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A importância da comunicação na relação médico-paciente

comunicação médico
Quadro “O Médico“, de Luke Fildes

A relação entre médico e paciente começa muito antes do diagnóstico ou da prescrição de um tratamento. Ela se estabelece desde o primeiro contato, na maneira como o profissional recebe o paciente, escuta sua história e investiga seus sintomas. Nesse processo, a comunicação clínica não está separada do raciocínio clínico: é por meio de uma escuta qualificada e da troca de informações que o médico compreende as queixas, identifica elementos relevantes para a avaliação e constrói, junto ao paciente, as decisões relacionadas ao cuidado. 

Essa dimensão humana da medicina pode ser observada em diferentes representações da profissão ao longo da história. Uma das mais conhecidas é o quadro O Médico, do pintor britânico Sir Luke Fildes, produzido em 1891.

Na obra, um médico aparece sentado ao lado de uma criança doente, concentrado e atento enquanto familiares aguardam apreensivos ao fundo. A cena ficou conhecida por representar a dedicação e a presença do médico diante do sofrimento do paciente.

O que é comunicação clínica? 

A comunicação clínica corresponde ao processo de troca de informações entre profissionais de saúde e pacientes ao longo do cuidado. Ela envolve a escuta das queixas, a obtenção da história clínica, a explicação de hipóteses e condutas e a construção compartilhada das decisões relacionadas ao tratamento. 

Envolve aspectos verbais e não verbais. Além das palavras utilizadas durante o atendimento, postura corporal, contato visual, expressão facial, tom de voz e atenção demonstrada pelo profissional também influenciam a interação com o paciente.

Durante um atendimento, por exemplo, o médico precisa fazer perguntas adequadas, ouvir a história apresentada pelo paciente e compreender suas queixas para reunir informações relevantes à avaliação clínica. Ao mesmo tempo, precisa explicar suas hipóteses, esclarecer dúvidas e orientar as condutas de forma compreensível. Assim, a comunicação clínica participa diretamente do raciocínio e da tomada de decisão, e não constitui uma etapa isolada do atendimento.

Essa comunicação também contribui para a construção do vínculo entre médico e paciente, favorecendo uma relação baseada em confiança, escuta e participação ativa no cuidado.

Por isso, uma comunicação clínica eficaz não significa apenas transmitir informações de maneira clara. Ela também exige escuta ativa, capacidade de compreender as necessidades do paciente e atenção aos elementos verbais e não verbais presentes durante o atendimento. Esses aspectos contribuem tanto para a qualidade da avaliação clínica quanto para a construção do vínculo entre médico e paciente.

Por que a comunicação é tão importante para o médico?

O encontro clínico é um momento em que o profissional precisa reunir informações clínicas, compreender a perspectiva do paciente para formular um plano terapêutico. Nesse processo, a comunicação exerce um papel central.

Uma comunicação adequada pode contribuir para:

  • Melhorar a compreensão das queixas e necessidades do paciente;
  • Fortalecer a confiança na relação médico-paciente;
  • Aumentar a satisfação com o atendimento;
  • Facilitar a compreensão das orientações;
  • Favorecer a adesão ao tratamento;
  • Reduzir falhas relacionadas à comunicação;
  • Estabelecer uma relação mais humanizada durante o cuidado.

Isso também mostra que comunicação e competência técnica não devem ser vistas como características separadas. O conhecimento médico precisa ser acompanhado pela capacidade de transmitir informações e compreender aquilo que o paciente está comunicando.

Escutar é parte do atendimento

Um dos principais elementos de uma boa comunicação é a escuta.

Pode ser tentador direcionar rapidamente a conversa para os sintomas mais evidentes ou para a investigação diagnóstica. No entanto, permitir que o paciente conte sua história e prestar atenção ao que ele diz pode fornecer informações importantes para a compreensão do caso.

Um dos principais elementos de uma boa comunicação clínica é a escuta.

Pode ser tentador direcionar rapidamente a conversa para os sintomas mais evidentes ou para a investigação diagnóstica. No entanto, permitir que o paciente conte sua história e prestar atenção ao que ele diz pode fornecer informações importantes para a compreensão do caso e para a condução do atendimento.

A escuta clínica, porém, não significa apenas permanecer em silêncio enquanto o paciente fala. O silêncio pode assumir diferentes funções ao longo da consulta, e saber quando utilizá-lo também faz parte da comunicação clínica.

No início do atendimento, por exemplo, uma estratégia conhecida como “golden minute” consiste em permitir que o paciente apresente sua principal queixa sem interrupções precipitadas. Esse momento favorece uma compreensão mais ampla da demanda e pode ajudar a evitar que informações relevantes sejam deixadas de lado.

Em outros momentos, o silêncio pode ser utilizado para dar tempo ao paciente para organizar seus pensamentos ou processar uma informação difícil. Diante de uma notícia ou orientação delicada, por exemplo, preencher imediatamente o silêncio com frases tranquilizadoras pode não ser a melhor estratégia. Às vezes, oferecer espaço para que o paciente assimile o que foi dito e manifeste suas reações é uma forma mais adequada de acolhimento.

