
Síndrome e Fenômeno de Raynaud (FRy) são uma condição caracterizada pela redução do fluxo sanguíneo nas extremidades do corpo, atribuindo assim uma coloração azul/acinzentada na região dos dedos, orelhas e/ou nariz. Veja mais no texto abaixo
Como ocorre o fenômeno de Raynaud? Fisiopatologia
Para compreender o fenômeno de Raynaud é preciso primeiro entender o que acontece normalmente quando o corpo é exposto ao frio.
Em condições fisiológicas, a queda de temperatura ativa o sistema nervoso simpático, que induz uma vasoconstrição moderada e reversível nas arteríolas periféricas, mecanismo de defesa que preserva o calor corporal central.
No fenômeno de Raynaud, essa resposta vasomotora é exagerada, desproporcional e prolongada, comprometendo de forma crítica a microcirculação das extremidades.
O desequilíbrio vasomotor central
A fisiopatologia do Raynaud envolve uma disfunção vasomotora com predomínio do tônus simpático adrenérgico.
Nas arteríolas digitais dos pacientes afetados, há uma hiperreatividade dos receptores alfa-2 adrenérgicos, que medeiam vasoconstrição, em detrimento dos mecanismos vasodilatadores.
Esse desequilíbrio se traduz em vasoespasmo intenso diante de estímulos que, em indivíduos saudáveis, produziriam apenas uma resposta circulatória discreta.
Dois mediadores são centrais para entender esse processo:
Endotelinas (especialmente endotelina-1): potentes vasoconstritores liberados pelo endotélio vascular, encontrados em concentrações elevadas em pacientes com Raynaud, sobretudo na forma secundária associada à esclerose sistêmica. Estimulam a contração das células musculares lisas vasculares e agravam o vasoespasmo.
Óxido nítrico (NO): o principal vasodilatador endógeno, produzido pelas células endoteliais. Em pacientes com Raynaud, a biodisponibilidade do óxido nítrico está reduzida, o que compromete a capacidade de vasodilatação compensatória após o vasoespasmo.
O resultado desse desequilíbrio, excesso de endotelinas, deficiência de óxido nítrico e hipersensibilidade adrenérgica, é uma arteríola digital que contrai facilmente e tem grande dificuldade em relaxar.
A tríade de cores: o espelho da fisiopatologia
A sequência clássica de alteração da coloração das extremidades é, na prática, uma representação visual direta das fases do vasoespasmo:

1. Branco (palidez) — Fase isquêmica
O vasoespasmo intenso das arteríolas digitais interrompe o fluxo sanguíneo local. Sem sangue nos capilares superficiais, a pele fica esbranquiçada e fria. Esta fase corresponde à isquemia tecidual aguda e é geralmente acompanhada de dormência e formigamento.
2. Azul/roxo (cianose) — Fase de desoxigenação
Com o vasoespasmo mantido, pequenos volumes de sangue permanecem estagnados nos capilares e vênulas pós-capilares. Esse sangue progressivamente desoxigenado confere à pele a tonalidade azulada ou arroxeada característica. A sensação de frio e dormência se intensifica.
3. Vermelho (hiperemia reativa) — Fase de reperfusão
Cessado o estímulo desencadeante, a vasoconstrição cede e ocorre uma vasodilatação reativa intensa. O fluxo sanguíneo retorna rapidamente às extremidades — muitas vezes de forma exagerada — causando rubor, calor local, sensação de queimação e, em alguns pacientes, dor latejante. Esta fase sinaliza o fim do episódio.

O que causa o fenômeno de Raynaud?
Pode ser considerado como uma doença arterial periférica funcional, ou seja, a dilatação e contração das artérias presentes nas regiões periféricas do corpo funcionam de maneira excessiva, não correspondendo à normalidade desse processo e, consequentemente, causando uma alteração no fluxo sanguíneo.
