neuropática — lesão ou doença do sistema somatossensorial (ex.: neuropatia diabética, neuralgia pós-herpética).
  • Nociplástica — sensibilização central, com plasticidade neural que amplifica tanto estímulos dolorosos quanto não dolorosos. Neste caso, não há lesão periférica detectável (ex.: fibromialgia, síndrome do intestino irritável).

A fibromialgia é o protótipo da dor nociplástica. Por isso, o objetivo do tratamento não é “reparar” o tecido periférico, e sim acalmar a hiper-responsividade do SNC, favorecendo o retorno à homeostase.

Ela pode ocorrer de forma isolada ou combinada a outras condições de dor crônica, muitas vezes dificultando ainda mais o seu diagnóstico e manejo adequado.

Epidemiologia em números

Nos Estados Unidos, aproximadamente 4 a 6% da população tem fibromialgia, com o restante do mundo seguindo um padrão bem semelhante. A condição costuma afetar 2 vezes mais mulheres do que homens e os pacientes tendem a usar mais os serviços de saúde.

Atenção: o caso do artigo do New England Journal of Medicine é de um homem de 43 anos. Os autores escolheram um paciente masculino de propósito, porque a fibromialgia costuma ser subdiagnosticada em homens. Não descarte o diagnóstico pelo sexo.

Quadro clínico

O sintoma cardinal é a dor difusa persistente, mas o quadro raramente vem sozinho. São comuns:

  • Distúrbios do sono
  • Fadiga
  • Alterações de humor
  • Queixas cognitivas (“fibro fog”) / problemas de memória
  • Sensibilidade aumentada a estímulos não dolorosos (luzes, ruídos, odores)

Como a fibromialgia se desenvolve: top-down x bottom-up

  • Top-down: características de nociplasticidade já estão presentes antes do evento doloroso. Em estudos com crianças e adolescentes, distúrbios do sono, problemas de memória e hipersensibilidade sensorial antecederam o surgimento da dor — ou seja, são componentes centrais, não apenas consequências.
  • Bottom-up: a dor nociplástica evolui ao longo do tempo, secundária à exposição repetida a lesão ou doença (ex.: doença autoimune, hipermobilidade, anemia falciforme, câncer). A exposição repetida sensibiliza o SNC.

Diagnóstico: evolução dos critérios

AnoMarco
1990Dor difusa + 11 de 18 pontos dolorosos (tender points)
2010Primeiros critérios sem exigir tender points
2011WPI (Índice de Dor Difusa) + SSS (Escala de Gravidade de Sintomas)
2016Novos critérios diagnósticos

Critérios para Diagnóstico de Fibromialgia (2016): WPI, SSS e FSQ

O diagnóstico de fibromialgia é clínico e dispensa exames de imagem ou testes de pontos dolorosos. Os critérios de 2016 (Wolfe et al.) estruturam essa avaliação em torno de dois instrumentos aplicados pelo Questionário de Sintomas de Fibromialgia (FSQ – Fibromyalgia Survey Questionnaire): o Índice de Dor Difusa (WPI) e o Escore de Sintomas e sua Gravidade (SSS). A seguir, você encontra como cada um é composto, os pontos de corte e como fechar o diagnóstico.

O que os critérios de 2016 avaliam?

Os critérios combinam duas dimensões:

  • WPI (Widespread Pain Index – Índice de Dor Difusa): quantifica quantas regiões do corpo o paciente relata como dolorosas.
  • SSS (Severity of Symptoms Score – Escore de Sintomas e sua Gravidade): gradua a intensidade dos sintomas centrais da fibromialgia.

Além dos escores, dois requisitos precisam ser atendidos: a dor generalizada, presente em pelo menos 4 das 5 regiões determinadas, e a duração, com sintomas presentes na mesma intensidade por pelo menos 3 meses.

WPI – Índice de Dor Difusa (escala de 0 a 19)

O WPI corresponde ao número de regiões corporais informadas pelo paciente como dolorosas, gerando uma escala de 0 a 19. Para o critério de dor generalizada, a dor deve estar presente em pelo menos 4 das 5 regiões abaixo:

  • Região 1 – Superior Esquerda Mandíbula, Ombro, Braço, Antebraço
  • Região 2 – Superior Direita Mandíbula, Ombro, Braço, Antebraço
  • Região 3 – Inferior Esquerda Quadril, Coxa, Perna
  • Região 4 – Inferior Direita Quadril, Coxa, Perna
  • Região 5 – Axial Pescoço, Dorsal, Lombar, Tórax, Abdome

SSS – Escore de Sintomas e sua Gravidade (escala de 0 a 12)

O SSS pontua a gravidade dos sintomas centrais da fibromialgia de 0 a 3 em cada item, gerando uma escala total que varia de 0 a 12. Os quatro domínios avaliados são:

SintomaAusente (0)Leve (1)Moderado (2)Grave (3)
Fadiga0123
Problema cognitivo0123
Sono não reparador0123
Sintomas somáticos*0123

*Sintomas somáticos incluem cefaleia, dor ou cólica abdominal inferior e depressão (1 ponto / presentes por mais de 6 meses).

Como fechar o diagnóstico de fibromialgia?