Por outro lado, a escuta também envolve saber quando e como intervir. Perguntas abertas podem favorecer o relato inicial, enquanto perguntas mais direcionadas ajudam a esclarecer informações relevantes para a avaliação clínica. Dessa forma, escutar não significa deixar a consulta seguir sem direcionamento, mas equilibrar momentos de fala, silêncio e intervenção de acordo com as necessidades de cada situação.

Além da escuta, a comunicação clínica exige uma condução ativa da consulta. O profissional pode utilizar estratégias de exploração para compreender aspectos que nem sempre aparecem espontaneamente no relato do paciente, como suas expectativas, ideias, sentimentos, medos e percepções sobre a doença e o cuidado.

Nesse contexto, técnicas de comunicação, como a SIFE, ajudam o profissional a explorar essas dimensões de maneira estruturada, ampliando a compreensão sobre o que o paciente pensa, sente e espera do atendimento.

Assim, compreender o paciente vai além de ouvir o que ele diz: também envolve saber conduzir a conversa para identificar aspectos que podem influenciar sua experiência, suas decisões e sua participação no cuidado.

Clareza é fundamental na comunicação médica

Outro desafio da comunicação médico-paciente é transformar informações técnicas em uma linguagem que faça sentido para quem está recebendo aquela informação.

Termos médicos fazem parte da rotina profissional, mas podem dificultar a compreensão do paciente quando utilizados sem explicação.

Uma comunicação clara não significa simplificar excessivamente o conteúdo ou deixar de apresentar informações importantes. Significa adequar a linguagem à pessoa que está sendo atendida.

Durante uma consulta, o médico pode:

  • Evitar termos técnicos desnecessários;
  • Explicar conceitos médicos de maneira acessível;
  • Organizar as informações por etapas;
  • Utilizar exemplos quando necessário;
  • Abrir espaço para perguntas;
  • Confirmar se o paciente compreendeu as orientações.

Esse último ponto é especialmente importante. Explicar não significa necessariamente que a informação foi compreendida.

Uma estratégia é substituir a pergunta direta “Você entendeu?” por uma abordagem que dê ao paciente espaço para explicar o que compreendeu, sem atribuir a ele a responsabilidade por uma eventual dificuldade de comunicação. Por exemplo:

“Não sei se fui claro na minha explicação. Para ter certeza de que consegui explicar bem, você pode me contar o que entendeu até aqui?”

A partir da resposta, o médico pode identificar dúvidas, retomar informações e adaptar a explicação quando necessário. Dessa forma, a clareza deixa de ser apenas uma característica da fala do profissional e passa a fazer parte de um processo de comunicação em que cabe ao médico conduzir a conversa e garantir que as informações essenciais tenham sido compreendidas.

Empatia e comunicação não verbal

A comunicação também acontece sem palavras.

O contato visual, a postura, o tom de voz e a expressão facial podem transmitir atenção, disponibilidade ou, ao contrário, pressa e distanciamento.

Imagine, por exemplo, um médico que explica detalhadamente um diagnóstico, mas permanece olhando para o computador durante toda a conversa. Embora a informação transmitida possa estar correta, a comunicação pode ser percebida pelo paciente como fria ou pouco acolhedora.

Da mesma forma, uma postura atenta e um olhar direcionado ao paciente podem contribuir para estabelecer um ambiente de maior confiança.

A empatia também ocupa um papel importante nesse processo. Ela não significa concordar com tudo o que o paciente diz, mas demonstrar capacidade de reconhecer e compreender suas preocupações e perspectivas.

Assim, aspectos técnicos e relacionais precisam caminhar juntos.

A comunicação influencia a confiança do paciente

A confiança é um dos elementos centrais da relação médico-paciente.

Quando o paciente percebe que está sendo ouvido, compreende as informações recebidas e sente que suas dúvidas são consideradas, pode desenvolver maior confiança no profissional e no cuidado proposto.

Essa relação não é apenas uma questão de satisfação com a consulta.

Um estudo conduzido por pesquisadores do Centro de Desenvolvimento de Educação Médica (CEDEM), da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), publicado em 2026, analisou a relação entre as competências do médico, as expectativas dos pacientes e o contexto do atendimento.

A pesquisa, realizada com 60 pacientes atendidos no Hospital das Clínicas da FMUSP, mostrou que habilidades como escuta ativa, empatia e clareza nas explicações são importantes para a construção da confiança. O trabalho também destaca que a experiência e as expectativas individuais do paciente e o próprio contexto do atendimento influenciam a forma como a relação é percebida.

Os pesquisadores ressaltam ainda que confiança e satisfação podem influenciar o engajamento do paciente, a adesão ao tratamento e, consequentemente, os resultados em saúde.

Dessa forma, a comunicação deixa de ser apenas uma habilidade desejável para se tornar uma competência diretamente relacionada à qualidade do cuidado.