No caso do Raynaud, ocorre uma vasoconstrição, sendo ela causada por diversos fatores, impossibilitando a dilatação completa das artérias. Veja abaixo quais podem ser consideradas as principais condições para essa ocorrência:
- Exposição ao frio: apontado como o principal fator da síndrome de Raynaud, a exposição ao frio possibilita a contração excessiva dos vasos periféricos, causando assim modificação do fluxo sanguíneo.
- Estresse emocional: o estresse pode alterar o fluxo sanguíneo do corpo, portanto, permite que a síndrome se manifeste de alguma maneira, agindo assim nas extremidades.
- Doenças autoimunes: a preexistência de uma condição autoimune pode facilitar a ocorrência de casos de Raynaud, como é o caso da esclerose sistêmica, lúpus, vasculites e miopatias autoimunes sistêmicas são exemplos desses casos.
- Nessas situações já podemos definir o FRy como secundário (vide abaixo)
- Tabagismo: a nicotina, presente no cigarro, causa também a contração dos vasos nas regiões afetadas, logo facilita a incidência da síndrome de Raynaud.
Sintomas do Fenômeno de Raynaud
O fenômeno de Raynaud possui manifestações que, logo no primeiro momento, é possível identificar a condição.
Como principal sintoma dessa doença, pode ser destacada a palidez nos dedos das mãos e pés do indivíduo, isso por conta da alteração na corrente sanguínea na região, conforme já mencionado. Além dessa característica, é notável a presença de formigamento, dormência e, até mesmo, dores na parte afetada.
Alteração na cor das extremidades
Como já dito anteriormente, a palidez e a alteração de cor nas extremidades do corpo, pode ser considerada o principal sinal da manifestação da síndrome de Raynaud.
Isso ocorre devido a uma alteração do fluxo sanguíneo presente no local acometido, o que pode acarretar na mudança de cor desses lugares, iniciando com uma tonalidade pálida, podendo evoluir para uma coloração azul acinzentada. Vale lembrar que a ocorrência desse aspecto se desenvolve por conta do vasoespasmo, condição no qual o calibre dos vasos sanguíneos é estreitado.
Outros sintomas associados
Já evidenciado acima, o fenômeno de Raynaud se manifesta também por meio de alterações físicas na região afetada. Exemplos disso são os casos de formigamento, inchaço, alterações na pele (em casos prolongados, a textura pode alternar em uma pele mais lisa ou rígida), sensação de queimação e, até mesmo, o surgimento de feridas na área afetada (denotando nesse caso um FRy secundário, ou seja, mais patológico).
Fatores de risco para o Fenômeno de Raynaud
A incidência nos casos do fenômeno de Raynaud podem estar relacionadas a fatores de risco específicos. Veja abaixo quais os aspectos que levam a essa maior ocorrência.
- Idade: um dos fatores mais atribuídos a causa iminente da síndrome de Raynaud é a faixa etária do indivíduo. Diferentemente de outras enfermidades, esse fenômeno costuma atingir as pessoas entre as idades de 15 a 40 anos, em sua maioria, demonstrando assim um padrão mais jovial de casos.
- Gênero: o acometimento dessa condição ocorre, em sua maior parte, em pessoas do gênero feminino, tornando-se assim um fator de risco.
- Doenças autoimunes: acometimentos como Lúpus, vasculites, miopatias autoimunes sistêmicas, esclerose sistêmica e outros distúrbios nessa classificação que acometem os sistemas musculoesquelético e o tecido conjuntivo, contribuirão para a incidência desse fenômeno.
- Tabagismo: já mencionado ao longo do texto, o hábito de fumar facilita a ocorrência desses casos, pois a presença de toxinas no cigarro, como a nicotina, contribuem para o fenômeno de Raynaud, pois alteram o fluxo sanguíneo corporal.
- Uso de medicamentos: a utilização, mesmo que momentânea, de alguns fármacos pode contribuir para o surgimento desses casos. É o caso de remédios que possuem como base betabloqueadores, metisergida, clonidina, entre outros. Isso acontece por conta da possível constrição dos vasos, favorecendo a incidência desse fator.
Quais são as complicações do Fenômeno de Raynaud?
