Hansenologia: o que é, importância médica e como atuar nessa área

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A hansenologia é a área de especialização médica que tem como enfoque o cuidado integral da hanseníase, focando no diagnóstico precoce, tratamento, manejo de complicações e reabilitação, exigindo conhecimentos de Dermatologia, Neurologia e Infectologia. Essa é uma das únicas áreas que permite título de médico especialista dedicado a uma única condição. 

Qual é a importância da hansenologia para a saúde pública?

A hanseníase é uma condição ainda prevalente no mundo todo. O último relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS), identificou 172.717 novos casos da doença em 2024, uma queda de 5,5% em comparação aos últimos anos.

O Brasil também apresentou uma redução de 2,8% nos casos, em relação aos anos anteriores, sendo 22.129 novos diagnósticos. Entretanto, mesmo com essa redução, o país ainda é o segundo com maior número absoluto de notificações, atrás apenas da Índia. 

A doença tem alto índice de diagnóstico tardio no Brasil. O número de casos detectados com grau 2 de incapacidade (G2D) tem crescido e representam 10% do total de novos registros. 

Diagnosticar um indivíduo com hanseníase em fase tardia da doença pode levar a uma série de comorbidades, como incapacidades físicas graves. O atraso resulta em sequelas permanentes e impede a interrupção da cadeia de transmissão da bactéria. 

A área de atuação hansenologia visa condutas clínicas, preventivas, terapêuticas, reabilitativas bem como para a redução do risco de disseminação da infecção na população.

No Brasil, o Centro de Referência Nacional em Hanseníase/Dermatologia Sanitária (Credesh) é referência nacional de hansenologia. A instituição atua no atendimento, controle, prevenção e reabilitação de pacientes com hanseníase e outras dermatoses de interesse sanitário.

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O que é hanseníase?

A hanseníase é uma doença infecciosa crônica, causada pela bactéria Mycobacterium leprae. Até os anos 90, a hanseníase era conhecida como “lepra”, porém o termo foi abolido no Brasil pela pela Lei nº 9.010 de 1995, devido ao estigma que carregava. 

Seus principais sintomas são: manchas esbranquiçadas, avermelhadas ou acastanhadas na pele, alteração de sensibilidade, formigamento, dormência nas mãos e pé e diminuição de força muscular. 

A transmissão da hanseníase ocorre pelo ar, através de gotículas da fala, tosse ou espirro, em contatos próximos e prolongados com um paciente não diagnosticado e tratado. Vale ressaltar que assim que o paciente inicia o tratamento com medicação, ele deixa de transmitir a doença. 

O tratamento de hanseníase dura entre 6 e 12 meses e pode ser acessado de forma gratuita pelo Sistema Único de Saúde (SUS). 

Qual a relação entre hansenologia, dermatologia e infectologia?

A dermatologia e a hansenologia são duas áreas convergentes, que atuam juntas pois ambas tratam de condições relacionadas à pele. A diferença entre as duas é que a dermatologia atua no diagnóstico e tratamento de outras doenças cutâneas, enquanto a hansenologia tem o foco no manejo integral da hanseníase. 

A relação da hansenologia com a infectologia é bem parecida, isso porque especialistas em infectologia desempenham papel fundamental no tratamento de doenças infecciosas e tropicais. 

Desta maneira, as três áreas se beneficiam de uma relação recíproca, com trabalho interdisciplinar que contribua para a redução de casos de hanseníase no Brasil. 

O que faz um médico hansenologista?

O médico hansenologista precisa deter habilidades técnicas, emocionais, reflexivas, críticas e éticas para o diagnóstico clínico e laboratorial da hanseníase e suas afecções concomitantes. 

A rotina de um médico hansenologista é composta por:

Testes de sensibilidades

Exames neurológicos que permitem identificar a lesão de nervos causada pela hanseníase, bem como acompanhar a evolução das mesmas. Alguns dos tipos de testes são o de sensibilidade térmica, dolorosa, tátil e córnea. 