O paciente preenche os critérios para fibromialgia quando atende a uma das combinações abaixo, associada à dor generalizada e à duração mínima:

  • WPI ≥ 7 e SSS ≥ 5, ou
  • WPI de 3 a 6 e SSS ≥ 9

A soma de WPI e SSS também é utilizada como medida composta, a Escala de Sintomas de Fibromialgia (FSS – Fibromyalgia Symptom Scale), resultante de WPI + SSS.

Pontos-chave para a prova:

A fibromialgia NÃO é diagnóstico de exclusão e deve ser diagnosticada independentemente de outras doenças presentes. Não existe exame laboratorial específico. Os exames complementares, quando utilizados, servem para afastar condições que mimetizam o quadro: VHS, PCR, TSH, hemograma completo e provas de função hepática.

Manejo da fibromialgia: princípios gerais

A maioria dos casos de fibromialgia pode ser conduzida na atenção primária. O profissional deve encaminhar os casos refratários ou complexos ao reumatologista, neurologista ou serviço de dor.

Todas as terapias têm efeito modesto, ou seja, combinar abordagens é comum e compreensível. Sugere-se que seja introduzido um tratamento por vez para avaliar benefícios e efeitos adversos. O engajamento do paciente é central, sobretudo nas intervenções não farmacológicas.

Tratamento não farmacológico (a base do manejo)

Os tratamentos não farmacológicos são considerados os mais efetivos, sendo eles:

  • Educação em dor: explicar a sensibilização central legitima o quadro e engaja o paciente.
  • Atividade física: evidência forte para exercício aeróbico, fortalecimento e alongamento. Regra de ouro: “comece devagar e progrida devagar” (“start low and go slow”), pois o esforço mal dosado pode piorar os sintomas.
  • Terapias comportamentais: a terapia cognitivo comportamental (TCC) é a mais estudada; mas também podem ser utilizadas terapia de aceitação e compromisso (ACT), terapia de reprocessamento da dor e terapia de consciência e expressão emocional. 
  • Terapias integrativas: recomendação forte para qigong, tai chi e yoga; recomendação ponderada para acupuntura e para dieta em pacientes com sobrepeso ou obesidade.
  • Higiene do sono e controle do estresse.

Tratamento farmacológico

Todos os agentes têm efeito modesto, sendo frequentemente necessário realizar combinações. A escolha dos agentes depende dos sintomas predominantes, bem como indicações e contraindicações de cada paciente.

  • Antidepressivos tricíclicos (TCA): amitriptilina e nortriptilina são medicações com potencial analgésico, atuando também em quadros depressivos/ansioso e com efeito indutor de sono.
  • Miorrelaxantes: ciclobenzaprina (formulação sublingual recebeu aprovação recente do FDA para fibromialgia)
  • Gabapentinoides: pregabalina (aprovada pelo FDA).
  • Inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSN): duloxetina e milnaciprana (aprovadas pelo FDA) são mais eficazes que ISRS altamente seletivos (ex.: citalopram). O efeito não depende apenas da melhora da depressão.
  • Terapia combinada: costuma superar a monoterapia (ex.: gabapentinoide à noite + IRSN durante o dia).

Analgésicos clássicos (ex: paracetamol e AINEs) em geral não ajudam na fibromialgia. Opioides devem ser evitados: risco de hiperalgesia induzida por opioides endógenos, dependência, overdose e mortalidade quase dobrada. A naltrexona em baixa dose (antagonista opióide) têm evidência preliminar de benefício.

Diretrizes do manejo da fibromialgia

As diretrizes canadenses, do American Family Physician e da EULAR convergem em: abordagem multidisciplinar, priorização da educação do paciente e participação ativa do paciente no cuidado — não em tratamento único.

O que ainda é incerto?

  • Não há exame de sangue ou teste objetivo para o diagnóstico.
  • Não há sustentação para classificar a fibromialgia como doença autoimune, neuropatia de fibras finas ou problema primariamente psicológico.
  • Terapias emergentes: canabinoides, terapia baseada em luz, ultrassom focado de baixa intensidade, agentes psicodélicos e treino de resiliência.

Informação de qualidade também faz parte da preparação

Entender temas como o tratamento, o diagnóstico e os fatores de risco da fibriomialgia é essencial tanto para a prática médica quanto para as provas de residência. Continue acompanhando o Blog do MedCof para aprofundar seus conhecimentos com conteúdos atualizados e baseados em evidências!

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Autor e Revisor

  • Nana Nóbrega é jornalista formada pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (UNESP) e estudante de letras português e linguística da Universidade de São Paulo (USP). Possui experiência em saúde, educação médica e acessibilidade. Na MedCof, atua na produção de conteúdos sobre residência médica, concursos médicos, atualizações e notícias da área da saúde.

  • Dr. Guilherme Orfali

    CRM 184408 RQE 1068981. Graduado em Medicina pela Universidade São Francisco (2016). Residência em Clínica Médica/Medicina Interna (2017-2019) e Anestesiologia (2019-2022) pela Escola Paulista de Medicina/Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp). Título Superior em Anestesiologia pela Sociedade Brasileira de Anestesiologia (TSA-SBA) (2024). Fellowship em Dor (2022-2023) pela EPM-Unifesp com título de especialista em Dor pela Associação Médica Brasileira (AMB) (2023).

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