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Síndrome Compartimental Abdominal: diagnóstico e conduta

A síndrome compartimental abdominal é uma emergência do paciente crítico. Ela surge quando a pressão dentro da cavidade abdominal se eleva de forma sustentada e passa a comprometer a perfusão e a função de múltiplos órgãos.

Por reunir fisiologia, diagnóstico à beira-leito e conduta cirúrgica, o tema é padrão de cobrança em cirurgia geral e medicina intensiva. Entender bem a progressão da hipertensão intra-abdominal até a síndrome estabelecida faz diferença tanto na prova quanto na prática.

O que é a síndrome compartimental abdominal?

A cavidade abdominal tem complacência limitada. Qualquer aumento volumétrico de seus componentes eleva a pressão intra-abdominal (PIA), que, no paciente normal, oscila fisiologicamente entre 5 e 7 mmHg.

Fala-se em hipertensão intra-abdominal (HIA) quando há valores sustentados de PIA acima de 12 mmHg. Um marcador complementar é a pressão de perfusão abdominal (PPC), calculada pela fórmula PPC = PAM − PIA, considerada indicador crítico de viabilidade tecidual.

Diferença entre hipertensão intra-abdominal e SCA

Nem toda hipertensão intra-abdominal é síndrome compartimental. A HIA descreve apenas a elevação sustentada da pressão. Já a SCA é definida como HIA de grau III ou IV associada a uma disfunção orgânica nova — é a HIA que passou a causar falência de órgão.

Como é feita a classificação da hipertensão intra-abdominal?

A gravidade da hipertensão é estratificada em quatro graus, conforme a faixa de PIA:

GrauFaixa de PIA
Grau I12 – 15 mmHg
Grau II16 – 20 mmHg
Grau III21 – 25 mmHg
Grau IV> 25 mmHg

Os graus da hipertensão intra-abdominal orientam a conduta: a SCA costuma se estabelecer nos graus III e IV, quando a pressão elevada já compromete a perfusão dos órgãos.

Hérnia Gigante Incisional. Fonte: https://doi.org/10.1590/S0102-67202010000400015 

Quais são as causas da síndrome compartimental abdominal?

As causas são divididas conforme o mecanismo de instalação:

  • Primária: decorre de patologias abdominais diretas, como pancreatite aguda grave, hematomas retroperitoneais volumosos, peritonites, trauma abdominal e hernioplastias incisionais gigantes.
  • Secundária: resulta de condições extra-abdominais que geram extravasamento capilar sistêmico, como sepse e grandes queimados.
  • Terciária ou recorrente: ocorre quando há recidiva da síndrome após o tratamento inicial.

Quais as repercussões sistêmicas da PIA elevada?

A elevação da pressão intra-abdominal compromete múltiplos sistemas, por compressão direta e por prejuízo ao retorno venoso. Veja o resumo:

SistemaRepercussão
CardiovascularQueda do débito cardíaco por redução da pré-carga (compressão da veia cava) e aumento da pós-carga. Há elevação da resistência vascular periférica e elevações factícias da PVC e da pressão de artéria pulmonar.
RespiratórioElevação do diafragma, com redução da expansibilidade pulmonar, aumento da pressão de pico e da pressão endotraqueal, além do surgimento de atelectasias.
RenalRedução do fluxo sanguíneo renal e da taxa de filtração glomerular, manifestando-se como oligúria progressiva.
GastrointestinalIsquemia da mucosa intestinal e redução do fluxo sanguíneo nos eixos celíaco e mesentérico superior.
SNCAumento da pressão intracraniana (PIC) e redução da pressão de perfusão cerebral.
Radiografia do tórax em incidência posteroanterior (em A) e em perfil (em B) mostrando opacidade com redução volumétrica do lobo superior esquerdo por atelectasia. Fonte: https://doi.org/10.36416/1806-3756/e20230064 

Como diagnosticar e monitorar a pressão intra-abdominal?

O diagnóstico exige alto índice de suspeição em pacientes com abdome tenso, distendido e piora clínica inexplicada — hipotensão, choque ou oligúria. A confirmação depende da medida objetiva da pressão:

  1. Padrão-ouro: a medida da PIA é feita de forma indireta, por cateter intravesical de demora.
  2. Técnica: o transdutor deve ser zerado na altura da sínfise púbica.
  3. Diagnóstico diferencial: é preciso excluir causas como sedação insuficiente (esforço muscular) e grandes volumes de líquido livre intra-abdominal.

Qual o tratamento da síndrome compartimental abdominal?

A conduta se organiza em duas frentes, escolhidas conforme a gravidade e a resposta clínica.

Tratamento clínico

Indicado para otimizar a complacência abdominal e reduzir o volume intraluminal:

  1. Sedação e analgesia otimizadas: reduzem a tensão da musculatura da parede.
  2. Descompressão de órgãos: sonda nasogástrica (SNG), sonda retal e pró-cinéticos.
  3. Bloqueio neuromuscular: considerar em casos de difícil controle.
  4. Drenagem de líquidos: paracentese para coleções ou ascite.
  5. Controle hídrico: evitar balanço hídrico positivo; considerar diálise se necessário.
  6. Posicionamento: manter a cabeceira em, no máximo, 30°.

Tratamento cirúrgico

A descompressão cirúrgica é a conduta definitiva na SCA estabelecida ou na HIA persistentemente elevada (graus III e IV) com disfunções graves, como choque. O procedimento é a peritoneostomia (abdome aberto), que alivia imediatamente a pressão e permite tratar a patologia de base, com reabordagem programada.

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Perguntas frequentes sobre síndrome compartimental abdominal

A partir de qual pressão intra-abdominal se define HIA?

A hipertensão intra-abdominal é definida por valores sustentados de PIA acima de 12 mmHg, sendo a PIA fisiológica no paciente crítico de 5 a 7 mmHg.

Qual a diferença entre HIA e síndrome compartimental abdominal?

A HIA é a elevação sustentada da PIA. A SCA é a HIA de grau III ou IV associada a uma disfunção orgânica nova, com falência de órgão.

Como se mede a pressão intra-abdominal?

O padrão-ouro é a medida indireta por cateter intravesical de demora, com o transdutor zerado na altura da sínfise púbica.

O que é peritoneostomia?

É a descompressão cirúrgica com abdome aberto, indicada na SCA estabelecida para aliviar a pressão de imediato e tratar a causa de base.

Autor e Revisor

  • Kiara Adelino

    Estudante do 5° semestre de Medicina. Gosto bastante de aprender coisas novas, principalmente na área de Neurologia e Anatomia humana.

  • Henrique Simonsen Lunardelli

    Médico pela UNISA | CRM: 183591
    Cirurgião Geral pela USP-SP | RQE: 95439
    Título de Especialista em Cirurgia Geral pelo CBC
    Cirurgia Avançada e Trauma pela USP-SP
    Ex-Preceptor da Disciplina de Cirurgia do Geral e do Grupo de Parede Abdominal da USP-SP
    Coordenador Regional do ATLS
    Coordenador da Residência de Cirurgia Geral do HMB
    Mestrando em Ensino em Saúde pela Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein
    Diretor de Cirurgia Geral do Grupo MedCof

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