  • Sensibilidade térmica: avalia a capacidade do paciente de diferenciar o calor do frio, através de áreas da lesão;
  • Sensibilidade dolorosa: um objeto pontiagudo é aplicado na área da mancha;
  • Sensibilidade tátil: utiliza monofilamentos (Semmes-Weinstein), algodão, ou diapasões para medir a capacidade do paciente de identificar toques leves, vibração ou pressão;
  • Sensibilidade córnea (estesiometria): um pequeno filamento é encostado suavemente no centro da córnea, e o examinador verifica se o paciente sente o toque.  

Palpação de nervos 

Esse exame também serve para identificar se há lesões nos nervos dos pacientes. O médico deve apalpar com cuidado as áreas em que ficam posicionados os nervos e se manter atento às queixas do examinado. 

Teste de força muscular

O profissional demonstra uma série de movimentos que o paciente deve realizar, enquanto apalpa a musculatura e testa para encontrar alguma interferência que aponte para o diagnóstico de hanseníase. 

Baciloscopia 

A baciloscopia, ou pesquisa de BAAR, é um exame laboratorial rápido que diagnostica e monitora a hanseníase, assim como a tuberculose. Nesse caso, o material da pele é avaliado por técnicas de coloração. 

Biópsia 

Esse é um dos exames fundamentais para o diagnóstico da doença.  A biópsia de hanseníase é realizada por punção, na borda de lesões ativas ou nervos periféricos. O material coletado deve ser submetido a exame histopatológico para identificar a bactéria M.leprae

Manejo de intercorrências

Consiste na rápida identificação e no tratamento imediato de reações hansênicas. Ao todo existem dois tipos de reações: a tipo 1, que é caracterizada pela inflamação aguda de lesões pré-existentes; e a tipo 2, que envolve nódulos dolorosos, febre e mal-estar. 

Para fazer o manejo dessas intercorrências, o médico hansenologista faz o uso de corticoides, com a prednisona ou talidomida. 

O profissional também deve fazer o manejo da dor e avaliação neurológica frequente no paciente, para garantir que não haja sequelas graves como a neurite aguda (dor e espessamento ou perda da função nervosa). 

Acompanhamento pós-alta e reabilitação do paciente 

Depois que o paciente tiver alta do tratamento, o médico precisa manter o acompanhamento para garantir que não haja reinfecção, além de gerenciar as sequelas físicas.

Como se tornar um especialista em Hansenologia?

A hansenologia não é uma especialidade primária, mas uma área de atuação. Ou seja, existem especialidades pré-requisitos para o profissional se tornar um hansenólogo, elas são:

  • Clínica Médica;
  • Dermatologia;
  • Infectologia;
  • Neurologia;
  • Medicina de família e comunidade;
  • Medicina preventiva e social.

O médico só pode cursar a residência médica em hansenologia após cumprir período como residente em alguma das áreas citadas anteriormente. 

Caminho para se tornar médico hansenologista:

  1. Graduação em medicina (6 anos);
  2. Residência em uma das especialidades pré-requisitos (2-3 anos de acordo com a especialidade);
  3. Residência em hansenologia  (1 ano adicional).

A Prova de Título em Hansenologia

Para obter o título de especialista em hansenologia, o profissional precisa prestar a prova de título da Sociedade Brasileira de Hansenologia (SBH) e já ser especialista nas áreas citadas como pré-requisito. 

Outros requisitos para médicos que desejam o título são:

  • Registro definitivo no CRM;
  • Título de Especialista ou conclusão de residência em uma das especialidades de base listadas;
  • Conclusão de programa de residência na área;
  • Ou certificado de treinamento teórico-prático reconhecido pela SBH;
  • Ou atuação prática comprovada de pelo menos 2 anos no SUS na área.

O título de especialista em hansenologia é um diferencial para profissionais que desejam prestar cargos de gestão ou consultoria técnica em saúde pública. Alguns concursos públicos exigem comprovação de Registro de Qualificação de Especialista (RQE).