O paciente também participa da comunicação

Embora a responsabilidade pela condução da consulta seja do médico, a comunicação é uma via de mão dupla.

O paciente também precisa se sentir seguro para relatar sintomas, hábitos, preocupações e dificuldades relacionadas ao tratamento.

Quando informações importantes deixam de ser compartilhadas, seja por vergonha, medo ou falta de confiança, o médico pode ter mais dificuldade para compreender adequadamente o caso.

Por isso, construir um ambiente de acolhimento e respeito é fundamental para favorecer uma comunicação mais aberta.

Quanto maior a transparência nessa relação, maiores são as possibilidades de que médico e paciente consigam trabalhar juntos na tomada de decisões relacionadas ao cuidado.

Comunicação é uma competência médica e uma ferramenta de cuidado 

A formação médica tradicionalmente dá grande importância ao conhecimento científico, ao raciocínio clínico e ao domínio de procedimentos. Entretanto, a capacidade de se comunicar também faz parte das competências necessárias à prática médica.

Saber ouvir um paciente, explicar uma conduta, lidar com dúvidas, transmitir uma notícia difícil e estabelecer uma relação de confiança são habilidades que podem ser desenvolvidas ao longo da formação e da prática profissional. O estudo da FMUSP reforça justamente essa perspectiva ao apontar que as habilidades comunicacionais devem ser ensinadas e avaliadas com o mesmo rigor dedicado a outras competências médicas.

Além de ser uma habilidade complementar, a comunicação é também uma ferramenta de cuidado. A medicina envolve conhecimento técnico, tomada de decisões e cuidado com pessoas. Para que esses elementos funcionem em conjunto, é necessário que exista uma comunicação clínica eficiente, capaz de aproximar o conhecimento técnico das necessidades e da realidade de cada paciente.

Escutar com atenção, falar de maneira clara, demonstrar empatia, explorar as expectativas do paciente e criar espaço para dúvidas são atitudes que contribuem para uma relação de confiança e para um cuidado mais adequado às necessidades de cada pessoa.

O quadro O Médico, de Luke Fildes, retrata um profissional atento diante do sofrimento de uma criança. Mais de um século depois, a representação continua provocando uma reflexão pertinente: o cuidado médico não acontece apenas quando o médico diagnostica ou prescreve, mas também quando está presente, escuta e se comunica com quem precisa de cuidado.

Quadro “O Médico“, de Luke Fildes

Nesse sentido, desenvolver habilidades de comunicação não significa apenas aprimorar a maneira de conversar com o paciente. Significa desenvolver uma competência essencial à prática clínica e uma ferramenta que contribui para um cuidado mais seguro, humano e centrado no paciente.

Por isso, desenvolver boas habilidades de comunicação é também desenvolver uma prática médica mais segura, humana e centrada no paciente.

A medicina também se constrói na relação com o paciente

Conhecimento técnico é essencial, mas saber aplicá-lo na prática, comunicar-se com clareza e lidar com diferentes situações do atendimento também faz parte da formação médica.

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Referências

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ. Comunicação médico-paciente. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 2021. Disponível em: https://saude.ufpr.br/medintegrada/wp-content/uploads/sites/40/2021/01/Comunicacao-medico_paciente.pdf. Acesso em: 7 ago. 2026.

ROCHE. A importância da comunicação na relação médico-paciente. Roche Brasil, [s. d.]. Disponível em: https://www.roche.com.br/por-dentro-da-roche/a-importancia-da-comunicacao-na-relacao-medico-paciente. Acesso em: 7 ago. 2026.

FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Comunicação médica eficaz fortalece a confiança e a satisfação dos pacientes, aponta estudo da FMUSP. Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, 28 abr. 2026. Disponível em: https://www3.fm.usp.br/fmusp/noticias/comunicacao-medica-eficaz-fortalece-a-confianca-e-a-satisfacao-dos-pacientes-aponta-estudo-da-fmusp. Acesso em: 7 ago. 2026.

SILVA, Pedro Ribeiro da. A comunicação na prática médica: seu papel como componente terapêutico. Revista Portuguesa de Clínica Geral, v. 24, n. 5, p. 505-512, 2008. Disponível em: PDF do artigo. Acesso em: 7 ago. 2026.

Autor e Revisor

  • Leila Menzel

    Leila Menzel é estudante de Jornalismo na Anhanguera e atua na produção de conteúdo jornalístico sobre saúde e educação médica. Na MedCof, produz e atualiza conteúdos relacionados à residência médica, processos seletivos, editais e especialidades médicas, acompanhando notícias e informações relevantes para estudantes e médicos em preparação para provas e processos seletivos.

  • Médica pela Faculdade de Ciências Médicas de Santos |CRM SP 236078
    Residente em Medicina de Família e Comunidade no Hospital Israelita Albert Einstein
    Pós graduada em Transtornos Alimentares pelo HCFMUSP
    Pós-graduanda em preceptoria médica pela UFMG

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