Assim como outras enfermidades, o Fenômeno de Raynaud precisa ser acompanhado por um médico, evitando assim um agravamento do quadro.
Especialmente na forma secundária, pode desencadear algumas complicações nas regiões afetadas, causando lesões na região, como úlceras e gangrenas que, quando não tratadas, podem levar à amputação do membro.
Diferenças entre o fenômeno de Raynaud primário e secundário
Ambos os termos condizem com uma mesma incidência, sendo essa causada em sua maior parte pela exposição ao frio e/ou a um nível alterado de estresse psicológico. Porém, o que vai diferenciá-los é em relação a preexistência de algum acometimento prévio, podendo esse ser até um distúrbio autoimune. Veja abaixo a definição de cada um:
- Fenômeno de Raynaud primário ou Síndrome de Raynaud: abrangendo mais de 60% dos casos, essa classificação corresponde a não existência de um acometimento prévio, sendo a ocorrência desse tipo desencadeada pelos motivos comuns, estresse e o frio, é um padrão mais “benigno”.
- Fenômeno de Raynaud secundário: caracterizado por uma condição médica subjacente, ou seja, com alguma enfermidade preexistente, funcionando assim como um facilitador para que essa condição ocorra. É um dos achados mais típicos da esclerose sistêmica.
Como diagnosticar o Fenômeno de Raynaud?
O diagnóstico do fenômeno de Raynaud é, por vezes, feito de maneira clínica, por meio de uma avaliação física simples, na qual o profissional já consegue identificar a ocorrência. Logo, caso não haja nenhuma pré-sinalização de outro caso, não há necessidade de exames laboratoriais para o diagnóstico.
O principal ponto é identificar se há comemorativos para um fenômeno de Raynaud primário, ou seja, a síndrome de Raynaud por si só, que não tem causa patológica subjacente e pode ser encontrada em cerca de 12-15% da população, com predileção por adultos jovens do sexo feminino. Ou se há comemorativos para um fenômeno de Raynaud secundário, geralmente com apresentação de pitting scars e úlceras digitais, que já denotam uma FRy de pior prognóstico e forte associação com uma doença subjacente.
Caso haja a suspeita e principalmente para sanar tais dúvidas, o médico responsável poderá solicitar análises de possíveis acometimentos que estejam facilitando a ocorrência desse quadro. O principal exame é a capilaroscopia peringueal (CPU), no qual conseguimos observar os microcapilares das cutículas dos pacientes procurando alguma quebra do padrão normal e presença de um padrão patológico (Scleroderma Pattern – Padrão SD). É um exame simples, não invasivo, feito através do auxílio de um microscópio específico.

Qual é o tratamento do Fenômeno de Raynaud?
Desde medidas mais simples, como cobrir partes do corpo contra o frio a intervenções medicamentosas, funcionam para o controle dessa ocorrência. Veja abaixo as formas de tratamento para o fenômeno de Raynaud:
Terapêutica não medicamentosa
O tratamento se inicia com a reeducação do paciente sobre as causas para prevenir crises. Evitar temperaturas frias é a melhor forma de precaução.
O aquecimento do corpo, com roupas quentes e apropriadas, como meias, luvas e chapéus, deve ser uma prioridade. Evitar traumatismos nos dedos também é de extrema importância. O estresse emocional e a ansiedade podem agravar as crises. Em alguns pacientes, são necessárias e aconselhadas terapias para manejo do estresse.
Terapêutica medicamentosa
Não há tratamento específico para cura do fenômeno de Raynaud. Além das mudanças comportamentais, algumas medicações podem ajudar no manejo e prevenção das crises, como bloqueadores do canal de cálcio, por exemplo nifedipino e anlodipino, inibidores da fosfodiesterase tipo 5 (PDE5), como sildenafil e para a profilaxia de úlceras um antagonista dos receptores de endotelina como a bosentana.
Claro, para os pacientes com o fenômeno de Raynaud secundário, é necessário tratar a condição base, conforme cada doença.
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