Residência médica em Hansenologia

A residência médica em hansenologia é uma área de atuação com duração de 1 ano, focada no diagnóstico e tratamento da hanseníase. A especialização é regulamentada pela Resolução CNRM nº 69/2021.

Durante a formação, o profissional aprende a realizar exames físicos específicos, identificar formas clínicas da hanseníase, reconhecer e tratar reações inflamatórias agudas, conduzir investigações laboratoriais, prescrever talidomida e lidar com diversas manifestações da doença. 

A estrutura da residência segue o seguinte padrão:

  • 70% prática assistencial em ambulatórios e enfermarias.
  • 20% atividades teóricas, discussões de caso e seminários.
  • 10% pesquisa, projetos e participação em congressos.

O processo seletivo para a residência médica de hansenologia é semelhante ao de outros programas de Áreas de Atuação, com prova objetiva e análise curricular. No Brasil existem duas instituições com autorização para o programa de hansenologia, a Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP e o Hospital Universitário Gaffrée Guinle da UNIRIO (Enare).

Confira a seguir a matriz de competência do programa de residência médica em hansenologia:

Onde o médico que atua com hansenologia pode trabalhar?

O cenário da hanseníase no Brasil exige atenção redobrada à doença, por isso existem diversas oportunidades de trabalho para o médico hansenologista, seja na rede pública ou particular. O SUS e os  Centros de referência e pesquisa oferecem abertura para profissionais que desejam trabalhar na área, devido às suas equipes especializadas. 

Atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS)

O tratamento de hanseníase é feito de forma gratuita através do SUS, disponível em Unidades Básicas de Saúde (UBS).  O sistema oferece equipes especializadas na doença, que buscam evitar o estigma e diminuir a taxa de transmissão da bactéria da hanseníase. 

As equipes de saúde do SUS são essenciais para a identificação da doença, a aplicação do tratamento e o acompanhamento de pessoas que tiveram contato com o infectado. 

Pacientes que fazem tratamento de hanseníase pelo SUS têm direito ao acompanhamento de médicos hansenologistas, fisioterapeutas (em casos de sequelas) e  neurologistas. 

Além disso, o paciente que desenvolver incapacidade temporária ou permanente devido a doença tem direito ao auxílio-doença ou aposentadoria por invalidez. 

Centros de referência e pesquisa

Os Centros de referência e pesquisa de hanseníase têm como objetivo a assistência de pacientes infectados, em nível nacional. Suas  responsabilidade são:

  • Supervisão e Orientação;
  • Investigação de Resistência Medicamentosa e Recidiva;
  • Tratamento dos Episódios Reacionais;
  • Indicação e Aplicação de Esquemas Terapêuticos especiais.

Outras atividades dos Centros são o desenvolvimento de pesquisa na área e o ensino e desenvolvimento de estratégias de controle da doença. Um exemplo de instituição é o Centro de Referência Nacional em Dermatologia Sanitária e Hanseníase, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (HCFMRP-USP).

Competências importantes para atuar com hansenologia

Antes de mais nada, o especialista em hansenologia precisa cumprir o pré-requisito de ter residência em clínica médica, dermatologia, infectologia, neurologia, medicina de família e comunidade e medicina preventiva e social.

Para o médico que já está trabalhando com hansenologia, as competências essenciais são:

  • capacidade de realizar diagnóstico clínico baseado em sinais e sintomas;
  • habilidade de identificar e tratar episódios reacionais agudos; 
  • conhecimento aprofundado para realizar exame físico neurológico simplificado, avaliar grau de incapacidade física e monitoras a função nervosa;
  • integrar conhecimentos de dermatologia, neurologia, infectologia, clínica e epidemiologia;
  • capacidade de planejar e executar a busca ativa de contatos domiciliares e sociais, aplicando medidas de prevenção (vacinação BCG) e monitoramento.

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Autor

  • Jornalista e linguista. Especialista em acessibilidade para pessoas cegas e com baixa visão.